Internacional

O Quadrilátero desfeito. Os EUA de Trump e a Europa: “Muy Amigos” (II)

Esta foto pode ser utilizada gratuitamente ao abrigo das licenças Creative Commons e deve ser acompanhada da seguinte menção: “© União Europeia 2015 – Parlamento Europeu” (Fonte: European Parliament/Flickr)

Dossiê “Os Estados Unidos de Trump e a Europa”

Por Sebastião C. Velasco e Cruz* [Joe Biden] [Europa] [Relações transatlânticas] [Política Externa]

Entre o breve relato de desencontros entre os Estados Unidos e a Europa no segundo mandato de Trump e o histórico das relações transatlânticas nos primeiros 100 dias do governo Biden o contraste não poderia ser mais gritante.  

No começo de 2021, depois de quatro anos de sobressaltos com as atitudes agressivas e a conduta errática de seu antecessor, em plena crise pandêmica, ainda sob o trauma da invasão do Capitólio, as elites europeias receberam a inauguração do governo Biden com alívio, senão com entusiasmo. 

Razões para isso não faltavam. Tendo exercido a vice-presidência por oito anos, Senador durante décadas, com longa experiência internacional, Biden assumiu o governo com a promessa de reconduzir a política exterior de seu país a seu leito natural, ao restaurar os laços esgarçados no período anterior com aliados históricos e reafirmar o papel dos Estados Unidos como líder do Ocidente liberal e democrático. Com Biden o slogan America First saía de cena, substituído pela mensagem tranquilizadora: “America is back; the trans-Atlantic alliance is back. And we are not looking backward. We are looking forward together.”1 

Biden's bid for re-election: 'Make America Great Again'? | Counterfire(Arquivo) ‘America is back’, anuncia Biden (Crédito: Gage Skidmore/Flickr/CC BY-SA 2.0. Fonte: CounterFire)

O balanço publicado pela Carnegie Endowment for International Peace no final desse curto período esclarece bem o significado prático da retórica de Biden. Lastreando suas declarações de intenção, os Estados Unidos regressam ao acordo de Paris sobre o clima, reabrem conversações com o Irã com o propósito de salvar o acordo nuclear firmado no governo Obama; retornam à Organização Mundial da Saúde; restabelecem as transferências para o Fundo Populacional da ONU; e suspendem as sanções aplicadas a juízes do Tribunal Penal Internacional no governo Trump. Tudo isso em meio a intensa atividade diplomática com foco na Europa, que incluiu a participação do Secretário de Estado, Blinken, em reunião do Conselho de Assuntos Exteriores da União Europeia, em dois encontros ministeriais da OTAN, e, de forma presencial, no encontro ministerial do G7, realizado no começo de maio, em Londres. Coroando essa sequência de gestos simbólicos, Biden comparece por videoconferência à reunião do Conselho da U.E., em março, a primeira participação de um presidente americano neste colegiado desde 2001.2 

Subjacente a esse movimento simpático de reaproximação, convergências programáticas notáveis: o diagnóstico comum sobre a crise climática, com a prioridade decorrente ao tema da transição energética; a ênfase – pelo menos no plano discursivo – na defesa dos direitos humanos e na promoção da democracia; a reafirmação do papel do Estado como órgão de regulação e fomento da economia; a preocupação com a ascensão da China e sua postura cada vez mais assertiva na arena internacional.  

Tais afinidades não excluíam discordâncias, e a maneira como lidar com a China era uma delas. Nesse ponto, Biden não se afasta muito de Trump: mantém as tarifas que este havia imposto ao concorrente asiático, definido como um competidor estratégico com meios e disposição para desafiar o papel de líder global dos Estados Unidos, e se esforça para atrair os aliados a uma política agressiva de contenção dele. A posição europeia era bem mais matizada. Depois de sete anos de negociações, acabava de concluir um Acordo Abrangente de Investimento com a China, cujo processo de ratificação foi suspenso pelo Parlamento Europeu, em maio de 2021, em represália às sanções impostas pela China a políticos da UE por seu comportamento diante da questão dos Uigures. Não contente com esse resultado parcial, o governo americano continuava a pressionar por medidas restritivas às empresas chinesas na Europa.  

Não era o único ponto de fricção no relacionamento transatlântico. Além dele havia a questão das tarifas aplicadas por Trump às importações europeias de aço e alumínio, que não foram imediatamente eliminadas, mas convertidas bem mais tarde em cotas depois de longo processo de negociação. Outro tema sensível era a regulação do mercado digital e a aplicação das políticas de concorrência da UE às Big Techs, que já nessa época surgia como complicador entre os aliados.3 E havia, por fim, a percepção de que a proposta de reindustrialização de Biden, eixo principal de sua política exterior “voltada para a classe média”, envolvia implicitamente a ameaça de tratamento discriminatório em detrimento das empresas europeias. 

Ponderando ambos os aspectos – a disposição proclamada e os problemas pontuais a resolver –, o autor conclui com uma nota de prudência.  

There is little doubt that the Biden administration is off to a solid start when it comes getting the transatlantic relationship back on track…” 

However, repairing the relationship after Trump was always going to be the easy part—the real question is whether the transatlantic partners can capitalize on their improved diplomatic relations to both remove bilateral irritants inherited from the Trump administration and deliver a series of quick policy ‘wins’ during Biden’s first year in office.4 

***    *** 

Um ano depois, havia razões para se interrogar sobre a disposição americana de cumprir a promessa. O primeiro abalo na confiança veio em agosto de 2021, com a desastrosa retirada de tropas do Afeganistão, medida não acertada com os sócios europeus, que mantinham presença militar no País há 20 anos, como integrantes da ação da OTAN contra o Talibã e a Al Qaeda. O outro atingiu especificamente a França, que perdeu um contrato multibilionário com a Austrália para a construção de submarinos convencionais, ao ser alijada da AUKUS (aliança de segurança anunciada em setembro de 2021 entre a Austrália, o Reino Unido e os Estados Unidos).   

As dúvidas alimentadas por tais atos seriam corroboradas pela promulgação, em agosto de 2022, do IRA (Lei de Redução da Inflação, no acrônimo em inglês), programa enganosamente batizado de meio trilhão de dólares em incentivos fiscais e transferências diretas, para incentivar o investimento na ampliação da capacidade produtiva doméstica nas áreas ambiental e de saúde pública. Denunciado pela U.E como fator de distorção do mercado, ao criar poderoso estímulo a que empresas europeias deslocassem suas plantas para o território dos Estados Unidos, o IRA se manteve durante todo o mandato de Biden como um irritante nas relações transatlânticas.  

How the 'China Threat' Could Help Preserve Biden's Legacy - The Wire China(Arquivo) Placa do lado de fora da Vernon Electric Cooperative em Westby, Wisconsin, em 5 set. 2024, antes do anúncio do então presidente Joe Biden sobre o financiamento para a eletrificação rural limpa por meio da Lei de Redução da Inflação (Crédito: Cameron Smith/Casa Branca/Flickr)

Mas a essa altura a Europa já estava abraçada aos Estados Unidos, na reação conjunta à invasão da Ucrânia, que se traduziu em apoio financeiro e assistência militar à nação aliada, além de ondas de sanções econômicas cada vez mais severas contra a Rússia.  

Voltarei ao tema da Ucrânia mais adiante. Por enquanto, basta assinalar dois aspectos: os países europeus (uns mais do que outros) relutaram em aceitar a iminência da guerra, e foram profundamente prejudicados pelas medidas retaliatórias adotadas contra a Rússia. Fortemente dependente no campo energético, a Alemanha foi particularmente impactada pela interrupção do fornecimento do gás russo, fator essencial na competitividade de sua indústria, e mergulhou numa crise profunda que ainda não foi vencida.  

Tendo logrado um objetivo estratégico explícito (a desvinculação entre a Alemanha e a Rússia), isentos de seus custos humanos, sob a forma de leva de refugiados, os Estados Unidos ainda ganharam economicamente com a guerra, pelo aumento significativo de suas exportações de gás liquefeito e de armamentos. 

Considerado o conjunto desses elementos, cabe reconhecer que Biden reconstituiu de fato os laços de amizade com a Europa. Mas uma amizade especial, em que um amigo leva, sistematicamente, vantagem sobre o outro. 

 ***

Notas explicativas e referências 

1 Garamone, Jim, “President Biden Tells World: ‘America Is Back’”. DoD News, 19.02.2021. 

2 Brattberg, Erik, “Transatlantic relations after Biden’s first 100 days”, Carnegie Endowment for International Peace, 6.05.2021. 

3 A esse respeito, a informação merece destaque: “Notwithstanding recent positive signals about U.S.-French digital taxation talks, the Biden administration is reportedly preparing to introduce retaliatory tariffs against Austria, Italy, Spain, and the UK in response to their digital services taxes.” Brattberg, op. cit. 

4 Brattberg, op. cit. 

 

Sebastião Velasco e Cruz é ex-coordenador do INCT-INEU e coordenador do OPEU, Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicampe Professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). 

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