Brasil

O estadista e o autocrata delirante: democracia como base e norte (parte II) 

Presidente Lula discursa na abertura do Debate Geral da 80ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas,  sede da ONU, Nova York, em 23 set. 2025 (Crédito: Ricardo Stuckert/PR/Flickr)

Por Tatiana Teixeira[Informe OPEU] [AGNU] [Brasil] [Trump 2.0]

O pronunciamento de Lula na ONU ressoou, de forma coerente, o também histórico discurso de sua vitória eleitoral, em 30 de outubro de 2022. Passados quatro anos de extrema direita no Planalto, a mensagem do então recém-eleito presidente era a de que, primeiramente, precisaríamos reconstruir a confiança dentro e fora de casa, recuperando nossa credibilidade, previsibilidade e legitimidade com nossos parceiros internacionais. 

Declinio Do Poder Americano, OApós quatro anos de extrema direita, Lula relembrou o que é e como funciona a democracia. De uma perspectiva muito diferente do Brasil de Bolsonaro e dos Estados Unidos de Trump, ele expôs seu entendimento sobre características desse sistema político e as raízes iluministas e revolucionárias de tais valores e ideias: união e paz, participação, liberdade religiosa, justiça, Constituição, mais inclusão social e oportunidades, mais respeito, mais liberdade, igualdade e fraternidade. A democracia está, afirmou Lula em 2022, acima de partidos políticos, interesses pessoais e ideologias e, como nos lembra Wallerstein (O declínio do poder americano, Contraponto, 2004), pressupõe igualdade e o livre exercício da cidadania. 

Ainda no mesmo discurso, antecipava-se o que seria a agenda interméstica do Brasil e que vimos ser defendida na AGNU, na terça-feira. Acabar com a fome é pauta prioritária que se tornaria (mais uma vez) exemplo para o mundo, junto com a defesa do combate à pobreza e a busca de um crescimento econômico com inclusão social, da reindustrialização do país e de sustentabilidade ambiental por meio de uma economia verde e digital. O Brasil, continuou Lula, deve contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres, compartilhando tecnologia, e ser mais do que um exportador de commodities, também exportando conhecimento. Boa parte desses elementos reapareceu em sua fala no último dia 23, durante a qual o presidente Lula foi aplaudido em diferentes momentos. Entre eles, estão sua defesa da democracia e da soberania, sua crítica à classificação de Cuba como país terrorista e sua denúncia do genocídio em Gaza – esta última, reproduzida no trecho abaixo: 

Nenhuma situação é mais emblemática do uso desproporcional e ilegal da força do que a da Palestina. Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo. Mas nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza. […] Ali também estão sepultados o Direito Internacional Humanitário e o mito da superioridade ética do Ocidente. Esse massacre não aconteceria sem a cumplicidade dos que poderiam evitá-lo. Em Gaza a fome é usada como arma de guerra e o deslocamento forçado de populações é praticado impunemente”. 

O momento é de gravidade nos 80 anos de existência da ONU, cuja autoridade institucional se encontra “em xeque”. Em sucessivas declarações veladas, mas inquestionavelmente direcionadas aos EUA de Trump 2.0, Lula alerta sobre a “consolidação de uma desordem internacional”, na qual “atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra”. Ao relacionar a “crise do multilateralismo” com o “enfraquecimento da democracia”, ele descreve um cenário que remete, também sem afirmá-lo de forma direta, aos EUA do presente: “Em todo o mundo, forças antidemocráticas tentam subjugar as instituições e sufocar as liberdades. Cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais, e cerceiam a imprensa”. No caminho contrário, ressalta que “o Brasil optou por resistir e defender sua democracia” e critica “as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia”, assim como a “agressão contra a independência do Poder Judiciário” e a “ingerência em assuntos internos”.  

Saiba mais

Sem citar o nome de seu antecessor, Lula destaca o julgamento e a condenação daquele que atentou contra o Estado Democrático de Direito com a ajuda dos “falsos patriotas” da extrema direita nacional “subserviente”, assim como dos EUA: “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela”. Aqui, registra-se um momento de intensa ovação. 

Democracia, insiste ele, “… pressupõe a redução das desigualdades e a garantia dos direitos mais elementares: a alimentação, a segurança, o trabalho, a moradia, a educação e a saúde”. Além da divergência sobre a concepção deste termo tão fundamental e de outros pontos já mencionados, a cada tema de seu discurso, descortinam-se os elementos do grande abismo político-ideológico que afasta o Brasil de Lula dos EUA de Trump 2.0: prioridades domésticas e em política externa; regulação do setor tecnológico (IA, Big Techs, Internet, mercados digitais); combate ao aquecimento global e à mudança climática, por meio de desenvolvimento sustentável, transição energética sem lógica predatória e um regime “com dentes”; reformas na ONU e no sistema multilateral de comércio, com a refundação da OMC; “jogo de soma zero” na ordem internacional (o conhecido modus operandi de Trump); ou ainda, a estrutura do sistema internacional. 

“O século 21 será cada vez mais multipolar. Para se manter pacífico, não pode deixar de ser multilateral. O Brasil confere crescente importância à União Europeia, à União Africana, à ASEAN, à CELAC, aos BRICS e ao G20. A voz do Sul Global deve ser ouvida”, declara Lula, mostrando que o Brasil não está sozinho. Uma mensagem, também, a seu interlocutor americano.

 

* Tatiana Teixeira é editora-chefe do OPEU e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025). Esteve nos EUA em junho e julho de 2025 para participar do curso de American Politics and Political Thought, realizado no âmbito da Civic Initiative, do Donahue Institute, vinculado à Universidade de Massachusetts Amherst (UMass). O programa Study of the United States Institutes (SUSI 2025) é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA e administrado pela Universidade de Montana (UM). Trabalhos decorrentes do programa ou outros relacionados aos Estados Unidos são considerados de totais autonomia, iniciativa e responsabilidade da pesquisadora e não representam qualquer endosso ou adesão a quaisquer políticas e agendas por parte do governo americano atual, ou anteriores. Contato: tatianat19@hotmail.com.  

** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mailprofessoratatianateixeira@outlook.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mailtcarlotti@gmail.com.

 

Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.

Siga o OPEU no InstagramTwitter Linkedin e Facebook e acompanhe nossas postagens diárias.

Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.

Somos um observatório de pesquisa sobre os Estados Unidos,

com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.

Realização:
Apoio:

Conheça o projeto OPEU

O OPEU é um portal de notícias e um banco de dados dedicado ao acompanhamento da política doméstica e internacional dos EUA.

Ler mais