América Latina

EUA e Venezuela: ‘Corolário Trump’ ecoa novo padrão de intervencionismo direto na AL 

Trump monitora as operações militares dos EUA na Venezuela, instalado em Mar-a-Lago, Flórida, em 3 jan. 2026 (Crédito: Casa Branca/Molly Riley/Flickr)

Dossiê “Trump 2.0 e o golpe na Venezuela

Por Yasmim Abril M. Reis* [Informe OPEU] [Doutrina Monroe] [Venezuela] 

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, a Venezuela acordou sob ataque aéreo dos Estados Unidos, resultando no sequestro de Nicolás Maduro, então presidente do país, e de sua esposa, Cilia Flores. A ofensiva contra a Venezuela não foi algo inesperado. A escalada entre os Estados Unidos e a Venezuela tem suas raízes antes do atual governo Donald Trump. Em seu primeiro mandato, seu então conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, classificou e nomeou a Venezuela, ao lado de Cuba e da Nicarágua, como “troika do mal“. Essa expressão indicava que os três países mencionados representavam uma ameaça à estabilidade regional e ao sistema democrático. 

Desde o início do segundo mandato, em 2025, as tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela têm aumentado. O primeiro ato do governo Trump, em fevereiro de 2025, foi a designação das organizações criminosas na Venezuela como grupos terroristas. Essa ocorrência “viabilizou”, no entendimento do Executivo trumpista, a possibilidade de se recorrer aos recursos militares em defesa dos interesses nacionais estadunidenses na região. Isso também provocou a deportação de venezuelanos, acusados pelo governo estadunidense de serem integrantes dessas organizações criminosas. Desde então, a amplificação do iminente conflito se escalonou, e acompanhamos, entre outras medidas, o envio de fuzileiros navais, submarino nuclear de ataque, aeronaves de reconhecimento P-8 Poseidon, destróieres e cruzador de mísseis guiados para o Mar do Caribe, sob o pretexto de combater o narcotráfico.  

Esse último ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela rompeu um padrão dos últimos 36 anos de não intervenção direta do ator hegemônico sobre a América Latina por meio de ações militares promovidas pelos EUA. Trata-se da maior operação militar dos Estados Unidos na região desde a invasão ao Panamá, em 1989, quando os Estados Unidos derrubaram o governo de Manuel Noriega, até então financiado pelos próprios americanos. Quando os interesses estadunidenses se romperam, e a ditadura instaurada por Noriega deixou de agradar aos dirigentes de Washington, Noriega foi destituído do poder.  

Leia também
Maduro, Noriega e as drogas: a lei que vale é a dos EUA

Apesar do caso mencionado, esse episódio se distingue da ofensiva recente contra a Venezuela, uma vez que Noriega não foi sequestrado, ao contrário de Maduro e sua esposa. Sequestrar, o verbo transitivo direto mais correto a ser aplicado à situação, já que houve a retenção ilegal de dois indivíduos venezuelanos contra sua vontade e, ainda mais grave, por forças estrangeiras em território nacional. É importante frisar que não se objetiva, neste texto, abordar diretamente a questão interna venezuelana, que, como sabido, tem passado por uma crise política, econômica e social nas últimas décadas.  

O direito internacional, além disso, foi violado, colocando em xeque os fundamentos da ordem jurídica global instaurada após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A Carta das Nações Unidas (ONU), em vigor desde 1945, ratificada pelos Estados Unidos, assim como pela Venezuela, proíbe expressamente, conforme seu Artigo 4º, o “uso da força contra a integridade territorial ou a dependência política de qualquer Estado”, com exceção da autorização do Conselho de Segurança explícita ou da legítima defesa imediata. As duas ressalvas não se justificam no caso venezuelano.  

Parece que a condicionante do conselheiro de Segurança é um fantasma na atuação estadunidense no exterior. Desse modo, o passado ecoa e, dessa vez, não tão longe da vizinhança dos Estados Unidos. Em 2003, os EUA também realizaram uma operação similar no Iraque, sem ocupação terrestre, sendo uma operação tática, mas sem resolução estratégica. A justificativa no Iraque eram as “armas de destruição em massa”; na Venezuela, o “narcotráfico”. A grande questão é que a narrativa se modifica como justificativa pelos Estados Unidos, porém, o padrão permanece. Isso é, a falsa ilusão por trás da ação: a remoção do líder como o fim do problema, da perspectiva dos EUA, ao contrário da percepção da comunidade internacional, que não aprova medidas como as adotadas em relação à Venezuela. Entretanto, a vitória tática não significa a estratégica, na medida em que um sistema político, como o chavismo, não é formado por pessoas. Esses são constituídos por redes que formam um sistema. No caso venezuelano, podemos identificar dois movimentos acoplados em curso: o acesso a recursos energéticos estratégicos, vide o petróleo, por meio da mudança de regime (regime change).  

O acesso ao recurso estratégico: a luta pelo petróleo  

A violação do direito internacional e da governança global é inquestionável. Apesar disso, o governo Trump, no caso venezuelano, utilizou-se da lei antiterror como justificativa para a ação na Venezuela e o sequestro do líder político no poder. Segundo a legislação doméstica estadunidense, o Executivo precisa notificar o Congresso com antecedência sobre ações militares, exceto em ações militares pontuais e/ou emergenciais.  

O ataque dos EUA contra a Venezuela tem um interesse maior por trás: o acesso ao petróleo. Em seu discurso inaugural (foto abaixo), em 20 de janeiro de 2025, Trump foi direto ao ponto. Em sua fala inicial para a nação e para o mundo, explicitou que usaria o combate ao narcotráfico como um dos focos do seu governo. Porém, não parou por aí. Em um trecho da sua manifestação, Trump destacou: “seremos uma nação rica novamente, e é esse ouro líquido sob nossos pés que nos ajudará a alcançar esse objetivo”. Durante a mesma verbalização, Donald Trump ressaltou a importância da segurança energética. Em suas palavras, “a crise inflacionária foi causada por gastos excessivos e pela escalada dos preços da energia, e é por isso que hoje também declararei estado de emergência energética nacional”.  

Discurso de posse do presidente Trump, em 20 jan. 2025 (Crédito e fonte: Casa Branca/Embaixada dos EUA na Romênia)

A Venezuela é o país com a maior reserva de petróleo no mundo. O interesse estadunidense pelo petróleo venezuelano não é surpreendente. É importante destacar que o país latino-americano é detentor de um tipo particular de petróleo extraído que atrai os EUA por algumas razões, entre elas, a redução do custo para extração e refinamento, dada a proximidade geográfica. Além disso, recorda-se que o valor do diesel na economia mundial tem variado bastante, em razão da escassez da oferta desse derivado do petróleo. A principal razão associada à crise venezuelana e à falta de oferta do diesel é a característica do petróleo extraído em solo venezuelano. Esse é um recurso mais pesado e com maior viscosidade e acidez, o que demanda um processamento mais complexo em diversas etapas.  

Os EUA também produzem petróleo, porém, a característica do óleo extraído em solo estadunidense é que sua produção é mais leve e doce, resultando em baixo teor de enxofre. Esse tipo de petróleo é mais propício para produção de gasolina, já que exige menos refino em suas etapas para uso direto. Não por acaso, após o sequestro do presidente Maduro, Trump, em sua primeira declaração, explicitou que atribuirá a administração do petróleo às empresas estadunidenses e irá gerenciar o país.  

Esse padrão se revela distinto do modelo clássico de regime change anteriormente aplicado no Afeganistão e no Iraque, por exemplo. Ainda assim, o objetivo continua o mesmo: manter a hegemonia dos EUA e assegurar sua segurança energética. O que muda, de fato, são os meios. Isto é, não há mais uma narrativa de promover a democracia e reconstruir as instituições como presidentes anteriores tentavam disfarçar em sua retórica. Donald Trump se distingue, porque explicita seus reais interesses e promove uma política externa que podemos inicialmente denominar como midiaticamente do espetáculo. 

 

* Yasmim Abril M. Reis é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG). É pesquisadora colaboradora no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) nas áreas de Segurança e Defesa, pesquisadora colaboradora no Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES), líder de pesquisa voluntária no Laboratório de Simulações e Cenários na linha de pesquisa de Biodefesa e Segurança Alimentar (LSC/EGN) e Pesquisadora de geopolítica no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: reisabril@gmail.com. 

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em 4 jan. 2026. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com. 

 

Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.

Siga o OPEU no InstagramTwitterLinkedin e Facebook e acompanhe nossas postagens diárias.

Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.

Somos um observatório de pesquisa sobre os EUA,

com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos. 

Realização:
Apoio:

Conheça o projeto OPEU

O OPEU é um portal de notícias e um banco de dados dedicado ao acompanhamento da política doméstica e internacional dos EUA.

Ler mais