Rubens Duarte ao OPEU: Relações EUA-Brasil na conjuntura de rearranjo de poder contemporâneo
Crédito da arte: Natália Constantino/OPEU
Por Acza Rodrigues e Carolina Weber* [OPEU Entrevista]

Fonte: RubensDuarte.education
Rubens Siqueira Duarte é professor e pesquisador nas áreas de Defesa, Segurança Internacional e Política Internacional, com formação interdisciplinar em Direito, Relações Internacionais e Ciência Política. Doutor em Política e Estudos Internacionais pela University of Birmingham (Reino Unido), mestre em Ciência Política pelo IESP-UERJ e bacharel em Relações Internacionais (PUC-Rio) e Direito (UNIRIO), é reconhecido como Pesquisador de Produtividade pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que é uma das principais honrarias acadêmicas no Brasil.
Atualmente, está vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM-IMM), no âmbito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), onde leciona e orienta pesquisas na interface entre política internacional, segurança e defesa. Também coordena o Laboratório de Análise de Política Mundial (LABMUNDO) e é pesquisador associado do Observatório Interdisciplinar de Mudanças Climáticas (OIMC), iniciativas que ampliam o diálogo entre academia, instituições estratégicas e sociedade.
Sua produção acadêmica abrange temas como cooperação militar, poder estrutural, diplomacia e a influência norte-americana sobre países em desenvolvimento e regiões periféricas do sistema internacional. Mais recentemente, tem dedicado especial atenção às interseções entre Defesa, Segurança e Mudanças Climáticas. Participou da COP30, em 2025, onde acompanhou e analisou os debates sobre clima sob a ótica estratégica e de segurança internacional. Além da atuação acadêmica, também dialoga publicamente sobre política internacional e defesa, aproximando o debate especializado de audiências mais amplas por meio de suas plataformas digitais. Nelas, Instagram, TikTok e LinkedIn, Rubens produz conteúdo informativo sobre assuntos de sua expertise, contribuindo com peso para a democratização da discussão acadêmica.
Nesta entrevista ao OPEU, o professor analisa as dinâmicas de segurança e defesa dos Estados Unidos em relação a países da América Latina e de outras regiões do sistema internacional, abordando percepções de ameaça, desdobramentos da política externa norte-americana e os impactos estratégicos para o Brasil, além de refletir sobre a incorporação das agendas ambiental e climática nas políticas contemporâneas de segurança.
OPEU: Conhecemos sua formação interdisciplinar, que transita entre o Direito, as Relações Internacionais e a Ciência Política, a qual julgamos de grande relevância para o debate aqui proposto. À luz da divulgação da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos no contexto do governo Trump 2.0, na qual ameaças como migração, crime organizado, terrorismo e tráfico de drogas são explicitamente priorizadas, de que maneira essas percepções influenciam a formulação da política externa e de defesa norte-americana no século XXI?
Antes de responder, uma dica para quem estiver nos lendo e estiver na fase de graduação. Eu fiz dois cursos de graduação ao mesmo tempo: Direito e Relações Internacionais. Foi bom para que eu entendesse que eu sou internacionalista, não advogado. Então foi quase como um teste vocacional tardio. Se eu pudesse voltar atrás, eu não faria dois cursos de graduação. A interdisciplinariedade é extremamente importante para tudo que fazemos na vida, mas o foco e a excelência também, então eu recomendo a todas e a todos que busquem expandir seus horizontes, mas do modo certo e dentro dos seus cursos. A juventude é a fase que podemos arriscar e experimentar, eu entendo. Então, pessoal, se joguem, mas com responsabilidade!
Agora, sobre a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, concordo com a preocupação implícita que a pergunta de vocês demonstra. O mundo está progressivamente internacionalizado. Então, um tema de política doméstica acaba transbordando e tendo impactos em diversos aspectos da sociedade no mundo inteiro. Claro, de modo assimétrico, mas todos sentimos essas reverberações em algum grau. O que estamos vendo claramente no governo Trump 2.0 é uma série de processos de securitização, em que a sociedade se convence (ou é convencida) de que alguns temas passaram a trazer ameaças aos indivíduos de sua sociedade ou às instituições. Como é uma ameaça, essa mudança de percepção acaba legitimando outros tipos de resposta, que possam dar conta da ansiedade por reações rápidas, ainda que nem sempre sejam a resposta mais eficaz. É o caso, por exemplo, da validação do uso da força, muitas vezes excessivo. É exatamente o que estamos vendo, internamente, com a ICE [Agência de Imigração nos EUA, N. da E.] e, no plano internacional, com a Venezuela, com o Irã e com a Groelândia.
OPEU: De uma perspectiva histórica, é possível identificar mudanças na abordagem da política externa de segurança dos Estados Unidos para a América Latina, após os desdobramentos políticos e institucionais na Venezuela? Em caso positivo, que mudanças são essas e o que elas representam?
Muito se fala em uma nova Doutrina Monroe, não é mesmo? Não acho isso oportuno, pois a Doutrina Monroe era muito própria de um contexto histórico e tinha dois objetivos: consolidar a área de influência dos EUA e apoiar movimentos nacionalistas que buscavam suas independências. Hoje em dia, não tem essa dupla função. Não tem nenhum desejo de independência. Acho que seria mais apropriado falarmos em um novo Corolário Roosevelt. O Famoso “Big Stick”, a política do “porrete”. Aí sim a gente já viu antes. Não é novidade que os EUA gostam de intervir na América Latina, mas há fases em que esse gosto está mais aceso e em outras que a temperatura diminui. Estamos vivendo um momento de alta temperatura, o que enfraquece a soberania de todos os países da região. Ainda que não exista uma ameaça direta ao Brasil, por exemplo, toda decisão que tomamos vai ter que pensar “como os EUA vão reagir a isso?” Isso é um poder estrutural, uma influência estabelecida.
OPEU: Ao observar o Sul de forma mais ampla, quais são as principais diferenças entre a política de segurança dos Estados Unidos direcionada para a América Latina e aquela voltada para outras regiões?
Acho que a principal diferença está na certeza de que o continente americano é a área de influência dos Estados Unidos. Não é admitida uma disputa geopolítica aqui. Portanto, algumas ações mais autônomas por parte de países latino-americanos podem soar e serem recebidas diferentemente, ensejando respostas mais enérgicas do que se fossem outros países. Infelizmente, somos uma região geopoliticamente menos interessante do que outras. A Índia, por exemplo, ousou ignorar o Tratado de Não Proliferação Nuclear e criou seu armamento atômico. A resposta dos EUA foi premiá-la com acordos na área nuclear. Claro! Afinal, a Índia disputa espaço com a China, fica perto do Oriente Médio, tem relações históricas com outras potências extrarregionais… Se o Brasil decidisse fazer o mesmo, será que a reação seria igual? Duvido muito.
OPEU: Tivemos a oportunidade de conhecer a Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME) no projeto “ECEME por um dia” durante a graduação, ocasião em que também conhecemos o sr.. Passamos a acompanhar muitos trabalhos da ECEME e acreditamos que sua bagagem com relação a técnicas e estratégias militares seja essencial para esse debate. Tendo em vista que os Estados Unidos ainda se manifestam como a maior potência militar no mundo, há perspectivas de ampliação da transferência de tecnologia, de técnicas militares ou de outros aparatos de segurança e defesa por parte dos Estados Unidos para países do Sul? Quais critérios políticos, estratégicos e institucionais costumam ser observados para viabilizar esse tipo de cooperação?
Sim, sim! Venham nos visitar. A ECEME está de portas abertas para todas e todos! A Defesa é uma política que precisa ter envolvimento de toda a sociedade. Inclusive, a todos que seguem o OPEU, convido que sigam o Instagram do PPGCM-IMM que é onde eu dou aula. Temos vários eventos de que vocês podem participar, inclusive o “ECEME por um dia”. Será uma alegria receber vocês.
Sobre sua pergunta de transferência de tecnologia, a resposta não é tão animadora. Apesar de sermos considerados uma nação amiga, cooperação na área militar é sempre muito mais complicado. Estamos falando de transferência de conhecimento e de capacidade para um país que, algum dia, pode vir a ter conflitos com você. Se levarmos em consideração o argumento da escola Realista, o jogo de soma zero nos ensina que a cooperação acaba diminuindo a sua segurança. As cooperações mais expressivas que o Brasil conseguiu até hoje são no âmbito da doutrina. As tecnologias, os armamentos militares, a cooperação: tudo isso é mediante pagamento. Ou seja, não é bem uma cooperação, é uma relação de compra e venda de tecnologia. É o que ocorre no caso do Gripen [modelo de caça fabricado pela sueca SAAB, N. da E.] e do submarino nuclear. Acho que esse entendimento mostra como que o Brasil precisa investir mais em indústria e em tecnologia, inclusive no setor de defesa. Ninguém vai nos ensinar a ter um míssil balístico, um veículo lançador de foguetes ou um drone. Precisamos criar nossa própria tecnologia. Pode ser em parceria, mas precisamos investir. Nesse sentido, que bom que temos a EMBRAER! Que bom que a gente produz o blindado Guarani. E muita atenção ao absurdo que estamos deixando acontecer com a Avibrás. É uma empresa importantíssima que estamos simplesmente deixando definhar.
OPEU: A partir de sua expertise e estudo na área, como o sr. avalia a cooperação brasileira com os Estados Unidos no campo da segurança e defesa, a considerar transferência de tecnologia e de técnicas militares? Em que medida essa cooperação pode ser considerada estratégica e benéfica para o Brasil?
A dita relação preferencial entre o Brasil e os Estados Unidos vem desde o início de nossa República. Ou seja, quase 140 anos. Você consegue se lembrar de quantos momentos em que a cooperação com os Estados Unidos, de fato, mudou o rumo do Brasil? Eu consigo pensar em apenas um: na construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Foi, sem dúvida, um marco para a industrialização do país, contribuiu muito para um impulso econômico e mudança do modelo focado quase que exclusivamente no setor extrativo. Só que esse momento foi negociado, a partir de uma necessidade que os Estados Unidos tinham por conta do esforço de guerra contra o Eixo. Não foi um altruísmo do nosso “parceiro preferencial”. No âmbito militar, podemos citar também a missão dos Estados Unidos que modernizou nossas forças armadas. Foi importante demais para nossa política de defesa, mas ficou restrita a esse campo político. Enfim, 140 anos… E somente dois exemplos inequívocos em que essa cooperação deu resultados positivos para nosso país. Não sei vocês, mas eu acho muito pouco.
OPEU: No cenário atual, há espaço para um aprofundamento do diálogo e da cooperação em segurança entre os Estados Unidos e os países do Sul, ou tende a prevalecer uma lógica mais competitiva e seletiva?
Acho que, no cenário atual, estamos vendo poucos incentivos para a cooperação, dada a instabilidade que a onda de extrema direita nacionalista traz para o mundo. Com isso, o custo para cooperar se torna muito alto e a lógica de competição acaba reforçada. Adoraria trazer outra resposta aqui para vocês, mas acho que não tem muito como fugir.
OPEU: Como o Brasil se insere, atualmente, na política de segurança e defesa dos Estados Unidos e quais são os principais limites e oportunidades dessa relação?
O Brasil é visto como o maior país do quintal deles. Então, é claro que temos um destaque, no sentido que eles entendem que o que acontece com o Brasil tem um transbordamento potencial grande para o resto da região. Esse grau de atenção pode vir para o bem ou para o mal. Em um momento altamente intervencionista dos Estados Unidos, não é tão bom assim chamar atenção. O maior desafio que temos na relação com os Estados Unidos é, portanto, saber lidar com essa imprevisibilidade encarnada que se chama Trump.
OPEU: Sabemos que grande parte da sua pesquisa atual é dedicada à área de Defesa, Segurança e Mudanças Climáticas. Acompanhamos sua cobertura da COP30 pelas redes sociais e consideramos, além de muito bem-humorada, uma ótima oportunidade e estratégia para ampliar o debate para além do meio acadêmico. Gostaríamos de saber, a partir da sua participação no evento e das discussões ali realizadas, como as agendas ambiental e climática vêm sendo progressivamente incorporadas às dinâmicas contemporâneas de segurança e defesa, especialmente sob a ótica dos Estados Unidos?
Eu recomendo bastante um livro da Sherri W. Goodman, chamado Threat Multiplier [Island Press, 2024, N. da E]. Para quem não quiser ou não puder ler o livro completo, eu publiquei uma resenha dele na RBED. As forças armadas dos Estados Unidos não incorporavam políticas relativas às mudanças climáticas por consciência ambiental ou para dar uma resposta a uma sociedade que está em risco por conta dos impactos negativos do aumento da temperatura média do planeta. A preocupação vinha quando os militares percebiam que as mudanças climáticas podiam rebalancear a competitividade das forças armadas ou quando havia impacto no emprego das tropas. Essa era a preocupação. E estamos falando no passado, porque o governo Trump fez questão de extinguir até mesmo essa preocupação limitada. No Atlas da Justiça Climática na América Latina e no Caribe, que o LABMUNDO acabou de publicar, têm capítulos dedicados a esse tema, com imagens impressionantes. As emissões do setor militar são gigantescas e, por incrível que pareça, não são contabilizadas pelo UNCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, N. da E.].
OPEU: Ainda sobre a COP30, quais oportunidades estratégicas a incorporação das agendas ambiental e climática às dinâmicas de segurança e defesa pode gerar para o Brasil, em particular no que diz respeito à centralidade da Amazônia?
Essa é uma excelente pergunta. É sobre isso que meu tema de pesquisa está focado neste momento. Não tenho uma resposta definitiva, mas quem quiser pesquisar comigo, pode fazer Mestrado ou Doutorado no PPGCM. Eu vou adorar!
OPEU: Agradecemos imensamente, professor Rubens, pela disponibilidade e pela valiosa contribuição ao debate para o leitor e leitora do OPEU. Para concluir, gostaríamos de saber se há algum projeto de pesquisa futuro que o senhor teria interesse em compartilhar conosco. E, aproveitando que comentamos sobre redes sociais, há previsões de manter a produção de conteúdo nas suas mídias, como Instagram, TikTok e LinkedIn?
Tem uma notícia quentíssima! Como vocês sabem, o LABMUNDO tem uma tradição de lançar Atlas. O primeiro, publicado em 2014, foi o Atlas da Política Externa Brasileira. Em 2017, publicamos o Atlas da Política Brasileira de Defesa. Por fim, nós lançamos na COP 30 o já citado Atlas da Justiça Climática na América Latina e no Caribe. Pois bem, até junho, há a previsão de lançarmos um novo Atlas da Política Externa Brasileira, sobre o período de 2016 a 2022. Todas essas publicações estão disponíveis para download gratuito em nosso site, então, podem usar e abusar. É de vocês!
Sobre as redes sociais, sim! A expectativa é que a gente continue com as mídias ativas. Elas dão muito trabalho, pessoal… Então, sempre que vocês puderem deixar um comentário, compartilharem, ajuda demais. Ganho um total de zero reais para manter essas redes. Faço simplesmente porque acredito que tenho uma responsabilidade social de difundir o conhecimento científico. Então, povo, ajuda aí, por favor! =) ![]()
* Acza Rodrigues é mestranda em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (PPGEST/UFF) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe de mídias sociais. Contato: silva.acza@gmail.com.
Carolina Weber é pós-graduanda em Jornalismo Digital e Comunicação pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe do Instagram e LinkedIn. Tem expertise em Comércio Exterior. Contato: carolinaweberds@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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