Resenha OPEU

Quando o cinema expõe o Estado: ‘Uma batalha após a outra’, de Paul Thomas Anderson 

 Cartaz do filme (Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures. Fonte: BNews São Paulo)

Por Acza Rodrigues* [Resenha OPEU] 

“Fronteiras livres, corpos livres, escolhas livres e livres do medo!” é uma fala proferida por Perfidia (Teyana Taylor) no início da obra, manifestando o objetivo do movimento revolucionário retratado no filme. O longa-metragem Uma batalha após a outra, do renomado diretor Paul Thomas Anderson, foi indicado a 13 categorias do Oscar, entre elas Melhor Filme, Ator Principal, Ator Coadjuvante, Fotografia, Direção e Roteiro. O filme também se destacou no Globo de Ouro, sendo premiado como Melhor filme de Comédia ou musical, Melhor Direção em Filme e Melhor Roteiro em Filme, entre outros reconhecimentos. Ao todo, o filme acumula aproximadamente 200 vitórias e 418 indicações em premiações nacionais e internacionais.  

Produzido nos Estados Unidos e integralmente filmado em território estadunidense, o longa teve locações na Califórnia e no Texas. Com duração de 2 horas e 41 minutos, alcançou um faturamento bruto mundial de US$ 206,8 milhões. Foi lançado no Brasil em 25 de setembro de 2025 e já está disponível na plataforma de streaming HBO Max 

O lançamento de Uma batalha após a outra coincide com um período marcado por intensas tensões sociais e políticas nos Estados Unidos, em que questões migratórias e violência estatal assumiram protagonismo no debate público. A política migratória, em particular, passou a ser tratada pelo governo Trump 2.0 como um problema de segurança nacional, contribuindo para a intensificação da polarização política afetiva e para a consolidação de um clima de conflito que se manifesta tanto nas ruas quanto nos meios de comunicação e na cultura política do país. Nesse contexto, operações promovidas pelas agências federais de imigração dos EUA resultaram na detenção de milhares de pessoas e em confrontos violentos entre agentes da ICE e manifestantes, incluindo registros de mortes causadas por ações policiais. 

Assim, o filme emerge em um cenário, no qual o imaginário da violência e a disputa em torno da imigração se tornaram um dos temas mais sensíveis e polarizadores da política estadunidense contemporânea, constituindo um pano de fundo real, urgente e profundamente conectado às questões centrais exploradas pela narrativa. 

Do ponto de vista estético e narrativo, Uma batalha após a outra articula elementos de drama, comédia, suspense, alegoria, sátira e tragédia sociopolítica. A obra combina sequências de ação intensas com elementos de sátira e crítica social, produzindo um resultado que ultrapassa o rótulo do cinema de ação convencional e se insere em um circuito mais autoral e reflexivo. 

Paul Thomas Anderson é um dos cineastas mais influentes do cinema estadunidense contemporâneo. Criado em um ambiente profundamente imerso na cultura midiática, desenvolveu desde cedo um olhar atento para a linguagem audiovisual e para a construção de narrativas complexas e densas do ponto de vista dramático. Seu trabalho é amplamente reconhecido pelo estilo visual ousado e pela elaboração de enredos multifacetados, como se observa em obras como Boogie Nights (1997) e Magnólia (1999). 

Resumo analítico da obra  

Uma batalha após a outra acompanha Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), apelidado de Guetto Pat, um ex-revolucionário que vive em um Estados Unidos transformado em um Estado policial de caráter fascista. No início do filme, um grupo radical denominado French 75 conduz uma operação na fronteira entre México e Estados Unidos, libertando imigrantes detidos e prendendo agentes estatais, o que desencadeia uma resposta violenta das forças policiais, comandadas pelo coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), figura masculina branca. A líder do movimento revolucionário, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), mulher negra, mantém um relacionamento com Bob e engravida, mas decide abandonar a filha recém-nascida, Willa (Chase Infiniti), para permanecer no movimento, até ser posteriormente presa. 

Dezesseis anos depois, Bob e Willa levam uma vida aparentemente normal: Willa frequenta a escola e pratica esportes, enquanto Bob tenta exercer a paternidade em meio ao consumo problemático de substâncias. Paralelamente, Lockjaw é convidado a integrar o Clube dos Aventureiros de Natal, uma organização secreta ligada ao aparato governamental, formada por nacionalistas brancos que defendem a pureza racial e têm como objetivo “limpar” a população estadunidense. 

Disposto a qualquer ação para garantir sua participação na organização, Lockjaw identifica um possível obstáculo: acredita que Willa possa ser sua filha, resultado de um relacionamento anterior com Perfidia, o que a tornaria mestiça e consequentemente poderia sacrificar sua pureza racial. A partir dessa suspeita, utiliza sua posição militar para localizar a jovem, com o objetivo de eliminá-la, caso a filiação se confirme. Para isso, utiliza o pretexto de uma invasão em Baktan Cross, local onde Bob e Willa residem, sob a justificativa de localizar imigrantes não documentados. Durante a operação, Willa é resgatada por integrantes do French 75, mas acaba separada de Bob. Este, por sua vez, busca o auxílio do sensei Sergio St. Carlos (Benicio del Toro) e, juntos, enfrentam uma série de confrontos, enquanto tentam proteger a comunidade local, defender os imigrantes e reencontrar Willa. A narrativa se desenvolve por meio de batalhas, fugas e embates sucessivos, mesclando ação, drama familiar e crítica social. 

Trailer oficial de Uma batalha após a outra, disponível no canal do Ingresso.com no YouTube

O filme sustenta que as lutas sociais e políticas de uma sociedade não são apenas batalhas momentâneas, mas questões persistentes que atravessam gerações, moldando indivíduos e instituições. Atrelado a isso, é proposta uma reflexão sobre a violência política e policial, a qual não é uma questão episódica, mas sim estrutural, estando enraizada em um imaginário estatal que hierarquiza vidas e define determinados grupos sociais como ameaças. Ademais, a preocupação paterna de Bob e a necessidade de manter sua filha em segurança simbolizam a transmissão intergeracional de valores, traumas e responsabilidades sociais, ilustrando que questões políticas também se manifestam na esfera familiar.  

Desse modo, a ficção adota um método narrativo que mistura gêneros e estratégias estéticas para construir enredo e significado. O filme integra elementos de ação, comédia e drama político, criando um ritmo que oscila entre entretenimento e comentário social. Ademais, Anderson recorre a situações hiperbólicas e a personagens extremos como forma de satirizar práticas de violência e repressão, sem abdicar da humanidade dos personagens. Os protagonistas e antagonistas funcionam tanto como personagens singulares quanto como representações de forças sociais mais amplas. Por fim, é importante citar que a obra dialoga com o espírito de Vineland, romance de Thomas Pynchon (Companhia das Letras, 1991), embora não seja uma adaptação literal, incorporando a sensibilidade crítica e intertextual do romance em sua construção narrativa.  

Comentário crítico  

Uma batalha após a outra se revela particularmente relevante no contexto contemporâneo, ao dialogar com os acontecimentos atuais nos Estados Unidos. Não há consenso com relação à mensagem política do filme. O próprio Leonardo DiCaprio afirmou, em entrevista ao jornal The New York Times, que o foco da obra não seria o discurso político, mas as diferenças geracionais e as relações entre pais e filhos. Ainda que essa dimensão esteja presente, é difícil, à luz dos acontecimentos políticos recentes, desconsiderar a existência de um discurso político consistente na narrativa, independentemente do posicionamento ideológico do espectador. 

A relação entre a opressão policial retratada em Baktan Cross e as ações recentes da Agência de Imigração e Fronteiras dos EUA (ICE) surge de forma quase imediata. O filme se insere em um cenário de crise institucional, marcado pela erosão da confiança nas instituições, pela ampliação do poder coercitivo do Estado e pela normalização de discursos de exceção em nome da segurança nacional. A associação recorrente entre imigração, ameaça e violência, presente ao longo da narrativa, reflete debates amplamente documentados na política estadunidense recente, nos quais fronteiras, policiamento e soberania se tornaram eixos centrais da radicalização política. 

A obra mobiliza a memória política como elemento central, sugerindo que conflitos passados não resolvidos continuam a moldar práticas institucionais no presente. Ao articular um passado militante e repressão contemporânea, a narrativa reforça a compreensão da democracia como um processo atualmente instável e tensionado por comportamentos autoritários. 

Como forma de exemplificar a função política desempenhada por obras audiovisuais na ativação da vigilância democrática, pode-se mencionar O agente secreto, filme de Kleber Mendonça Filho e grande aposta brasileira ao Oscar. A obra revisita as marcas da ditadura militar no Brasil, evidenciando como experiências autoritárias do passado continuam a ressoar no presente, mesmo sob regimes formalmente democráticos. De modo semelhante, Uma batalha após a outra cumpre uma função política relevante, ao expor práticas de repressão estatal, vigilância, criminalização da dissidência e naturalização da violência institucional. Contribui, assim, para o reconhecimento de padrões autoritários que não se apresentam necessariamente sob regimes formalmente ditatoriais. Nesse sentido, o filme funciona como um alerta para comportamentos estatais que tensionam o Estado de Direito em contextos democráticos. 

Assista ao trailer oficial de O agente secreto

Em união a isso, chama atenção o fato de que, nos últimos anos, produções cinematográficas que abordam autoritarismo, violência institucional e crise democrática tenham alcançado expressivo reconhecimento crítico e institucional. A recepção positiva dessas obras por parte da academia e de premiações internacionais, como exemplificado pelo êxito do brasileiro Ainda estou aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, indica uma valorização crescente de narrativas que tensionam a relação entre Estado, memória e democracia. Ao mesmo tempo, esse reconhecimento tem sido acompanhado por controvérsias, debates acalorados e processos de polarização no espaço público, revelando que tais obras, ao alimentar o debate político, também expõem fraturas sociais e disputas interpretativas em torno do passado e do presente. Nesse sentido, o sucesso desses filmes não apenas reflete uma demanda cultural por reflexão crítica, mas também evidencia os limites e os conflitos envolvidos na elaboração pública da memória e da experiência democrática. 

A tese central do filme — a de que a violência estatal e a exclusão política são estruturais, sustentadas por discursos ideológicos profundamente enraizados — mostra-se bem nutrida ao longo da narrativa. Os argumentos apresentados mantêm coerência, ao articular ações individuais dos personagens com práticas institucionais mais amplas, evitando reduzir o conflito a antagonismos meramente pessoais. 

No que diz respeito à clareza comunicativa, o filme opta por uma estratégia indireta, baseada na combinação de gêneros como ação, sátira e drama político. Tal estratégia amplia o alcance da obra, permitindo que diferentes públicos se envolvam com a história em níveis interpretativos diversos. 

De modo geral, Uma batalha após a outra se consolida como uma obra que ultrapassa o entretenimento e oferece uma leitura crítica da democracia contemporânea, marcada por tensões entre memória, poder e violência institucional. Suas escolhas narrativas e estéticas reforçam a proposta de provocar reflexão, ainda que isso implique assumir riscos interpretativos e manter zonas de ambiguidade abertas ao espectador. 

 

Acza Rodrigues é mestranda em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (PPGEST/UFF) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe de mídias sociais. Contato: silva.acza@gmail.com. 

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mailprofessoratatianateixeira@outlook.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mailtcarlotti@gmail.com.

 

Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.

Siga o OPEU no InstagramTwitter Linkedin e Facebook e acompanhe nossas postagens diárias.

Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.

Somos um observatório de pesquisa sobre os Estados Unidos,

com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.

Realização:
Apoio:

Conheça o projeto OPEU

O OPEU é um portal de notícias e um banco de dados dedicado ao acompanhamento da política doméstica e internacional dos EUA.

Ler mais