Eleições

A vitória de Mamdani em NY: ruptura hegemônica, polarização e nova coalizão de classe

Pôsteres de campanha de Mamdani na corrida eleitoral em NY, 2 jun. 2025 (Crédito: Gene Daly/Flickr)

Por Julia Martello Ortega[Informe OPEU] [Zohran Mamdani]

A vitória de Zohran Mamdani na eleição para a prefeitura de Nova York em 2025 representa um marco histórico e ideológico, configurando-se não apenas como um resultado eleitoral, mas como um fenômeno de ruptura que desafiou as estruturas do establishment democrata e redefiniu as possibilidades da esquerda no cenário político estadunidense. Aos 34 anos, Mamdani, autodeclarado socialista democrático, tornou-se o prefeito mais jovem da cidade desde 1892 e o primeiro muçulmano a ocupar o cargo. Seu triunfo na eleição geral – 50,4%, contra os 41,6% dos votos de seu principal oponente, o candidato independente Andrew Cuomo – confirmou a tendência observada nas primárias, onde já havia sido registrada a “maior reviravolta na história moderna da cidade de Nova York”. Esse resultado de maioria absoluta, em um sistema eleitoral complexo, confere a Mamdani um mandato robusto que transcende a mera vitória aritmética, legitimando sua agenda de transformação radical e consolidando um processo de ruptura e renovação sob a égide de um novo populismo progressista na metrópole. 

For a New York you can afford. Comment Pollsite to find out where you vote.  Comment GOTVNow to canvass or phonebank.O ineditismo de Mamdani é profundamente ligado à sua identidade e trajetória singular. Nascido em Uganda, filho de imigrantes muçulmanos, sua campanha conseguiu mobilizar uma coalizão multirracial em torno de uma agenda focada no custo de vida crescente da metrópole. Com isso, atraiu eleitores que historicamente se sentiam alienados pelo processo político tradicional. Seu slogan de campanha, “A city we can afford” (“Uma cidade que caiba no nosso bolso”), encapsulou a promessa de resolver as dores reais dos eleitores em detrimento de disputas identitárias, sinalizando que a sobrevivência econômica na metrópole se tornou a pauta unificadora acima de qualquer divisão cultural. 

A derrota do establishment e o fim da Era Cuomo 

A ascensão de Mamdani foi catalisada pela profunda rejeição ao establishment, exemplificada pela derrota do ex-governador Andrew Cuomo. Membro de uma importante dinastia política democrata que dominou o estado por décadas, Cuomo representava a continuidade e a figura do status quo burocrático. Sua derrota nas primárias e, posteriormente, como independente, mesmo após receber apoio da base republicana e de doadores de elite que tentaram frear a guinada à esquerda, foi marcada pelo fardo de seu passado, incluindo escândalos de corrupção que levaram à sua renúncia em 2021. Essa rejeição não foi apenas à pessoa de Cuomo, mas ao modelo de governança que ele encarnava: tecnocrático, distante das bases e excessivamente ligado aos interesses corporativos de Albany. 

O OPEU destaca que o maior desafio de Cuomo foi a pecha de ser o “status Cuomo, um trocadilho que viralizou nas redes sociais e que simbolizava a estagnação política em um momento de crise urbana aguda. Esse apelo conservador e a rejeição às elites tradicionais foram fatores cruciais para o resultado. Em busca de novas soluções para problemas crônicos como a falta de moradia e a inflação, o eleitorado demonstrou estar farto do apego a elites partidárias e das dinastias políticas que governavam a cidade há décadas sem apresentar mudanças estruturais significativas. 

Mamdani não venceu apenas com uma plataforma ambiciosa, mas também com uma retórica de confronto direto que energizou a base militante. Em seu discurso de vitória, ele afirmou uma ruptura com o passado e uma disposição para enfrentar as elites econômicas, sintetizando a mudança de expectativa para a liderança da cidade, ao declarar que seria uma era em que os nova-iorquinos esperariam de seus líderes uma “visão ousada, em vez de uma lista de desculpas pela timidez. Essa postura combativa serviu para demarcar claramente o campo de disputa, recusando a conciliação tradicional do centro político. Em um momento de confronto com a política nacional, ele ecoou a citação de Nelson Mandela: “Sempre parece impossível até que seja feito”, simbolizando a superação das dificuldades e a viabilidade de um projeto socialista em solo americano. Sua campanha foi centrada na dicotomia “classe trabalhadora versus bilionários”, rejeitando os power brokers tradicionais, como Michael Bloomberg e Bill Ackman, que injetaram milhões para apoiar seus oponentes na tentativa de manter o controle sobre a agenda econômica da cidade. Ao transformar o financiamento bilionário de seus rivais em um ponto de ataque, Mamdani conseguiu caracterizar sua própria campanha como um movimento popular genuíno, livre das amarras do capital financeiro. 

Habitação e transporte: os pilares da agenda redistributiva 

Consideradas radicais por seus críticos, e visionárias, por seus apoiadores, as propostas de Mamdani se concentraram em três pilares materiais essenciais para a reprodução da vida na cidade: habitação, transporte e creches universais. Tais propostas seriam financiadas pelo aumento de impostos sobre as corporações e sobre o 1% mais rico da cidade, uma medida de justiça fiscal desenhada para redistribuir a riqueza acumulada no topo da pirâmide social.  

No que tange ao transporte, a proposta central era tornar os ônibus municipais gratuitos e mais rápidos, tratando a mobilidade urbana como um direito, e não como uma mercadoria. A eliminação das tarifas seria combinada com uma expansão das faixas exclusivas (dedicated bus lanes) para acelerar o tráfego, beneficiando diretamente a força de trabalho que depende do transporte público para seus deslocamentos diários. A prefeita de Boston, Michelle Wu, uma progressista elogiada por Mamdani, demonstrou que as rotas livres de tarifas resultaram em uma enorme diferença na conectividade econômica dos cidadãos de baixa renda, reduzindo barreiras ao emprego e à educação.  

(Arquivo) Michelle Wu, durante sua campanha à prefeitura de Boston, em 30 set. 2021 (Fonte: Wikimedia Commons/Boston University News Service)

Já na frente da habitação, Mamdani propôs o congelamento dos aluguéis para um milhão de inquilinos em apartamentos com aluguel estabilizado (rent-stabilized tenants). Essa proposta incide sobre os apartamentos de interesse social e serve como um dique de contenção contra a gentrificação desenfreada. Juntamente com a construção de mais unidades habitacionais acessíveis, foi uma peça central de sua plataforma para enfrentar a crise de habitação, onde o aluguel médio se tornou insuportável para as classes menos favorecidas, forçando o deslocamento de comunidades inteiras para as periferias ou mesmo para fora da cidade. 

O colapso do neoliberalismo progressista 

Essa ascensão meteórica de Zohran Mamdani e a concomitante implosão da autoridade do centro democrata só podem ser compreendidas através da lente da teoria da crise hegemônica, de Nancy Fraser. Fraser argumenta que, antes do surgimento de Donald Trump e da subsequente fragmentação política, o bloco político dominante nos Estados Unidos era o “neoliberalismo progressista“, uma estrutura ideológica que se tornou a chave para naturalizar a dominação das classes estabelecidas sob uma roupagem moderna. O neoliberalismo progressista constituiu uma aliança poderosa e paradoxal que uniu as principais correntes liberais dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo) com os setores mais financeirizados da economia, como Wall Street e o Vale do Silício. 

O mecanismo que manteve esse bloco coeso reside em sua combinação intrinsecamente contraditória de distribuição e reconhecimento. O componente distributivo era profundamente regressivo, visando à liberalização, desregulamentação bancária e financeirização, o que esvaziou os padrões de vida da classe trabalhadora e precarizou o trabalho. Para que essa economia política excludente se tornasse hegemônica, ela foi “reembalada” e legitimada como uma política progressista de reconhecimento baseada em ideais de diversidade e de empoderamento meritocrático, criando a ilusão de inclusão, enquanto a desigualdade material se aprofundava. A falha central desse modelo, explica Fraser, foi a redução da igualdade à meritocracia corporativa. A política de reconhecimento neoliberal progressista não visava a abolir a hierarquia social ou a questionar as bases do capitalismo, mas “diversificá-la”, permitindo que indivíduos “merecedores” de grupos sub-representados chegassem ao topo das hierarquias corporativas e políticas, enquanto a vasta maioria permanecia submetida à exploração econômica e à insegurança social. 

A vitória de Mamdani é o “momento Tea Party” dos Democratas, porque expôs o preço desse compromisso falho. O centro do Partido Democrata fracassou em apresentar um consenso sobre política concreta que respondesse à ansiedade econômica, oferecendo apenas apoio incondicional a aliados externos controversos e compromissos vagamente definidos com a equidade simbólica, além de ignorar a crise distributiva que assola as famílias americanas. A insistência do partido em proteger elites corruptas e reprimir reformas internas, como a purga de ativistas que desafiaram a gerontocracia do Comitê Nacional Democrata, reforçou a imagem de um partido que prioriza a “deferência de elite” e a manutenção de seus privilégios internos, em detrimento da representação genuína da classe trabalhadora. 

Nesse contexto de vácuo político, Mamdani preenche a “lacuna hegemônica” com o que Fraser define como “populismo progressista”. Ao contrário do populismo reacionário, que utiliza o nacionalismo excludente e a xenofobia para canalizar o descontentamento, o populismo progressista busca unir uma política inclusiva de reconhecimento com uma política de distribuição favorável às famílias dos  trabalhadores. Mamdani traduz isso na prática, ao atacar o capital financeirizado por meio de impostos sobre os ricos para financiar bens públicos universais, ao mesmo tempo que constrói uma coalizão multirracial inclusiva que não marginaliza grupos minoritários. Sua vitória sinaliza que a classe trabalhadora, farta de ter apenas “reconhecimento no jantar” enquanto sua riqueza era expropriada por políticas neoliberais, agora exige uma liderança que coloque a justiça distributiva no centro da luta contra a crise sistêmica, rejeitando a falsa escolha entre justiça social e prosperidade econômica. 

Polarização e paradoxo: entre a cordialidade da elite e o ódio da base 

A eleição de Mamdani e a subsequente reação do espectro político estadunidense também constituem um estudo de caso emblemático para a teoria da polarização partidária, tal como delineada por Camila Felix Vidal. A autora define a polarização como a separação ideológica entre os campos liberal e conservador e o deslocamento para os seus extremos, eliminando o centro moderado que historicamente governou a política americana. A ascensão de um socialista democrático explícito em Nova York e a violenta reação da base conservadora confirmam a tese sobre a fratura ideológica nos Estados Unidos. Essa polarização não se restringe à política doméstica, estendendo-se à política externa, que tradicionalmente era um campo de consenso bipartidário.  

A vitória de Mamdani ocorreu em um momento de “fúria” da base democrata, devido ao apoio incondicional da liderança do partido a Israel. Cofundador do Students for Justice in Palestine, Mamdani se posicionou a favor de direitos iguais e contra o apartheid, o que foi imediatamente absorvido pelo polo conservador como um sinal de “inimigo interno” e “antiamericano”. A política externa, portanto, deixou de ser um tópico de consenso para se tornar um novo vetor de polarização, espelhando o caráter agressivo e maniqueísta historicamente associado ao Partido Republicano. 

O paradoxo da polarização se manifesta de forma mais aguda no contraste entre a cordialidade tática da elite e a retórica extremista da base. Enquanto a reação dos círculos conservadores foi um tsunami de calúnias islamofóbicas, com figuras como a representante (deputada) Elise Stefanik (R-NY) e a ativista Laura Loomer chamando Mamdani de “jihadista” e alertando, histericamente, sobre um “novo 11 de Setembro“, o encontro institucional entre Mamdani e o presidente Donald Trump foi descrito como “surpreendentemente cordial“. Esse paradoxo revela as nuances estratégicas da polarização contemporânea: Trump e Mamdani, ambos com raízes no Queens e posicionados como outsiders que desafiaram seus respectivos establishments partidários, encontraram um terreno pragmático comum na crise de custo de vida e na retórica antissistema. Para Trump, o encontro serviu para minar a estratégia de seu próprio partido de transformar Mamdani em um “bicho-papão nacional, demonstrando sua autonomia. Contudo, a violência discursiva na base, exemplificada pelas declarações de Charlie Kirk, associando um prefeito muçulmano ao terrorismo, confirma que, embora haja pragmatismo na liderança, a fratura ideológica na sociedade permanece aguda e é ativamente mobilizada por meio de tropos de ódio para manter a base eleitoral engajada e radicalizada. 

Herança dos protestos e a nova coalizão de classe multirracial 

Por fim, a vitória de Mamdani e a formação da sua coalizão eleitoral encontram suas raízes teóricas nos ciclos de protesto e na luta histórica pela justiça racial e econômica que marcaram as últimas décadas. Mamdani é o herdeiro direto de um movimento de populismo de esquerda que remonta à crise financeira de 2008. Ted Goertzel posiciona o movimento Occupy Wall Street (OWS) como o marco inicial desse ciclo, focado na raiva popular contra a concentração de riqueza e a impunidade do sistema financeiro. O ímpeto do OWS, que introduziu a linguagem dos “99% contra o 1% no vocabulário político, foi absorvido pela campanha de Bernie Sanders em 2016 e agora foi levado à prefeitura da maior cidade do país pelo DSA (Democratic Socialists of America). A plataforma de Mamdani é uma continuação direta do apelo anti-Wall Street e da retórica dos “99%”, provando que a “alternativa política fundamentada em protestos” amadureceu e é viável no vácuo de poder democrata, transitando da ocupação de praças para a ocupação de cargos executivos. 

#vidasnegrasimportam E Libertação NegraA análise da base social de Mamdani também exige uma compreensão de como ele unificou demandas raciais e de classe, conforme teorizado por Keenga-Yamahta Taylor. A sociedade estadunidense é frequentemente descrita sob o mito do “daltonismo racial, uma ferramenta ideológica usada para justificar o desmantelamento de programas sociais e culpar as comunidades negras pela própria pobreza, ignorando barreiras estruturais. Taylor argumenta que o racismo é um “cavalo de Troia” que oculta um ataque mais amplo contra toda a classe trabalhadora, dividindo-a para manter o status quo. Mamdani provou essa tese, na prática, ao construir uma coalizão multirracial que incluiu imigrantes, muçulmanos, latinos, jovens e a classe trabalhadora branca, grupos que muitas vezes são colocados uns contra os outros. Vimos essa dinâmica em ação, recentemente, na corrida presidencial de 2024.  

Dados indicam que a campanha de Mamdani mobilizou cerca de 100 mil voluntários e fez milhões de contatos diretos, uma operação de base sem precedentes. Ao focar em propostas materiais universais, como transporte e moradia, ele traduziu demandas de reconhecimento (como o fim da brutalidade policial) em demandas de distribuição. Com isso, unificou grupos que o neoliberalismo progressista mantinha fragmentados e demonstrou que a solidariedade de classe é o antídoto para a fragmentação racial. 

Um abalo político na era pós-2025 

Metaforicamente, pode-se analisar o Partido Democrata tradicional como uma estrutura construída sobre a areia movediça do neoliberalismo, tentando se manter relevante, por meio de uma estética de diversidade superficial que já não convence o eleitorado. A eleição de Zohran Mamdani age como um movimento sísmico que expõe a fragilidade dessa fundação. Os escombros, formados pelas crises de custo de vida e pelo racismo institucional persistente, não podem mais ser ignorados ou escondidos sob a retórica. Seguindo o manual dos ciclos de protesto e da teoria crítica, Mamdani utiliza o projeto de redistribuição radical como alicerce para construir uma nova fundação sólida, unindo a classe trabalhadora multirracial em uma estrutura política capaz de desafiar tanto a hegemonia financeira quanto o reacionarismo de extrema direita. Sua vitória sinaliza que, na era pós-2025, a estabilidade política e o futuro da democracia americana dependerão da capacidade de entregar justiça material concreta, e não apenas vitórias simbólicas.

 

Julia Martello Ortega é estudante de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Contato: jmartelloortega@gmail.com / LinkedIn. 

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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