Radar OPEU, n. 20: Já conhecem o ‘Viva África?’
Crédito:
Por Tatiana Teixeira* [Divulgação] [Radar OPEU] [Viva África]
Neste novo Radar OPEU, trago um programa lançado em maio deste ano e que preenche uma lacuna importante em termos de difusão científica sobre temas de Política Internacional no Brasil. É o “Viva África”, apresentado pelas professoras e pesquisadoras Natália Fingermann e Carolina Morais. O programa é transmitido ao vivo, sempre às terças-feiras, a partir das 18h, no canal da TVGGN no YouTube.
Desde os primeiros episódios, é clara a intenção de Natália e Carolina: aproximar o espectador de um continente, sobre o qual, apesar da proximidade histórica e cultural com o Brasil, pouco falamos e pouco conhecemos. E, do mesmo modo, na construção desse diálogo e desse repertório, elas buscam nos lembrar de que não existe “uma” África, mas muitas, de desafios, histórias coloniais, experiências estatais, inserções internacionais e tradições intelectuais ricas e diversas.
Embora o foco do OPEU sejam os Estados Unidos, compreender as relações entre Washington e o continente africano exige conhecer, também, as múltiplas realidades africanas e a produção de conhecimento de especialistas da área. É nesse espírito que apresento o “Viva África” a vocês. Também é uma oportunidade de aproximar nossos leitores de iniciativas acadêmicas que ajudam a ampliar o debate sobre política internacional.
Conversei com as pesquisadoras Natalia e Carolina sobre o projeto. Os melhores trechos do nosso bate-papo seguem abaixo:
OPEU: Por que “Viva África”? Como surgiu a ideia do projeto?
A ideia do projeto surgiu de uma conversa informal que eu, Natalia, tive com Lourdes Nassif sobre a carência, no Brasil, de notícias qualificadas e contextualizadas a respeito do continente africano. Lourdes se entusiasmou com a proposta e me pediu que a formalizasse. Inicialmente, eu falaria apenas sobre geopolítica. No entanto, percebi que esse formato poderia acabar reproduzindo uma cobertura já bastante comum, concentrada, sobretudo, em conflitos, crises políticas e problemas econômicos. Mesmo quando relevantes, essas pautas, se apresentadas isoladamente, podem reforçar uma visão limitada e estereotipada da África.
Para ampliar esse olhar, surgiu a ideia de incluir uma seção dedicada às culturas africanas, capaz de mostrar a diversidade existente entre os países do continente e de destacar o protagonismo africano na produção de conhecimentos, linguagens, expressões artísticas e formas de interpretar o mundo. Foi nesse momento que pensei na Carolina Morais. Eu já a havia entrevistado remotamente, no ano anterior, para o Observatório de Geopolítica, mas ainda não a conhecia pessoalmente e não sabia se ela aceitaria participar do projeto. Como o “não” eu já tinha, decidi enviar uma mensagem pelo WhatsApp. Para minha felicidade, ela aceitou imediatamente.
Desde então, gravamos programas de aproximadamente 30 minutos, divididos entre 15 minutos de geopolítica e 15 minutos de cultura. Em geral, fico responsável pela definição das pautas geopolíticas, enquanto Carolina conduz a seleção dos temas culturais. Esse processo, porém, é bastante colaborativo: trocamos sugestões, comentamos as pautas uma da outra e buscamos estabelecer conexões entre as duas partes do programa. O nome “Viva África” traduz justamente essa proposta: apresentar um continente vivo, plural, contemporâneo e em permanente transformação.
OPEU: Em que medida as disputas contemporâneas pela África dialogam com a história do colonialismo e do imperialismo dos séculos XIX e XX? O que mudou e o que permanece?
O colonialismo é uma dimensão fundamental para compreender as desigualdades, as fronteiras e algumas das diferenças regionais que ainda persistem no continente africano. Mas ele não é suficiente, por si só, para explicar a África contemporânea. Também é necessário considerar as dinâmicas dos processos de independência, ocorridos em grande parte no contexto da Guerra Fria, quando muitos países africanos se tornaram espaços de disputa entre as grandes potências. Posteriormente, com o fim da Guerra Fria, as políticas de ajuste estrutural contribuíram para a formação de novas relações de dependência externa. Essas políticas, em geral orientadas por uma lógica neoliberal e pela ideia de que uma mesma solução poderia ser aplicada a diferentes realidades, frequentemente desconsideraram as particularidades históricas, sociais e econômicas de cada país.
Atualmente, observa-se uma renovação importante da infraestrutura em diversas partes do continente, com a China desempenhando um papel central no financiamento e na execução de projetos. Embora crie novas oportunidades, essa presença também suscita debates sobre endividamento, dependência, transferência de tecnologia e benefícios para as economias locais.
Ao mesmo tempo, países do Sahel que estiveram sob domínio colonial francês vêm questionando de maneira mais direta suas relações com a França. Esse movimento inclui críticas à presença militar francesa, à influência política de Paris e ao franco CFA, frequentemente interpretado como uma permanência das estruturas coloniais nas relações monetárias e financeiras da região.
O que permanece, portanto, é a disputa externa por influência, recursos naturais, mercados e posições estratégicas. O que mudou é que os governos africanos têm hoje maior capacidade de diversificar suas parcerias e negociar com diferentes atores internacionais. Além disso, muitos países têm buscado ampliar sua autonomia por meio do fortalecimento da integração regional e continental, especialmente no âmbito da União Africana. Esse movimento recupera princípios do pan-africanismo, que foram essenciais durante as lutas de independência, mas os adapta aos desafios atuais, como industrialização, infraestrutura, comércio, segurança e reforma da governança global.
OPEU: Para quem ainda conhece pouco o continente e talvez reproduza estereótipos sobre ele, o que vocês consideram mais importante desmistificar? Como disse Joseph Ki-Zerbo, “a África tem história”.
O primeiro aspecto a ser desmistificado é a própria ideia de uma África homogênea. Trata-se de um continente marcado por enorme diversidade política, econômica, linguística, religiosa, social e cultural. Falar sobre a África como se todos os países compartilhassem a mesma trajetória ou os mesmos desafios produz análises imprecisas e, muitas vezes, estereotipadas. Também é importante superar a imagem de um continente definido apenas por guerras, pobreza, fome ou instabilidade política. Esses problemas existem e precisam ser discutidos, mas não resumem as sociedades africanas. A África contemporânea também é espaço de inovação tecnológica, produção intelectual, experimentação política, crescimento urbano, indústrias culturais e intensos debates sobre democracia, desenvolvimento e justiça social.
No Brasil, parte da relação com a África ainda é construída exclusivamente por meio de uma ideia ancestral do continente. Essa conexão histórica e identitária é fundamental, especialmente para os movimentos negros e para a compreensão da formação da sociedade brasileira. Ela precisa, porém, ser acompanhada de um conhecimento sobre a África do presente. Hoje, o continente reúne intelectuais, acadêmicos, artistas, empreendedores, cineastas, escritores e movimentos sociais que discutem muitos dos mesmos desafios enfrentados pelo Brasil, como desigualdade, racismo, mudanças climáticas, acesso à educação, soberania econômica e qualidade da democracia.
A frase de Joseph Ki-Zerbo, “a África tem história”, continua essencial porque recorda que os povos africanos não são apenas objetos da história colonial ou das decisões das grandes potências. Eles são sujeitos históricos, produtores de ideias e protagonistas de seus próprios processos de transformação.
OPEU: Quais são as principais agendas de pesquisa de vocês e o que mais desperta o interesse de vocês no estudo das tantas Áfricas que existem no continente?
Natalia: Minha agenda de pesquisa está concentrada nas estratégias de combate à pobreza no Sul Global, com atenção especial aos diferentes mecanismos de cooperação e ajuda internacional.
No mestrado, estudei programas do Banco Mundial na América Latina. No doutorado, analisei iniciativas de cooperação Sul-Sul desenvolvidas por Brasil e China em Moçambique. Meu interesse sempre esteve voltado para a maneira como políticas internacionais são formuladas, negociadas e implementadas em contextos locais, bem como para os limites e as possibilidades dessas iniciativas na promoção do desenvolvimento.
Mais recentemente, tenho direcionado meu olhar para países da África Oriental, especialmente Ruanda e Etiópia. Esse trabalho também está relacionado com minha atuação na coordenação do Núcleo de Estudos e Negócios Africanos, o NENAF, da ESPM. O que mais me interessa é compreender como os países africanos formulam suas próprias estratégias de desenvolvimento, constroem parcerias internacionais e buscam ampliar sua margem de autonomia em um sistema internacional profundamente desigual.
Carolina: Atualmente, tenho me dedicado à pesquisa e à ação no campo da memória da escravidão no continente africano, buscando compreender os locais de partida de pessoas escravizadas como territórios de intensos encontros culturais e, ao mesmo tempo, como espaços marcados pela desumanização imposta aos povos africanos. No âmbito do projeto Heritage Voyage of Return, tenho feito visitas de campo, entrevistas e pesquisas em arquivos relacionados aos Portões do Não Retorno de seis países da África Ocidental, com o propósito de construir um levantamento sobre a memória da escravidão e suas reverberações do outro lado do Atlântico.
OPEU: Que autores, livros, podcasts, filmes ou iniciativas vocês recomendam? E quais armadilhas teóricas e metodológicas um pesquisador iniciante deve evitar?
Natália: Para quem se interessa por literatura, recomendamos acompanhar clubes de leitura dedicados a autores africanos. Uma iniciativa interessante é o clube conduzido pelo professor Alexandre dos Santos e um colega, em formato on-line. O grupo trabalha com obras de diferentes países e contribui para que os leitores compreendam melhor a diversidade de experiências históricas, sociais e culturais do continente. Um dos meus livros favoritos é Meio Sol Amarelo (Companhia das Letras, 2017), da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A obra aborda a Guerra de Biafra por meio de personagens complexos e permite compreender tanto o contexto político nigeriano quanto os impactos humanos de um conflito.
Carolina: Indico a autobiografia da escritora Maryse Condé, cujo título é uma pergunta fundamental: What is Africa to Me? (The University of Chicago Press, 2016). A trajetória dessa mulher negra, nascida na diáspora e enraizada no continente africano em um momento de profundas transformações sociais, políticas e econômicas, lança luz sobre as vastas possibilidades de interpretar o continente africano.
Entre as principais armadilhas teóricas e metodológicas está a tentativa de aplicar categorias gerais ao continente sem considerar as especificidades de cada país e região. Também é preciso evitar tratar a África apenas a partir de autores externos, ignorando pesquisadores, intelectuais e produtores culturais africanos. Outra armadilha é estudar o continente exclusivamente por meio de crises ou de relações com potências estrangeiras. É fundamental observar as dinâmicas internas, as disputas locais e a agência dos atores africanos.
Por fim, sempre que possível, é muito importante conhecer presencialmente os países estudados. Ir à África, estabelecer interlocução com pesquisadores locais, visitar instituições e observar diretamente as realidades analisadas transforma a qualidade da pesquisa. A experiência de campo não substitui a teoria, mas ajuda a questionar simplificações e a construir interpretações mais responsáveis.
OPEU: Por que vocês decidiram levar esse debate para o YouTube? Que público esperam alcançar com o “Viva África”?
Escolhemos o YouTube, porque ele permite aproximar o debate acadêmico e jornalístico de um público mais amplo. Recentemente, inserimos o programa no Spotify. Nosso objetivo é apresentar discussões que ficam restritas a veículos especializados de maneira mais acessível a todos, sem abrir mão da contextualização histórica e de um caráter mais analítico. O “Viva África” espera alcançar estudantes, professores, jornalistas, pesquisadores, integrantes dos movimentos negros, profissionais interessados nas relações entre Brasil e África e pessoas que desejam conhecer melhor o continente, mesmo sem formação prévia sobre o tema.
***
Sobre as autoras
Natalia Fingermann é pesquisadora, professora e especialista em relações internacionais, cooperação para o desenvolvimento e África contemporânea. Doutora pela FGV-SP e mestre pela University of Sussex, Natalia estudou políticas de combate à pobreza, programas do Banco Mundial na América Latina e iniciativas de cooperação Sul-Sul de Brasil e China em Moçambique. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Negócios Africanos (NENAF) da ESPM, atua como docente de Relações Internacionais na mesma instituição e ministra a disciplina Políticas Públicas e Empreendedorismo na FATEC SEBRAE.
Carolina Maíra Morais é historiadora, mestre em História da África, professora e consultora especializada em relações Brasil-África. Cofundadora da The African Pride, atua na construção de pontes institucionais entre governos, embaixadas e setor privado, promovendo intercâmbios culturais, educacionais e comerciais entre o Brasil e países africanos. Reconhecida pela ONU/MIPAD como uma das afrodescendentes mais influentes da década (2022), Carolina é referência em história e cultura iorubá, diplomacia cultural, comércio exterior e estratégias transculturais com foco no continente africano. Participou de fóruns internacionais organizados pela UNESCO e pela UCLG África, e desenvolve projetos de alcance global ao lado do Prêmio Nobel de Literatura Wole Soyinka, incluindo o Heritage Voyage of Return. Apresenta o programa “Viva África”, no Jornal GGN, defendendo que o futuro das relações Brasil-África passa pela memória, pela cooperação econômica e cultural, e pela centralidade africana no cenário internacional.
***
Agora que vocês já conhecem um pouco mais o projeto e suas pesquisadoras, confiram os episódios já disponíveis do “Viva África”. ![]()
Episódio #1 – Integração e tensão na África contemporânea, 5 de maio de 2026
O episódio de estreia apresentou a proposta central do “Viva África”: analisar as principais transformações políticas do continente sem separar geopolítica, história e cultura. O programa discutiu a crise política e militar no Mali, o afastamento das antigas potências ocidentais e a aproximação do país com a Rússia. Também abordou o crescimento da xenofobia na África do Sul e seus impactos sobre as relações com a Nigéria e sobre o ideal de solidariedade pan-africana. Na área cultural, destacou a língua portuguesa como instrumento de integração, as celebrações culturais de Cabo Verde e o reconhecimento internacional da escritora moçambicana Paulina Chiziane.
Episódio #2 – O que Trump, Xi e Macron querem da África?, 12 de maio de 2026
O segundo episódio mostrou como França, Estados Unidos e China disputam influência no continente por meio de investimentos, ajuda internacional, comércio e acesso a recursos estratégicos. A visita de Emmanuel Macron ao Quênia foi analisada dentro da tentativa francesa de reconstruir sua presença africana depois dos reveses no Sahel. O programa também discutiu os cortes norte-americanos em programas de saúde, especialmente na Zâmbia, e a possibilidade de utilização da ajuda como instrumento de negociação sobre minerais. Em contraste, a China ampliou o acesso de produtos africanos ao seu mercado. Na cultura, o episódio destacou o prêmio audiovisual AMVCA, a força da Nollywood, a Semana Nacional da Cultura de Burkina Faso e a celebração etíope de Lideta Maryam.
Episódio #3 – Da ONU ao jazz na África, 19 de maio de 2026
O episódio colocou o Quênia no centro da diplomacia continental. A cúpula de Nairóbi com a França foi apresentada como espaço de pressão africana pela redução do custo do crédito, pela reforma da arquitetura financeira internacional e pelo financiamento da transição energética. A expansão da sede das Nações Unidas em Nairóbi reforçou a cidade como um dos principais centros multilaterais do Sul Global. O programa também acompanhou o surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, as medidas de controle da influência estrangeira adotadas pelo governo ugandense e a cooperação de segurança entre Nigéria e Estados Unidos. O giro cultural passou pelo Festival de Jazz de Saint-Louis, no Senegal, e pelo Festival Internacional de Cinema de Animação de Meknès, no Marrocos.
Episódio #4 – Turbulências políticas no Senegal e as celebrações do Dia da África, 26 de maio de 2026
O quarto episódio debateu a procura por soluções africanas para o financiamento do desenvolvimento. A reunião do Banco Africano de Desenvolvimento foi analisada em um momento de redução da ajuda internacional, com a proposta de mobilizar fundos de pensão, fundos soberanos e outros recursos financeiros existentes no próprio continente. O programa também tratou da candidatura de Bola Tinubu à reeleição na Nigéria e dos desafios relacionados à fragmentação da oposição e à integridade eleitoral. No Senegal, a ruptura entre Bassirou Diomaye Faye e Ousmane Sonko foi apresentada como uma crise com implicações para um país considerado referência institucional na África Ocidental. O episódio ainda examinou a nacionalização do setor de urânio pelo Níger e sua disputa com a empresa francesa Orano. Aproveitando o ensejo da semana de 25 de maio, também se abordou as celebrações do Dia da África, dentro e fora do continente.
Episódio #5 – Eleições na Etiópia e as celebrações muçulmanas na África, 2 jun. 2026
O episódio analisou as eleições etíopes em um ambiente de baixa competitividade, conflitos internos e tensões regionais. A trajetória do primeiro-ministro Abiy Ahmed foi situada entre as promessas de desenvolvimento, o crescimento econômico, as disputas no Chifre da África e as relações estratégicas com China e Emirados Árabes Unidos. Em seguida, o programa discutiu o endurecimento da legislação contra pessoas LGBTQ+ em Gana e Senegal e suas consequências para os direitos civis e para as relações com parceiros internacionais. O surto de Ebola na RDC e em Uganda foi abordado sob o ângulo da soberania: enquanto os Estados Unidos pretendiam instalar no Quênia uma unidade de quarentena para cidadãos norte-americanos, a China anunciou o envio de especialistas médicos diretamente à RDC. As pesquisadoras também tratam do feriado do calendário muçulmano celebrado por cerca de 45% da população do continente africano: Tabaski 2026, a grande Festa do Sacrifício no continente africano. Além disso, abordam o tema do esporte, com a final da Liga Africana de Basquete, na qual o time ruandês RSSB Tiger.
Episódio #6 – África no centro da geopolítica: deportações, Zimbábue na ONU e Copa do Mundo, 9 jun. 2026
O sexto episódio investigou os acordos, pelos quais os Estados Unidos passaram a enviar deportados de diferentes nacionalidades para países africanos. Foram analisados os casos da República Centro-Africana, Sudão do Sul, Eswatini, Ruanda, Gana, Guiné Equatorial, Camarões, Uganda, RDC e Serra Leoa. O programa explicou os possíveis conflitos desses acordos com o princípio internacional de não devolução e com a proibição de expulsões coletivas. O segundo eixo foi a eleição do Zimbábue para uma cadeira temporária no Conselho de Segurança da ONU. A conquista representa uma vitória diplomática para o governo de Emmerson Mnangagwa, mas ocorre paralelamente às tentativas de alterar as regras constitucionais e prolongar sua permanência no poder. Também foi dada a largada nas expectativas sobre a África na Copa e abordado o caso do árbitro da Somália, impedido de entrar nos Estados Unidos.
Episódio #7 – O G7 e a África dos minerais críticos no jazz e na Copa, 16 jun. 2026
O episódio examinou a escolha do Quênia como principal representante africano convidado para a reunião ampliada do G7, enquanto a África do Sul ficou de fora. A participação de William Ruto foi relacionada com a defesa de financiamento mais justo, industrialização africana e agregação de valor aos minerais produzidos no continente. O programa mostrou que as potências ocidentais concordam sobre a necessidade de reduzir a dependência da China, mas divergem sobre preços, subsídios e governança das cadeias de minerais críticos. A República Democrática do Congo apareceu como ponto central dessa disputa, devido às suas reservas de cobalto, cobre e coltan. O episódio também ligou a competição mineral ao conflito com o M23, ao surto de Ebola e à crise política provocada pela possibilidade de um terceiro mandato para Félix Tshisekedi. Mencionou-se, ainda, o luto sul-africano e de todo o mundo da música pelo pianista Abdullah Ibrahim. Ao final, a dupla faz um balanço da participação das seleções africanas na Copa do mundo.
Episódio #8 – Yuan, reparações históricas e a África na Copa, 23 jun. 2026
O oitavo episódio abordou o crescimento do uso do yuan nas relações comerciais e financeiras entre a China e os países africanos. A isenção tarifária oferecida por Pequim, a conexão de bancos africanos ao sistema chinês CIPS e a conversão de empréstimos do Quênia para a moeda chinesa foram apresentadas como sinais de diversificação monetária, embora o dólar continue predominante. O segundo tema foi a conferência realizada em Accra, que aproximou União Africana e CARICOM em torno de uma agenda internacional de reparações pela escravidão e pelo colonialismo. Entre as propostas, estavam pedidos formais de desculpas, compensações, alívio da dívida, restituição de patrimônio cultural e criação de um fundo global. O episódio acompanhou, ainda, a participação das seleções africanas na Copa do Mundo e anunciou um programa especial com o ex-jogador angolano Johnson Macaba.
Episódio #9 – RDC, Ruanda e o rompimento entre Burkina Faso e França, 30 jun. 2026
O nono episódio acompanhou a iniciativa da República Democrática do Congo de levar à Corte Internacional de Justiça suas acusações contra Ruanda. Kinshasa responsabiliza Kigali pelo apoio ao M23, enquanto o governo ruandês acusa a RDC de colaborar com as Forças Democráticas de Libertação de Ruanda. O programa relacionou o conflito às sanções impostas pelos Estados Unidos contra redes envolvidas no comércio de ouro e minerais extraídos de áreas controladas pelos rebeldes. O segundo destaque foi o rompimento das relações diplomáticas entre Burkina Faso e França, mais um capítulo do declínio da influência francesa no Sahel e da consolidação da Aliança dos Estados do Sahel. No segmento esportivo, o episódio avaliou o desempenho das seleções africanas na Copa do Mundo.
Programa especial – O angolano Jonhson Macaba fala do futebol africano, 7 jul. 2026
O especial apresentou a Copa do Mundo como um retrato das tensões políticas de seu tempo. O programa relacionou o torneio às políticas migratórias e securitárias dos Estados Unidos, às dificuldades de circulação de torcedores e ao risco de um evento menos acessível e menos democrático. Também discutiu a forte elevação dos preços dos ingressos, a adoção de preços dinâmicos e o impacto da desigualdade econômica sobre a presença do público. As divergências comerciais entre Estados Unidos, Canadá e México mostraram que até os três países-sede atravessavam uma relação política mais conflituosa. A participação africana foi analisada não apenas pelos resultados esportivos, mas também como expressão de identidade, diáspora, mobilidade e projeção internacional.
Episódio #10 – Afrofobia ameaça liderança na África do Sul, os 92 anos de Soyinka e a arte de Tayou, 14 jul. 2026
No último episódio do “Viva África” disponível até a edição deste Radar OPEU, o programa analisou a escalada da afrofobia na África do Sul, destacando como protestos anti-imigração passaram a incluir intimidação, invasões de residências e ataques contra estrangeiros, sobretudo, de países africanos vizinhos. O episódio discutiu a atuação de grupos como o March and March e a Operation Dudula, os possíveis ganhos políticos para forças como o partido MK, ligado a Jacob Zuma, e a avaliação de pesquisadores de que essa mobilização não é apenas espontânea, mas também alimentada por desinformação, interesses eleitorais e redes locais de poder. Também foi abordada a fala de Thabo Mbeki, que classificou o movimento como um “projeto contrarrevolucionário”, além dos efeitos diplomáticos da crise sobre a imagem da África do Sul como liderança regional e defensora da integração africana. No âmbito cultural, comentou-se a importância da celebração e participação de Wole Soyinka na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), cidade localizada na Costa Verde do Rio de Janeiro, e a exposição de Tayou, na Pinacoteca de São Paulo, capital.
* Tatiana Teixeira é editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), pesquisadora de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025).
** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: professoratatianateixeira@outlook.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.
Siga o OPEU no Instagram, Twitter, Linkedin e Facebook e acompanhe nossas postagens diárias.
Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.
Somos um observatório de pesquisa sobre os Estados Unidos,
com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.