Internacional

Os analistas estão errados – de novo 

Mark Carney discursa no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em 21 jan. 2026 (Fonte: Wikimedia Commons. Crédito: captura de tela de vídeo do WEF, YouTube)

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Por Marcus Tavares* [Panorama EUA] [Internacional] [Ordem internacional]

Davos, janeiro de 2026. Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, sobe ao palanque como quem carrega consigo o desvelar de uma realidade há muito sabida e pouco admitida. A verdade ainda não terminou de ser digerida pelo próprio corpo. A mão demora um instante a mais no púlpito. Os olhos percorrem o público, como quem deseja falar a todos de uma vez. O franzir insistente da testa denuncia a tensão de falar quando o vizinho mais poderoso trata soberania como variável sob escrutínio. Dias antes, Donald Trump voltara a repetir que o Canadá “vive por causa dos Estados Unidos” e, desde 2025, flerta com a fantasia do “51º estado”, misturando bravata, coerção econômica e humilhação pública como diplomacia. 

Carney sente o peso específico de ter sido empurrado a dizer, em voz alta, aquilo que Ottawa já estava a sussurrar: a era das “relações profundas” com Washington acabou. A sequência de tarifas e ameaças converteu a aliança em passado. O risco impôs a necessidade de mudanças. A ruptura, ali, longe do gesto romântico de independência, toma a forma de sobrevivência estratégica diante de um garantidor que passou a cobrar um duro ágio. 

A plateia percebe o peso do momento. Davos não está em silêncio, está em suspensão. O que se espera não é um diagnóstico econômico, mas um veredicto sobre a própria palavra “ordem”. Se um aliado pode ser tratado como anexável, tarifável e descartável, o que chamávamos de “ordem liberal” era o quê — lei, parceria ou hierarquia com rótulo? Carney aproxima a boca do microfone e, antes da primeira frase, o mundo já sente o peso do cronômetro que recomeça o fluxo da história. 

Ele começa em francês, como quem se ancora no próprio país antes de encarar o mundo, e em seguida troca para o inglês com uma sentença que já é diagnóstico e antídoto: fala de uma “ruptura na ordem mundial” e do fim de uma “ficção agradável”, substituída por uma realidade em que a geopolítica das grandes potências não aceita limites. O eixo do discurso não gira em torno de nostalgia; gira em torno de uma confissão. Carney chama pelo nome a fadiga do velho vocabulário: a “ordem baseada em regras” se esvai, e a frase de Tucídides — “os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem” — volta a ser citada como se fosse física, não escolha. 

O salto que dá o peso do pronunciamento vem quando ele recusa a postura confortável de quem finge surpresa. Em vez de vender esperança como etiqueta, Carney descreve um mecanismo. Durante décadas, países médios prosperaram dentro do que chamavam de ordem baseada em regras, ingressaram em instituições e colheram previsibilidade. Ao mesmo tempo, sabiam que a aplicação das regras era desigual e que a lei internacional variava conforme o nome do acusado e o valor do aliado. O “acordo” funcionava porque era útil. A hegemonia americana, ele reconhece, entregava o pacote clássico de “bens públicos” — rotas marítimas abertas, sistema financeiro estável, segurança coletiva, arenas de solução de disputas. A ordem persistia porque muitos, por conveniência e medo de custo, agiam como se acreditassem plenamente nela.  

A plateia entende a mensagem sem precisar de nota de rodapé. Ele empurra a conversa para onde dói: integração econômica virou arma, e tarifas e infraestrutura financeira, coerção. Cadeias de suprimento passaram a ser tratadas como vulnerabilidade a explorar. A frase que corta o ar, repetida como martelo, sela o argumento: ruptura, não transição. Há um cálculo frio embutido nisso. Quando grandes potências abandonam até a encenação de regras, a monetização infinita de relações se torna inviável. Aliados diversificam, e a confiança deixa de ser norma. 

O discurso, então, fecha a armadilha. A crise pode desaguar em um mundo de busca por reafirmação nacional, porém mais pobre e mais frágil. Coalizões entre potências médias podem buscar reduzir a coerção e recuperar margem de atuação. Em qualquer caso, a palavra “ordem” muda de significado diante de todos: lei, hierarquia e coordenação entram em choque. Ao ouvir Carney admitir que a velha ficção funcionou porque entregava previsibilidade monetária e segurança, a memória é conduzida por uma profunda viagem no tempo. Jornada que revela que o apego à ficção é mais forte do que a autopercepção que o discurso pretende proclamar.  

Afinal, o motor da ordem liberal sempre esteve na moeda. E a moeda, sempre que pode, veste-se com toda a pompa de virtude pública e circula como mercadoria de luxo: cobra caro, seleciona quem pode tocar-lhe a mão, distribui favores conforme a conta e, quando necessário, moraliza seus próprios impactos deletérios. Vende-se como neutra, enquanto opera por preferências. E, no fim, entrega-se ao poder que paga melhor, ainda que exija que todos finjam não ter visto o preço. 

Nos momentos de crise, porém, essa mesma moeda troca o figurino. A elegância moral cede lugar: a neutralidade vira exceção administrada; a regra vira instrumento; e o mercado, que outrora pregava disciplina, descobre a urgência do resgate. O capital, quando sente o chão abrir, não hesita em mudar de moral e de método. Pede proteção, exige liquidez, reivindica soberania e converte bancos centrais em quartéis de estabilização. A escassez se torna arma de negociação. A moeda deixa de seduzir como promessa e passa a coagir como ameaça — não mais o luxo seletivo que premia favoritos, mas a logística fria de quem decide quais economias respiram, quais pagam o ajuste e quais aprenderão, pela dor, que “confiança” é apenas ficção. E, se preciso for, recorre-se à guerra sem escrutínios.  

Trump e a decomposição da ordem internacional

Amplie o debate com este Panorama EUA, de Williams Gonçalves

A confissão de Carney não soa como novidade, mas como um surto de lucidez. Como alguém que sempre soube da verdade, mas evitou a todo custo dizê-la em voz alta – como se isso fosse permitir que ela se esvaísse sozinha. A ordem liberal não perde o motor; apenas se despe de seu traje de gala. Quando a promessa já não convence, o sistema troca o vocabulário: “prosperidade” cede lugar a “segurança”, “regras” viram “interesses”, e o sacrifício é apresentado como dever. A ficção permanece porque continua sendo o modo mais barato de administrar a desigualdade de acesso ao espaço e ao tempo. 

Ao mergulharmos na história em busca do nascimento da hegemonia americana, recuamos até o instante em que o mecanismo que nos mói em suas engrenagens foi desenhado. Sem alarde, Davos se afasta, e chegamos a 1944.  

*** 

Bretton Woods: corredores de hotel, delegações em desgaste, a guerra ainda em aberto e, no centro, uma disputa que já escrevia o futuro. Keynes tenta impedir que a moeda de um Estado se torne o eixo do mundo. Washington lê esse eixo como poder. Entre a simetria desenhada e o privilégio buscado, vence a arquitetura em que a liquidez global nasce com passaporte americano — e a “ordem baseada em regras” emerge, ali, como convenção funcional. Estabilidade para quem precisava de coordenação, liderança para quem podia impor parâmetros.  

O Bancor e a International Clearing Union eram a engenharia britânica para fazer o custo do desequilíbrio recair também sobre os países superavitários (credores), e não apenas sobre os deficitários. A ideia era forçar ajuste em duas mãos: limitar o acúmulo permanente de superávits, reduzir a necessidade de contrações e austeridade nos deficitários, e impedir que o centro transformasse a interdependência em extorsão — isto é, que convertesse a dependência de liquidez e de reservas em instrumento para dirigir a economia global. 

Do outro lado, o desenho norte-americano (Plano White) fixa o dólar como moeda de conta internacional, com conversibilidade em ouro, e organiza um fundo de estabilização que, na prática, mantém sob tutela dos EUA a chave da liquidez econômica global. A correlação de forças na reta final da segunda grande guerra encerra a disputa. O joint statement mesmo antes do fim do conflito já se inclina para White. A derrota de Keynes se inscreve na engrenagem do novo sistema. No Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e no Fundo Monetário Internacional (FMI), aportes e quotas foram calculados em dólar/ouro, e o poder de voto passou a ser ponderado pelo tamanho da contribuição — uma contabilidade que transforma capacidade financeira em comando institucional e consolida, desde a origem, a assimetria que o britânico tentava bloquear. 

A utilidade para Washington é imediata e, ao mesmo tempo que estabiliza paridades, também converte a moeda nacional em infraestrutura do sistema internacional. Essa centralidade, porém, não brota de “escolhas espontâneas de mercado”; ela é produzida por instrumentos político-diplomáticos e pelo próprio esforço de guerra e reconstrução. E por que o capital global não travou a máquina? Porque o arranjo entregava o que a acumulação exigia no curto prazo: previsibilidade cambial, acesso a financiamento e um “território monetário”, no qual comércio, reservas e estabilização passavam a orbitar a mesma unidade. 

Ao financiar a reconstrução europeia e fixar valores, garantias e modalidades em dólares, o Plano Marshall injeta liquidez, reordena mercados e consolida a primazia da moeda americana. Esse cenário é útil ao Estado hegemônico e funcional às frações capitalistas internacionais dependentes de crédito, de importações estratégicas e do acesso ao mercado americano para recompor capacidade produtiva e lucros. Em 1945, o Pós-Guerra não oferece apenas ruínas. O quadro vivenciado entrega inflação, escassez, racionamento, greves, partidos comunistas com capilaridade social e prestígio de resistência. Além disso, a memória mantém viva a lembrança recente de que colapsos monetários e desemprego em massa tendem a abrir caminho para regimes que não pedem licença. 

Nesse clima, o internacionalismo monetário vira linguagem de segurança. Aquilo que, na mesa, soaria como concessão externa passa a ser apresentado como profilaxia doméstica. Estabilizar câmbio, assegurar pagamentos e irrigar tanto o comércio quanto a reconstrução com crédito impedem que a desorganização econômica se traduza em encantamento pela alternativa soviética. 

Ao analisarmos a Bretton Woods Agreements Act, constata-se que o debate não se estruturou em torno de um “interesse mundial” abstrato; mas que gravitou as ideias de custos, controle, riscos e vantagens. A pergunta que disciplina a adesão ao FMI e ao BIRD não é “como servir ao mundo”, e sim como preservar a posição norte-americana em um cenário em que a competição ideológica já aparece no horizonte. Bretton Woods entra, assim, como tecnologia de governo do capitalismo global: reduz fricção sistêmica e mantém a chave da liquidez no bolso do centro. 

O Estado não fala com uma única voz, ele organiza a disputa entre frações e a converte em direção. Há capital industrial interessado em mercados abertos e previsíveis; finanças interessadas em circuitos de crédito e intermediação; exportadores famintos por demanda; setores defensivos receosos de compromissos externos. Bretton Woods surge como condensação desse conflito. Necessita disciplinar o próprio bloco no poder, enquanto projeta para fora um arranjo favorável à sua continuidade. 

O Plano Marshall completa a gramática e opera como engenharia de estabilização. Dólares, insumos, reconstrução produtiva, coordenação de importações, reativação de mercados — e, sob o vocabulário público, a obsessão com a política. A Europa precisava voltar a respirar economicamente para não transformar a precariedade e a miséria em uma plataforma comunista. O dinheiro circula, as fábricas reabrem, o comércio retoma, e a moeda que financia essa respiração se naturaliza como eixo econômico do mundo. O “bem público” da recuperação não dissolve a hierarquia, pelo contrário, produz aderência ao centro financeiro por necessidade material, organiza consentimento pelo cotidiano e converte contenção ideológica em rotina econômica. 

Desde a origem, portanto, a fase americana da ordem liberal não carrega inocência, pois a ordem antecede a liderança dos EUA. O bloco no poder do hegemon entra primeiro, sempre. O “internacional” aparece como forma de administração do próprio interesse. Estabiliza-se o mundo para estabilizar a posição do centro, universaliza-se regras para universalizar acesso ao que lhe serve, oferta-se liquidez para conservar comando sobre o espaço e sobre o tempo. Quando Carney, em 2026, fala do fim da “ficção agradável”, ele não revela um segredo. O primeiro-ministro canadense esbarra em uma verdade antiga e já sabida, inaugurada quando a contenção do comunismo virou senha para que o capitalismo americano aceitasse, sem vergonha, um multilateralismo que já nascia sob sua posse. 

O temor de Keynes e a hierarquia estrutural 

O passar dos anos deixa cada vez mais nítido que o hegemon ganha uma faculdade que os demais países não retêm: comprar tempo com a própria moeda. Rolar obrigações, definir a taxa do fôlego, esticar prazos e converter escassez alheia em corrida por seus ativos. As demais nações compram tempo por outra via: comprimindo salários, cortando importações, aceitando recessões como preço da sua permanência no sistema financeiro internacional. Ao longo das décadas, mudam os termos, variam os instrumentos, mas o desenho retorna com a mesma insistência. Foi isso que Keynes enxergou com a nitidez de quem ainda vê algo ainda distante no horizonte. Bretton Woods nasceu embalado pela promessa de disciplina e de entrega; no fim, um benefício estrutural que dispensa virtude e exige apenas posição. 

Giscard d’Estaing, ministro das Finanças da França, em 1965, ofereceu a adjetivação que atravessaria décadas: “privilégio exorbitante”. Ela funciona porque nomeia o que já operava como normalidade e retorna a intuição de Keynes: quando uma moeda nacional ocupa o centro, o comando deixa de ser contingência e vira atributo do desenho. 

Em 1965, o presidente da França, Charles De Gaulle recoloca o ouro no centro do palco e transforma o gesto em escrutínio da hierarquia monetária e do privilégio dela decorrente. Na coletiva de imprensa de 4 de fevereiro, a crítica é fixada em registro público, sem moralizar: “na verdade, não se vê que possa haver critério, padrão, senão o ouro” e “o ouro […] não tem nacionalidade”. A fala da autoridade francesa ataca a assimetria, na qual um país paga com papel – e, em última instância, ficção monetária – o que outros pagam com ajuste. A frase desloca o debate do território da tecnicidade para o terreno do conflito e expõe a estrutura que desde a origem era questionada e mesmo assim aceita.  

O privilégio aparece em um primeiro momento como compensação da oferta de condições históricas que se reforçam em cadeia: mercados profundos, capacidade estatal de emitir e sustentar instrumentos de liquidez e redes financeiras que convertem a busca por segurança em demanda por ativos denominados na moeda do centro. Entretanto, a centralidade do dólar deixa de parecer efeito colateral e se revela como objetivo estratégico, acoplado à macroeconomia e ao poder. Juros do centro, manejo do balanço de pagamentos, ciclos de liquidez, diplomacia e segurança entram em alinhamento.  

O Xerife sai à ronda: “Caçar. Encontrar. Acabar.” 

Aprofunde a discussão neste Informe OPEU, de Marcus Tavares

O pós-1971, com a ruptura dos acordos de Bretton Woods, não dissolve o privilégio, pelo contrário, aprofunda-o. O que antes se ancorava no ouro passa a se ancorar nos juros, na profundidade dos mercados e na faculdade singular de definir o preço do dinheiro para o resto do mundo. A moeda não paira acima da luta, ela condensa decisões, interesses e conflitos, e devolve tudo isso ao sistema sob a máscara da “necessidade” técnica. 

A assimetria é antecipada, depois exposta como hierarquia; em seguida, reproduzida por rotinas institucionais; e, por fim, aparece como engrenagem macroestratégica. E o mundo não recua. Aprofunda. O privilégio se normaliza, deixa de pedir defesa retórica diária e vira fundo de cena. O preço do tempo passa a ser cobrado com instrumentos mais complexos, velozes e opacos — e, crescentemente, privatizados. 

O “padrão dólar flexível” tem uma virtude incômoda: arranca a moeda do altar da neutralidade e a devolve ao lugar que importa, o de instrumento de poder vendido como mais pura expressão da técnica. A defesa da posição internacional do dólar e a orientação da política macroeconômica norte-americana não se distribuem em terreno neutro; elas estruturam relações de força e moldam o que é possível acumular em escala mundial.  

A taxa de juros do centro econômico global atravessa fronteiras como comando silencioso: redefine o custo do financiamento, reordena fluxos de capitais, pressiona câmbios, dispara ciclos de ajuste, pune experimentos, premia conformidades. No padrão dólar flexível, esse comando também organiza a própria capacidade de investimento do emissor. A busca global por ativos em dólar sustenta mercados profundos, reduz o custo de rolagem do Tesouro e alonga o fôlego fiscal, convertendo “segurança” financeira em margem material para gasto e investimento — inclusive no acréscimo de capacidade militar, na base industrial de defesa e nos sistemas tecnológicos que dão lastro à projeção de poder. 

A centralidade monetária revela que não é apenas vantagem de liquidez, mas também mecanismo de financiamento do poder, pois a mesma demanda mundial por ativos em dólar barateia a rolagem do Estado emissor e amplia sua margem para sustentar, ampliar e modernizar capacidade militar. Ainda assim, o arranjo não colapsa, porque a não ruptura com o núcleo responde a uma racionalidade de interesse. Não se trata de crença cega ou ficção conveniente. O capital se mantém fiel ao ágio não por devoção, mas porque a previsibilidade para contratos, proteção para seus portfólios e a continuidade para a sua sede insaciável de acumulação tornam politicamente tolerável o custo assimétrico de sustentar o centro financeiro internacional. 

Financeirização e desigualdade: a estrutura de extração 

O elo que unifica desigualdade e moeda aparece quando a financeirização deixa de ser um setor e passa a ser uma gramática. Não se trata apenas de bancos maiores ou instrumentos mais sofisticados. Trata-se da invasão da lógica financeira na forma de lucrar das empresas, na maneira como Estados se financiam e na forma como famílias sustentam a própria vida. Direitos sociais e a economia produtiva real recuam, e o crédito entra como substituto. A doutrina do endividamento se funde à rotina como o ar que se respira – é inescapável.  

A desigualdade que se assevera no processo de financeirização da vida do cidadão comum funciona como gradiente permanente por onde a vida escorre. A fórmula pikettiana (r > g) demonstra que, quando a taxa de retorno do capital supera, por longos períodos, a taxa de crescimento, a riqueza acumulada aumenta mais rápido do que a renda e a produção, o que tende a ampliar a concentração patrimonial. A concentração deixa de ser ruído e vira tendência reforçada por regimes tributários, desenho jurídico de herança, dispositivos de proteção do ativo, por uma microfísica institucional que converte renda patrimonial em poder político. A desigualdade aparece como modo de organizar o tempo social. O futuro se transforma em rendimento para alguns e em obrigação para muitos. A distância entre os dois vira condição de governabilidade: quem depende do salário negocia com urgência; quem vive de ativos negocia com paciência. 

escala global amplia o quadro sem diluir o mecanismo. A globalização redistribui ganhos de forma irregular entre países e classes, redesenha a geografia de vencedores e perdedores, reordena estratos sociais. O efeito mais politicamente revelador não se limita ao “entre países” ou ao “dentro de países”; está na emergência de um tipo social que atravessa fronteiras com naturalidade e acumula simultaneamente renda alta do trabalho qualificado e renda alta do capital. Uma elite que opera na interseção entre empresa e finança, circula por conselhos, fundos, consultorias, ministérios e organismos internacionais, e transforma linguagem tecnocrática em dispositivo de autopreservação. O mundo não “fica igual” com integração; ele se reclassifica. O centro monetário-financeiro preserva a função de régua: define o que conta como segurança, credibilidade e custo aceitável de ajuste.  

O padrão dólar flexível fornece condição macro para a financeirização se expandir com alcance sistêmico, porque desloca o foco do limite metálico para a gestão política da taxa de juros e liquidez do centro, ao mesmo tempo em que fortifica o poder militar para quando a força se faz necessária para abrir mercados e acesso a recursos. A moeda e a política macroeconômica do emissor não ocupam lugar neutro. Elas estruturam relações de poder e moldam possibilidades de acumulação em escala mundial. A taxa de juros do centro atravessa fronteiras como comando silencioso: redefine custo do financiamento, reordena fluxos de capitais, pressiona câmbios, impõe ciclos de ajuste. 

A engrenagem devolve a desigualdade ao centro do argumento porque a financeirização precisa de um mundo estratificado para operar com fluidez. Rendas altas e patrimônios altos geram a busca por rentabilidade; a busca por rentabilidade pressiona por ativos, privatizações, abertura de novos domínios de precificação; a expansão da precificação amplia território do capital financeiro e comprime aquilo que antes funcionava como amortecedor social. A desigualdade consome proteção patrimonial e excreta trabalho precarizado. O capital compra tempo para si e repassa o ágio pago ao emissor do dólar por meio de parcelas constrangedoras para as camadas na base da pirâmide social: dívida pública, endividamento doméstico, regimes de metas de “credibilidade” que exigem compressão…  

Toda essa arquitetura financeira hegemônica conduz ao que, no fim dos anos 1990, é expresso como hiperpotência (“hyperpuissance”) — um rótulo que nomeia um poder sem contrapeso, capaz de operar em múltiplas esferas ao mesmo tempo. A força da expressão reside no seu efeito de desnudamento: traz para o vocabulário uma condição já instalada, que muitos preferiam manter tácita. O pós-Guerra Fria se vendia como etapa superior de institucionalização; “hiperpoder” devolve a cena à materialidade crua da brutalidade hierárquica. 

A máquina militar sempre esteve à vista, com bases, dissuasão, alianças, sanções e intervenções. O ponto menos dito é que essa exibição foi administrada com alta competência narrativa. A tolerância se sustenta em utilidade ofertada pela moeda, pelo crédito e pela proteção estratégica que se acoplam como se fossem um único serviço à disposição da rentabilidade.  

O quadro acima fecha uma engrenagem material: moeda como infraestrutura, juros como utensílio, crédito como gramática da vida e desigualdade como condição de funcionamento — não como desvio. É exatamente por isso que a conversa sobre “transição para uma nova ordem mundial” costuma começar no lugar errado: troca-se o debate sobre mecanismos por um debate sobre insatisfações momentâneas. A fricção atual — disputa tecnológica, rearmamento, sanções, contestação do dólar e coalizões alternativas — sinaliza mudança real de correlação de forças, mas não equivale automaticamente à substituição do núcleo organizador do sistema.  

Uma nova ordem, aqui, não é apenas um rearranjo de alianças, é uma reconfiguração de infraestrutura: quem define liquidez, quem precifica risco, quem garante o ativo seguro e quem dita o custo do ajuste. Enquanto esses pilares seguirem concentrados em Wall Street e funcionando, o que se tem chamado de “transição” tende a ser uma fenda no verniz da narrativa liberal ou um anseio dos órfãos de uma ideologia alternativa que perdeu materialidade desde a ruptura do pacto de Varsóvia.  

Só que, para compreender por que o sistema consegue atravessar contestações crescentes sem colapsar, é preciso reconhecer o que o sustenta. A ordem liberal fabrica uma pedagogia cotidiana em que o futuro é vendido como um tempo melhor a ser vivido em decorrência do sacrifício feito hoje. Trata-se, portanto, de uma vida ancorada na meritocracia onde cada esforço resulta na devida recompensa da aplicação no trabalho. A previsibilidade sistêmica, configura-se, então, como um caminho que conduz a recompensa. As crises, por sua vez, são anomalias esperadas e toleradas, pois não só as eventuais perdas do período são soterradas pelos altos ganhos do período de normalidade sistêmica; como a própria crise em si se constitui enquanto possibilidade de maximizar lucros e poder.  

A pergunta deixa de ser “se” a ordem está mudando e passa a ser “como” ela continua operando, enquanto renova o verniz que a reveste. Questionamos que regime de experiência torna habitável um mundo em que a promessa se desgasta, mas o amanhã segue funcionando como juiz? 

O cronotopo niilista liberal: metafísica da ordem 

A resposta que resta depois dessa virada de vocabulário e dessa gramática de força não cabe no inventário clássico de eventos e alianças. Ela antecede a disputa entre “mudança” e “continuidade”, porque a ordem continua respirando quando a crítica se generaliza, quando o privilégio é nomeado, quando a máquina aparece sem maquiagem. A persistência deixa de ser assunto de diplomacia e vira problema de aderência: um modo de mundo que segue operando mesmo quando suas próprias palavras falham. 

O liberalismo, no seu estrato mais eficaz, funciona como metafísica — uma grade de inteligibilidade. Ele organiza o que conta como realidade, o que se reconhece como valor, o que se aceita como racional e o que se presume possível. Não atua apenas como doutrina de governo ou moral pública de liberdades, atua como ontologia prática que antecede escolhas e distribui, de antemão, os limites do sensato. A coerção mais durável raramente precisa se anunciar como imposição, ela entra como normalidade, como forma “óbvia” de existir. 

Essa metafísica se sustenta por uma tripla operação. Ela é abstrata o suficiente para atravessar fronteiras; concreta o suficiente para virar contrato social, instituições, regras e hábitos; estável o suficiente para se repetir como rotina e parecer natureza. 

O tempo é instalado como tribunal que julga o mérito. A modernidade liberal seculariza a escatologia cristã e desloca o juízo para o futuro terreno. O “ainda não” governa o presente como instância normativa: prova a ser vencida e promessa que também cobra. Viver passa a significar sustentar um horizonte onde se abre mão do livre-viver em favor do trabalho asceta e devoto que supostamente conduziria a condições melhores de vida — um amanhã sempre convocado e raramente entregue. O futuro imaginado como próspero entra como prêmio e opera, no cotidiano, como disciplina. O relógio não move o tempo apenas para frente, ele impõe moral de cima para baixo. Um regime inteiro de expectativa se fecha em torno do adiamento do viver como virtude e do sacrifício como exercício. 

Investimentos: coerção, poder presidencial e reconfiguração da ordem liberal sob Trump 2.0

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O espaço é convertido em prova de existência. Ele deixa de ser apenas superfície governável por rotas e fricções; torna-se campo em que pertencimento, desempenho e reconhecimento se fundem. A espacialidade liberal opera como regime de acesso a lugares legítimos — posições e territórios sociais —, nos quais a presença precisa ser continuamente validada pela mesma performance ascética que condiciona o tempo. O mundo se organiza como gradação de portas, títulos e vazios: entrar, permanecer, circular, ser admitido em detrimento do não acesso. A ontologia aparece sem ornamento: é preciso ter para existir, é preciso provar para pertencer, é preciso sustentar performance para não ser expulso do espaço que confere existência ao sujeito. A política do espaço vira política de legibilidade: quem aparece como válido, quem é reclassificado e quem é empurrado para zonas de invisibilidade. 

A forma-sujeito surge como ascese aplicada. O sujeito se constitui como portador de disciplina temporal e espacial internalizada. A ascese ancorada no tribunal do tempo e executada na prova do espaço. A subjetividade é treinada por meio da meritocracia para converter vida em preparação, desejo em dever e avaliação contínua em condição de pertencimento. Aprende-se a se autoavaliar e a se medir sob um julgamento externo já incorporado. A obediência dispensa comando ou coerção de forma explícita, porque o sujeito oscila entre uma culpa que emana, ao entender que fugiu do que lhe foi implantado como script da trajetória para o sucesso, e o auto conformismo de que a vida é sacrifício. Quem não sustenta a performance ao longo do tempo perde direito ao espaço, e quem não tem espaço perde o que lhe foi ensinado como humanidade. 

Esses movimentos não ficam no domínio da filosofia. Eles descem e permeiam instituições, legislações e leituras do mundo. O “internacional” vira o palco ampliado dessa metafísica secularizada. A moeda, nesse desenho, ocupa o lugar de objeto concentrador. Não como simples meio de pagamento, tampouco como ornamento cultural. A política monetária do centro financeiro, tomada como instrumento macroestratégico, encontra aqui seu chão. O comando mais eficiente controla a temporalidade econômica — a taxa de juros desenha horizontes, e a liquidez do fluxo de capital internacional decide quem desfruta de lucros imediatos ou da precariedade do trabalho. Revestido da técnica matemática, o risco distribui, com aparência neutra, quem paga e quem agiota. 

É nesse ponto que o Cronotopo Niilista Liberal (CNL) se impõe como nome de longa duração. Cronotopo, porque designa a unidade de tempo, espaço e figura humana – em forma indissociável – que torna um mundo habitável e “natural”; niilismo, pois a ascese cotidiana impõe o não viver, ao transformar a vida em trabalho, e o trabalho, em tribunal permanente. No CNL, a disciplina aparece como obrigação de produzir sem cessar, acumular credenciais, aceitar metas móveis, prolongar jornadas, manter-se disponível e converter cada intervalo em “melhoria” para não perder lugar.  

A promessa é estabilidade futura, e a prática é precariedade administrada: o sujeito trabalha para pagar o custo de existir (moradia, saúde, educação, mobilidade) e, quando a renda não basta, completa o circuito com crédito. O sacrifício deixa de ser exceção e vira norma: a rotina pede renúncia hoje para “merecer” amanhã, e chama esse padrão de responsabilidade individual. O resultado é uma forma de vida em que descansar soa como culpa, e viver fora da lógica da performance parece impraticável.  

O CNL é liberal, pois emana da justificativa lockeana e se aprimora desde então. Descreve a forma histórica, pela qual o liberalismo organiza a existência, ao secularizar a promessa e convertê-la em disciplina imanente. Não se trata de um artefato exclusivo de “fase terminal”. O desenho opera desde a origem moderna e se intensifica à medida que a vida social empurra sujeitos para a atomização, a concorrência moralizada e a responsabilização solitária por aquilo que é estrutural. 

No CNL, o futuro comanda mesmo quando frustra. A promessa pode perder credibilidade em certos momentos, pode ser reembalada, pode ser trocada por outras narrativas de justificação. Porém, o regime temporal permanece. O amanhã continua convocado como critério, o presente continua atravessado por cobrança, o passado continua funcionando como depósito de sentido quando o horizonte se estreita. O sujeito fica preso em uma espera que não se resolve, não por falha acidental, mas por desenho: abrir mão agora para “merecer” depois, sustentar sacrifício como virtude, aceitar adiamento como prova de valor. 

A utilidade desse diagnóstico aparece quando o olhar retorna à cena de Davos. Mark Carney sobe ao palanque sob o ruído de um vizinho que trata soberania como cláusula revisável, e o auditório percebe que o rótulo caiu. O “fim da ficção agradável” recebe aplauso, porque dispensa o teatro da surpresa. A gramática real do poder já estava ali, apenas mais bem embalada. Tucídides retorna com a força de um reflexo, quase como se fosse lei, e o choque não nasce do conteúdo, nasce da troca de linguagem. A linguagem anterior tinha função pacificadora e permitia participar do sistema com sensação de regra, não de preferência. A mudança expõe a hierarquia com menos mediação e, ao fazer isso, desorganiza o repertório narrativo que amortecia a fricção. 

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A engrenagem, no entanto, permanece no lugar. A rede continua. O dólar continua, e a profundidade dos mercados também se mantém. O aparato militar se exibe como coerção velada – de certo, menos velada que outrem. A infraestrutura financeira que dá materialidade ao sistema — contratos em dólar, ações, seguros, derivativos e afins — segue operando como se a nova gramática de poder fosse detalhe insignificante. Detalhe que calibra o nível de humilhação exigido para arrancar concessões; o grau de pudor com que o privilégio se apresenta e o volume de ressentimento acumulado nas nações sob a rede do dólar. Só que o núcleo wall-streetiano que organiza o custo do tempo segue funcionando.  

A persistência da ordem deve ser compreendida não como um enigma moral, mas sim como um efeito do CNL: um regime de experiência que torna a saída impraticável, mesmo quando a crítica já circula. A ordem tende a permanecer de pé, porque coincide com a forma moderna de governar o presente mediante a brilhante promessa de um futuro irrealizável para a esmagadora maioria, mas que entrega lucros e dividendos aos que têm nas mãos as rédeas do poder e lucram com a desigualdade. O casamento entre moeda e a guerra deu origem ao sistema, deu origem à ordem e aprendeu a se perpetuar por meio de novas ofertas de oportunidades de lucros àqueles que dominam suas nações.  

A ordem não se mantém apenas porque domina a técnica e as armas, mas porque domina o arranjo de incentivos das elites. A financeirização distribui ganhos concentrados e perdas difusas, oferecendo aos estratos dominantes de cada país um canal contínuo de valorização patrimonial, proteção de portfólio e disciplinamento social. Para que isso funcione em escala, é preciso um emissor capaz de garantir o ativo “seguro”, sustentar liquidez em crise e aceitar o papel de cobrador do ajuste alheio. Sem esse polo, o CNL perde sua engrenagem prática: o futuro deixa de ser comprado, segurado e precificado como rotina. 

É aqui que o problema da “transição” aparece sem maquiagem. Potências apontadas como revisionistas como China e Rússia podem contestar, podem bloquear, podem costurar zonas de influência, mas não se mostram dispostas a assumir a agiotagem sistêmica — isto é, a oferecer ao mundo um circuito de ativos e crédito com abertura suficiente para que as elites globais estacionem riqueza, arbitrem riscos e recebam, com certa previsibilidade, sua parcela das rendas financeiras.  

A China não renuncia ao controle que preserva sua estabilidade doméstica para virar fiadora do patrimônio alheio. O Império do Meio quer autonomia, não o custo político e econômico de sustentar a liquidez global. A Rússia, por sua vez, opera com o poder duro e a energia, mas não dispõe de profundidade de mercado e confiança institucional para virar eixo do refúgio mundial. Além disso, sob sanções e conflito, não há como vender “segurança” financeira como mercadoria universal. 

Por isso, o sistema persiste: porque, na prática, não basta ter rivalidade geopolítica; é preciso ter disposição de organizar o saque legalizado do tempo sob outra bandeira e, sobretudo, repartir as migalhas da rentabilidade financeira com as elites locais de dezenas de países, sem perder o controle do próprio destino. Enquanto qualquer outro país recusar esse preço — e enquanto as elites do mundo preferirem o diagrama já conhecido a incertezas de um ainda não teorizado sistema financeiro global não hierarquizado —, a crítica circula, mas a saída não se materializa. Se ninguém quer assumir o papel de agiota global e pagar o custo de sustentar o luxo financeiro de todos, quem ou o que exatamente substituirá o centro?

  

Marcus Tavares é pesquisador voluntário do OPEU/INCT-INEU na área de economia, doutorando e mestre em Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID/UFRJ). Contato: marcus.tavares1987@yahoo.com.br @marcustavares.epi.

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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