Covid longa e crianças nos EUA
(Arquivo) Vacinas contra a covid-19, Brasília-DF, em 29 jul. 2021 (Crédito: Myke Sena/MS/Flickr)
Por Ingrid Marra* [Informe OPEU] [Saúde] [Covid]
O conceito de covid longa está associado à persistência de sintomas (não necessariamente de covid-19) por três meses ou mais, após uma infecção aguda de SARS-Cov-19 (vírus que causa a doença covid-19), que dura dois meses ou mais, e que limita atividades diárias. Atualmente, a covid longa é a doença crônica mais comum em crianças no país. Já atinge entre 10%-20% de crianças com histórico de covid-19, o correspondente a mais de seis milhões de casos, ultrapassando a asma (agora em segundo lugar). De maneira geral, os sintomas podem mudar com o tempo, ou reaparecer após um período de melhora.
De acordo com cientistas, há um padrão diferente de sintomas para cada fase de desenvolvimento infantil e adolescente, incluindo sintomas neurológicos, como problemas de concentração e memória, perda de olfato e paladar. Além disso, muitas crianças desenvolvem novas doenças crônicas, como diabetes, síndrome inflamatória multissistêmica, ou encefalomielite miálgica. De maneira geral, a vacinação atualizada, ou seja, específica para as cepas circulantes mais recentes, reduz os riscos de Covid Longa, tanto em pacientes pediátricos quanto adultos. Após a eleição de Donald Trump e entrada de Robert F. Kennedy Jr. (RFK Jr.) no Departamento de Saúde do país, entretanto, a recomendação da aplicação de boosters vacinais para crianças foi retirada do site oficial do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês).
A nova recomendação é direcionada somente para pessoas com 18 anos ou mais, com ênfase na necessidade da vacina para a população de 65+ e “de risco”. Além disso, o CDC afirma que o perigo de contágio por covid-19 é menor entre semanas e meses após uma primeira infecção, o que é falso: uma pessoa pode ter uma nova infecção por covid-19 poucas semanas após a primeira, principalmente devido à circulação de diversas novas subcepas do vírus que fogem à memória imunológica do paciente. Um outro aspecto importante é que as reinfecções parecem gerar menos sintomas, o que aumenta o risco de transmissão e diminui a contenção das ondas do vírus.
O secretário de Saúde RFK Jr. tem um longo histórico de difusão de desinformação em saúde: desde a afirmação de que pessoas negras teriam um sistema imune mais forte e, por isso, deveriam ter um calendário de vacinação diferente, até afirmar que seria negligência médica aplicar vacinas em crianças. Sua retórica é composta por inconsistências e por teorias conspiratórias. RFK Jr. também foi responsável pela defesa do uso de ivermectina, droga antiparasitária, e hidroxicloroquina, remédio contra malária, como tratamento para a covid-19. De maneira similar, Kennedy também afirmou que vacinas causavam autismo. No dia 19 de novembro deste ano, o site do CDC atualizou a página “Vacinas e Autismo” para declarar que “A afirmação ‘as vacinas não causam autismo’ não é baseada em evidências, pois estudos não descartaram a possibilidade de que vacinas infantis causem autismo”.
Uma das consequências desta movimentação é que o Programa de Compensação para Lesões Causadas por Vacinas está sob ameaça. Criado em 1986, o programa aparece como uma garantia para pequenos laboratórios da indústria de vacinas no país, que oferecia indenizações justas para famílias que pudessem comprovar sequelas deixadas por vacinas oferecidas. Antes da criação do programa, processos em massa de familiares de crianças que sofreram reações às vacinas levavam pequenos laboratórios à falência. Sua expansão para incluir casos de autismo levaria à falência do programa, que hoje conta com aproximadamente US$ 4 bilhões em fundos fiduciários, e expulsaria fabricantes do mercado dos EUA.
A nova política de vacinas do CDC no governo Trump 2.0 pode trazer consequências letais para a população dos EUA. Reinfecções aumentam as chances de desenvolvimento de doenças crônicas, falência de órgãos, mortes prematuras, cânceres e transtornos mentais. O risco é cumulativo, o que significa que cada nova reinfecção traz um risco maior de desenvolvimento de consequências negativas para a saúde. Em paralelo – e como resultado –, mais de uma em cada quatro crianças está cronicamente ausente da escola, ou seja, falta pelo menos 10% dos dias escolares. Em muitas escolas, mais de 30% dos alunos são cronicamente ausentes, com picos de ausência após a pandemia: em escolas primárias, os números pré-pandemia eram de aproximadamente 3,5 mil escolas com 30% de absenteísmo crônico; entre 2022-2023, 15,7 mil escolas sofreram deste problema.
Na educação secundária, 1,3 mil escolas apresentaram, entre 2017-2018, altos níveis de absenteísmo; entre 2022-2023, esse número saltou para 5,2 mil. Por último, dados mostram que 6,4 mil escolas de ensino médio foram impactadas pelo absenteísmo grave entre 2017-2018, enquanto 10,3 mil escolas compartilhavam desse problema em 2023-2023. Entre 2022 e 2023 aproximadamente 61% das escolas dos Estados Unidos reportaram níveis de absenteísmo crônico de 20% ou mais, mais que o dobro dos números reportados pré-pandemia, que giravam em torno dos 28%. Dados mostram que 30% ou mais dos estudantes estão cronicamente ausentes de 30% de todos os níveis escolares no período entre 2022-2023, comparados a apenas 14% em 2017-2018.
O CDC também retirou a recomendação de vacina para pessoas grávidas, em um aceno à comunidade anti-vacina. Marty Makary, o chefe da Food and Drug Administration (FDA, órgão regulatório que define parâmetros de segurança de alimentos e substâncias), e Vinay Prasad, responsável pela área de vacinas da FDA, criaram um primeiro rascunho para restringir doses de boosters para adultos abaixo de 65 anos sem comorbidades. É importante frisar que casos de covid-19 maternos estão diretamente ligados a complicações neonatais, abortos espontâneos, transmissão intrauterina vertical (de mãe para criança) e atrasos cognitivos em crianças, chegando a um risco 86% maior do desenvolvimento de déficits cognitivos, transtornos de neurodesenvolvimento e déficits de regulação motora.
Em termos de políticas públicas, a agência de notícias Associated Press (AP) apurou que mais de 420 projetos de lei anticiência estão em tramitação no país, com focos em vacinas, segurança alimentar e flúor na água. Conforme a mesma fonte, grupos políticos organizados e ligados ao secretário RFK Jr. estão por trás dessa movimentação. Os esforços se baseiam na agenda política Make America Healthy Again (Faça a América Saudável Novamente, em português), slogan modificado a partir do republicano Make America Great Again (Faça a América Grande Novamente, em português).
Imagem: Projetos de lei que atacam proteções à saúde em 2025
Fonte: Mapa criado por Dr. Lucky Tran. Legenda:
Verde: Projeto de lei contra vacinas
Azul: Projeto de lei contra fluoreto
Amarelo: Projetos de lei contra vacinas e fluoreto
Laranja: Projetos de lei contra fluoreto e regulação da produção de leite
Laranja escuro: Projetos de lei contra vacina e regulação de produção de leite
Roxo: Projetos de lei contra vacinas, fluoreto e regulação de produção de leite
Esses dados mostram, de certa forma, que não há um “voltar ao normal” pré-pandêmico. Crianças, bebês, mulheres, e jovens, todos – ainda – são atingidos pela falta de medidas de mitigação do vírus, que espalhou mais uma onda no último verão (inverno no Brasil).
Por meio da análise da coleta de água de esgoto, foi estimado que aproximadamente 74 milhões de pessoas foram infectadas durante os três meses de verão, com um pico de 1,4 milhão de infecções por dia. Isso representa uma em cada cinco pessoas, ou 21,6% da população do país.
Imagem: Estimativas de novas infecções diárias por SARS-CoV-2 derivadas de água de esgoto (EUA)

Como cada infecção é gatilho para doenças crônicas, a estimativa é que de 3,7 a 14,7 milhões de estadunidenses, incluindo milhares de crianças, desenvolvam condições crônicas como resultado.
* Ingrid Marra é mestra em Global Political Economy and Development (GPED) pela Universität Kassel, graduada em Relações Internacionais pela UFRJ (IRID-UFRJ), pesquisadora colaboradora do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) na área de Economia e Finanças 2021-2024, Política Doméstica a partir de 2024. Áreas de interesse: hierarquia monetária internacional e criptomoedas, análise de discurso, pós-desenvolvimento e saúde. Contato: LinkedIn.
** Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Recebido em 11 nov. 2025. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.
Siga o OPEU no Instagram, Twitter, Linkedin e Facebook
e acompanhe nossas postagens diárias.
Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.
Somos um observatório de pesquisa sobre os EUA,
com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.