América Latina

Iraque e Venezuela: paralelo entre W. Bush e Trump escancara ordem internacional em frangalhos 

Trump, durante entrevista coletiva para anunciar captura de Maduro, em Mar-a-Lago, em 3 jan. 2026 (Fonte: captura de tela de vídeo do canal DRM News/YouTube)

Por João Pedro Gonçalves* [Informe OPEU] [Venezuela] [Trump 2.0] 

Embora ainda não seja possível decifrar as pretensões do presidente Donald Trump após a captura-sequestro de Nicolás Maduro, é factível traçar paralelos entre os ataques americanos à Venezuela e a operação que depôs e capturou o ditador iraquiano Saddam Hussein, no contexto da Guerra do Iraque, durante o governo de George W. Bush.  

Apesar de contextos geopolíticos bastante diferentes, as similaridades encontradas se dão a partir da quebra de normas e práticas multilateralmente estabelecidas no sistema internacional, como a igualdade jurídica dos Estados, a soberania estatal e a accountability em relação ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, que deveria autorizar operações militares em países terceiros.  

No Iraque e na Venezuela, esses três princípios basilares que passaram a reger o concerto das nações pós-1945 foram descumpridos. Aqui, não se trata de defender governos tirânicos que perseguem opositores e violam os direitos humanos, como no caso de Hussein e Maduro, mas, sim, de evidenciar o não cumprimento do direito internacional e das práticas multilaterais: valores e normas comuns. 

A guerra do Iraque e a deslegitimação das Nações Unidas  

No contexto da Guerra Global ao Terror (GWOT), após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o então presidente dos EUA, George W. Bush, anunciou a Operação Liberdade Iraquiana, que viria a ser o início da Guerra do Iraque, em 2003. Além de sofrer forte rejeição de diferentes países, que registraram protestos multitudinários em suas principais capitais, suas ações não foram submetidas à análise do Conselho de Segurança das Nações Unidas, órgão que, de acordo com o Artigo 42 da Carta da ONU, tem a prerrogativa de autorizar o uso da força no plano internacional. 

Em 2004, o então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, declarou que a guerra em curso no Iraque era ilegal, o que demonstrou a deslegitimação do Conselho de Segurança das Nações Unidas e sua ineficiência diante de seu principal objetivo – a manutenção da paz –, já que, mesmo carecendo de respaldo legal, a ONU não poderia fazer nada para impedir as ações dos EUA. 

Nesse mesmo sentido, a igualdade jurídica dos Estados e a soberania nacional, princípios contidos no Artigo 2º desse mesmo documento fundamental, também foram violadas. Isso é perceptível uma vez que os Estados Unidos feriram a integridade territorial do Iraque ao invadi-lo e depor o governo de Saddam Hussein, que foi posteriormente capturado e executado em 2006. Essa prática de derrubar governos estrangeiros, a partir do uso da força e da intervenção militar, é conhecida como regime change e se tornou bastante comum na atuação da política externa dos Estados Unidos. 

A atuação americana no Iraque evidencia o descumprimento das normas internacionais e dos compromissos firmados por parte dos Estados Unidos, no âmbito das Nações Unidas, ao atuarem em prol de seus interesses. Isso acontece mesmo quando esse aparato normativo e institucional, como o próprio Conselho de Segurança da ONU, é uma construção americana do pós-Segunda Guerra Mundial.  

(Arquivo) Comboio de veículos blindados de alta mobilidade do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA chega ao norte do Iraque em apoio à Operação Liberdade do Iraquee, 26 mar. 2003 (Crédito e fonte: cabo Andrew P. Roufs, Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA/Wikimedia Commons)

A deslegitimação do sistema das Nações Unidas por parte dos Estados Unidos desde o início deste século levou diretamente à decadência do sistema multilateral baseado em normas e valores comuns. Isso se deve ao fato de seu descrédito ter partido diretamente do principal fiador dessa ordem, o que levou, posteriormente, a outras ingerências por parte do Conselho de Segurança da ONU. Crises como a da Ucrânia e a de Gaza mostram que o órgão não consegue garantir que suas resoluções sejam respeitadas e que tenha suas prerrogativas levadas em consideração. 

Trump e a captura de Nicolás Maduro 

Ao assumir seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos em 2025, Donald Trump voltou as atenções do governo americano para o chamado Hemisfério Ocidental (onde se encontra a América Latina). Além de cogitar comprometer a integridade territorial de Canadá, México, Panamá e Groenlândia, impôs tarifas a produtos oriundos do Brasil, como maneira de pressionar o governo brasileiro.  

Nos últimos meses, o principal alvo das ações da administração Trump 2.0 foi o governo venezuelano de Nicolás Maduro, contestado internacionalmente pelos sinais de fraudes eleitorais no pleito de 2024. Maduro perdeu legitimidade internacional, ao perseguir opositores e ferir direitos humanos, o que tornou a Venezuela ainda mais isolada. 

Os Estados Unidos de Trump passaram a atacar embarcações venezuelanas, que supostamente carregavam drogas que seriam traficadas para solo americano, e trabalharam pela derrubada do governo Maduro. Essa movimentação estava em linha com a Estratégia de Segurança Nacional (NSS), documento divulgado pela administração Trump no final de 2025, que previa maior presença dos americanos na região em prol de sua “segurança e prosperidade”. 

Ao sequestrar Maduro em uma ofensiva sobre solo venezuelano em 3 de janeiro de 2026, Trump instaurou um novo momento nas relações entre Estados Unidos e América do Sul, uma vez que, agora, o uso da força foi retomado por Washington para pautar suas relações com os países da região. 

Do ponto de vista legal, Trump segue George W. Bush: viola princípios básicos da Carta das Nações Unidas e não solicita autorização do Conselho de Segurança da ONU para atuar na Venezuela. Portanto, ao capturar Maduro e flertar com a ideia de regime change no país sul-americano, ele se parece cada vez mais com George W. Bush, alvo de várias críticas por parte do próprio Trump em relação à invasão do Iraque. O agora presidente dos EUA chegou a dizer que seu antecessor tomou a pior decisão presidencial da história dos Estados Unidos. 

Em um editorialThe New York Times declarou que a atuação de Trump na Venezuela é ilegal, do ponto de vista doméstico nos Estados Unidos, e que Bush filho ao menos solicitou aprovação do Congresso para iniciar a Guerra do Iraque. Além disso, o jornal disse que Donald Trump “ameaça replicar a arrogância americana que levou à invasão do Iraque em 2003”, mesmo tendo declarado, em 2016, que houve insensatez no Iraque, e ao prometer, em 2024, que não começaria guerras, e sim acabaria com elas. 

O fim da ordem multilateral 

O momento parece, entretanto, mais complexo do que durante a Guerra do Iraque: a multipolaridade representada por Estados Unidos, China e Rússia desafia o aparato normativo do sistema ONU e parece dividir o mundo em zonas de influência. Ainda é cedo para entender quais serão os próximos passos do presidente americano em relação à Venezuela, mas sua atuação mostra que, enquanto o Hemisfério Ocidental é um “problema dos americanos”, a Ucrânia é uma questão da Rússia, e Taiwan, da China.  

Bush colaborou para o desmantelamento do sistema internacional baseado no multilateralismo, ao descredibilizar as Nações Unidas, mas Trump, ao lado de Putin e Xi Jinping, parece pôr fim à noção de igualdade jurídica dos Estados. Iniciando a era do imperialismo moderno, retornam o concerto europeu de 1815, que reestabeleceu o equilíbrio de poder na Europa, e a Conferência de Berlim de 1884, que dividiu a África entre as potências europeias.

 

João Pedro Gonçalves é estudante de graduação em Relações Internacionais da FAAP. Faz parte do Grupo de Estudos em Estados Unidos (GEUA-FAAP). Contato: joaopcg06@gmail.com. 

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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