Freando as ações climáticas: o papel dos grupos negacionistas nas conferências da ONU
Por Jahde Lopez e Luan Brum* [Informe OPEU] [Negacionismo climático] [Rede Atlas]
Encerra-se neste 21 de novembro a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém (PA), um evento crucial para o Brasil, que tenta reafirmar sua liderança em meio à corrida global pela transição energética. Historicamente, esse também tem sido um espaço de pressão, utilizado por grupos de interesse que buscam frear qualquer avanço no combate às mudanças climáticas em nome do negacionismo climático.
Um dos exemplos mais marcantes desse movimento surgiu no final da década de 1990, quando a Atlas Economic Research Foundation (Rede Atlas), organização transnacional com sede em Arlington, na Virgínia, voltada para a difusão de ideias de defesa do livre-mercado, uniu-se à ExxonMobil, uma das maiores companhias petrolíferas dos Estados Unidos. De acordo com o DeSmog, um dos principais bancos de dados dedicados à investigação do lobby climático, a petrolífera norte-americana tem um longo histórico de campanhas de desinformação e de oposição a políticas de mitigação das mudanças climáticas. Em 1998, apenas um ano após o lançamento do Protocolo de Kyoto – acordo assinado, mas não ratificado pelo governo Bill Clinton (1993-2001) –, a Exxon destinou mais de US$ 33 milhões a mais de 60 organizações diferentes.
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Nesse contexto, marcado pelo avanço das negociações internacionais sobre o clima, os laços entre a Atlas e a Exxon se intensificaram, o que se refletiu, por exemplo, na concessão de US$ 50 mil à organização em 1998. De acordo com documentos consultados nos arquivos da Atlas na Hoover Institution, um ano antes, no final de 1997, Alejandro Chafuen, então presidente da Atlas, comunicou a William E. Hale, diretor de Relações Públicas da Exxon, que uma nova Conferência das Nações Unidas sobre o Clima seria realizada na Argentina: “Estamos especialmente animados com uma notícia vinda de Kyoto: uma segunda cúpula global sobre mudanças climáticas está programada para o final de 1998, na Argentina”. Na mesma correspondência, Chafuen argumentou que a Argentina era o local mais adequado, já que contava com um número significativo de aliados da Atlas:
“Como você deve saber, a Atlas trabalha com mais institutos de livre-mercado na Argentina do que em qualquer outro país, exceto os Estados Unidos. Igualmente importante, temos relacionamentos extremamente bons com a mídia e muitos ministros e outros altos funcionários do governo na Argentina. (Veja o boletim informativo Destaques do inverno de 1996 em anexo) Tudo isso significa que a Atlas estará em uma posição única para exercer uma influência forte e positiva na cúpula, no debate e no futuro da política de mudanças climáticas”.
Com apoio financeiro da Exxon, a Atlas articulou, junto a seus aliados argentinos, uma ação coordenada para influenciar a COP-4, em Buenos Aires. Conforme a proposta de financiamento da Atlas encontrada nos arquivos da Hoover, a instituição realizou, em Orlando (EUA), antes da conferência da ONU, um evento sobre pobreza e meio ambiente destinado a “encorajar institutos latino-americanos a solicitar status de ONG”. Na Argentina, fundações ligadas à Atlas, como a Fundación República, a Fundación Libertad e a Fundación de Estudios Energéticos Latinoamericanos, promoveram eventos e publicações que divulgaram ideias de livre-mercado e defenderam a privatização dos recursos energéticos.
Com recursos da Exxon, a Atlas financiou bolsas de estudo em 1998, permitindo que jovens latino-americanos atuassem em think tanks e cursassem pós-graduação nos Estados Unidos, especialmente na George Mason University, que, entre 1987 e 2017, recebeu mais de US$ 300 mil da rede. Um dos casos emblemáticos é o de Ana Lamas, atual subsecretária de Meio Ambiente do governo de Javier Milei. Ela participou de programas da Atlas voltados para o estudo do aquecimento global e recebeu apoio para integrar um seminário sobre o tema em Buenos Aires, em 1998, durante as negociações climáticas daquele ano. Em 2024, na COP-29, em Baku, Lamas reafirmou a visão do governo argentino de que as mudanças climáticas devem ser enfrentadas pelas forças de mercado, posição reforçada pela retirada da delegação argentina das negociações, determinada por Milei.
Em 13 de outubro de 2025, Paul Driessen, um dos principais articuladores dos recursos repassados pela Exxon à Atlas, publicou, no Heartland Institute, o artigo “Fantasia e duplicidade da seita climática precedem a COP30”. No texto, afirmou que “alegações descaradas sobre as causas e soluções para uma crise climática ilusória devem ser contestadas”. O Heartland Institute foi, historicamente, um dos maiores beneficiários do financiamento da Exxon, recebendo US$ 676.500 somente em 1998.
Segundo Driessen:
“A 30ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP30) promoverá suas fantasias e demandas climáticas, energéticas e econômicas de 10 a 21 de novembro em Belém, Brasil. Cerca de 70 mil cientistas, ativistas, políticos e jornalistas oportunistas (além de observadores) estarão presentes […] Cada vez mais evidências demonstram que as alegações de uma crise planetária têm origem em modelos computacionais sem sentido e em alarmismo, e não em ciência, dados ou fatos reais”.
Na COP-30, em Belém, está presente o Committee for a Constructive Tomorrow (CFACT), instituição na qual Paul Driessen atua como analista sênior de políticas públicas. Desde o início da conferência, o grupo tem buscado desacreditar o evento e suas motivações. Em uma publicação recente no Instagram, acompanhada da foto de uma árvore, o CFACT afirmou: “Eles asfaltaram o paraíso para construir uma rodovia para a #COP30naAmazônia. Eles não se importam com o planeta; o que importa é o controle”. Em outra postagem, um funcionário aparece ao lado de um tanque de guerra do lado de fora da conferência e questiona: “É isto que eles querem? Eles querem nos controlar. E é assim que vão fazer”.
Paul Driessen, do CFACT (Fonte: DeSmog)
No fim das contas, trata-se de uma retórica antiga, com um propósito persistente: minar a credibilidade das negociações climáticas, de modo a adiar respostas efetivas de enfrentamento da crise ambiental. Como observam Naomi Oreskes e Erik Conway, no livro Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming (Bloomsbury Publishing, 2011), estratégias desse tipo têm sido sistematicamente utilizadas para semear dúvida, deslegitimar a ciência e proteger interesses econômicos ligados aos combustíveis fósseis. ![]()
NOTAS
Parte dos documentos e correspondências analisadas neste Informe OPEU foi coletada entre abril e junho de 2024 nos arquivos da Atlas Network, na biblioteca da Hoover Institution, Stanford, EUA.
O presente texto foi produzido no âmbito do Projeto de Pesquisa “Repensando a Hegemonia: Poder e Contradições da Presença dos Estados Unidos no Mundo Contemporâneo” (RI/UFPel), coordenado pelo prof. Me. Luan Brum e pela doutoranda Jahde Lopez, em parceria com o OPEU e o LabGrima.
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* Luan Corrêa Brum é professor substituto no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), doutorando no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC). Contato: luan.brum1996@hotmail.com.
Jahde de Almeida Lopez é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC). Contato: jahdelopez@gmail.com.
* Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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Paul Driessen, do