Novas políticas vacinais sob RFK: conheça o Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização
(Arquivo) Atual secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr. discursa no Freedom Fest, em 12 jul. 2024, em Las Vegas, Nevada (Crédito: Gage Skidmore/Flickr)
Por Ingrid Marra* [Informe OPEU] [Saúde]
No início de dezembro de 2025, o Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização (Acip, na sigla em inglês) votou, com maioria de 8-3, pelo fim da recomendação de vacinas contra hepatite B (HBV) em recém-nascidos. Na sequência, a deliberação foi aceita pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês). A partir desse parecer, a recomendação será que processos de tomada de decisão em relação à HBV sejam individuais: mães que testaram negativo para doenças hepáticas poderão decidir, individualmente, se querem vacinar seus bebês recém-nascidos, havendo um período de dois meses de espera antes de dar a primeira dose da vacina.
A antiga recomendação de vacinação para recém-nascidos foi implementada em 1991, com evidências que sugerem que aproximadamente 90.000 vidas foram salvas pela vacina desde então. No mesmo período, o número de infecções por hepatite B caiu em torno de 90% em relação ao número de casos antes da vacinação em massa. O Comitê também recomenda que bebês, cujas mães têm hepatite B diagnosticada, devem receber uma dose da vacina.
A reunião contou, ainda, com a discussão sobre os ingredientes de vacinas, assunto que está em alta nas discussões de saúde há alguns meses nos EUA. Em 2015, o agora secretário de Saúde, Robert F. Kennedy, publicou o livro Timerosal: deixe a ciência falar: As evidências que apoiam a remoção imediata do mercúrio — uma neurotoxina conhecida — das vacinas (Skyhorse, 2015). Desde então, ele tenta conectar o mercúrio em vacinas ao diagnóstico de autismo. Além de pesquisas refutarem tal alegação, uma Corte Federal de vacinas também rejeitou esse argumento no fim dos anos 2000.
O argumento utilizado pelos membros a favor da nova recomendação se baseia no alegado “baixo risco” de transmissão e em que decisões sobre vacinas deverão ser individualizadas. Seus críticos alegam, porém, que muitas mães não têm acesso a testes confiáveis, ou podem receber falsos positivos – situação em que o paciente tem a doença, mas testa negativo. A hepatite B é uma infecção transmitida pelo contato com fluidos corporais, como no parto, e leva a condições como cirrose, câncer e insuficiência hepática. Além disso, pesquisas mostram que a HBV também pode ser transmitida através de contato indireto, como uso compartilhado de lâminas de barbear ou escovas de dente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a vacinação de recém-nascidos, sendo uma segunda dose com 1 mês de vida, e a terceira dose, com 6 meses.
Algumas horas antes da nova recomendação, o presidente Trump solicitou, em um memorando da Casa Branca, uma revisão das políticas de vacina. No documento, mencionou que outros países recomendam menos imunizações para crianças. Poucas horas após a decisão, Trump postou um elogio à equipe. Essa medida surge poucos meses depois de uma demissão em massa de todos os 17 colaboradores do Acip, em junho do ano passado, que foram substituídos por céticos de vacinas por Robert F. Kennedy Jr. Em um artigo de opinião publicado no Wall Street Journal, RFK Jr. argumenta que o Acip “nunca foi contra uma vacina”, mesmo que algumas tenham sido retiradas de circulação por questões de segurança, e que a instituição “falhou em analisar produtos vacinais” para bebês e pessoas grávidas. Embora o argumento oficial tenha sido de questões financeiras e de orçamento, um funcionário da Casa Branca reporta que RFK Jr. exibiu preocupação com o fato de os antigos membros terem sido indicados pelo então presidente Joe Biden, e que alguns teriam feito doações para o Partido Democrata.
Os novos membros do Acip incluem:
Joseph Hibbeln: formado em Psiquiatria e cientista em Nutrição. Hibbeln publicou um artigo que sugere que dietas vegetarianas estariam ligadas à depressão, além de afirmar que diversos problemas psiquiátricos estariam ligados à falta de ômega 3. Não há evidências de que Hibbeln tenha feito pesquisas em vacinas.
Vicky Pebsworth: formada em Enfermagem com um doutorado em Saúde Pública. Já atuou no Comitê Consultivo de Vacinas e Produtos Biológicos Relacionados (VRBPAC, em inglês) da Administração de Drogas e Alimentos (FDA, em inglês). Pebsworth atua no conselho do Centro Nacional de Informações sobre Vacinas. O Centro Nacional é uma organização sem fins lucrativos previamente chamada de “Pacientes Insatisfeitos Juntos” (Dissatisfied Patients Together, em inglês), cuja agenda é questionar a segurança de vacinas.
Michael Ross: formado em Medicina e ex- professor de Ginecologia e Obstetrícia. Ross foi membro de comitês de diversas empresas no setor de saúde e atua como diretor de Marketing de uma startup que desenvolve soluções de Inteligência Artificial para aplicação em Medicina.
James Pagano: formado em Medicina, tem 40 anos de experiência em medicina de emergência. Já integrou o comitê executivo de diversos hospitais.
Robert Malone: médico e pesquisador, alega ter inventado a tecnologia de RNAm (RNA mensageiro, tecnologia de vacinas) e é um de seus principais críticos. Malone ganhou visibilidade na bolha antivacina a partir de 2021, ao aparecer em diversos podcasts, questionando a segurança das vacinas contra a covid-19.
Martin Kulldorff: formado em bioestatística e nascido na Suécia. Foi membro da Acip, no subgrupo de segurança de vacinas, e participou do Comitê Consultivo de Segurança e Gerenciamento de Riscos de Medicamentos da FDA. Kulldorff escreveu, junto com o ex-diretor do NIH Jay Bhattachrya, a chamada “Grande Declaração Barrington”, em 2020. Nela, defendem a “imunidade de rebanho” e o fim das restrições e do isolamento social no início da pandemia de covid-19. Kulldorff também se tornou líder do Instituto Brownstone em 2021, um think tank de oposição às medidas de contenção da covid-19 e cético quanto à segurança de vacinas.
Cody Meissner: professor na área de Pediatria e ex-membro da Acip e da VRBPAC. Meissner apoiou RFK Jr. em sua decisão de não recomendar vacinas contra a covid-19 em crianças e pessoas grávidas, além de escrever um artigo de opinião contra o uso de máscaras em crianças para a diminuição dos níveis de transmissão de covid-19 nessa faixa etária. O professor também é expressamente contra o mandato de vacinas e contra a vacinação de pessoas consideradas “baixo risco” contra a covid-19.
Retsef Levi: professor de Gestão de Operações, trabalhou em alguns projetos relacionados com a área da saúde, mas não tem histórico de publicações em doenças infecciosas ou vacinas – até a pandemia de covid-19. Em 2023, Levi começou a publicar artigos de opinião como coautor, trazendo dúvidas sobre a segurança da vacina contra covid-19, além de alegar que a vacina estava causando mortes e sua aplicação deveria ser interrompida.
Em resposta à nova recomendação, o Departamento de Saúde do estado de Maryland emitiu um comunicado com críticas. No documento, cita a recomendação da Academia Americana de Pediatria e solicita que trabalhadores da saúde continuem oferecendo as vacinas para todos os recém-nascidos e crianças no estado. Diversos outros especialistas em doenças infecciosas e vacinas expressaram preocupação com o futuro da Acip e da saúde pública nos EUA. Com a escolha de membros com histórico antivacina, ou com falta de experiência na área, especialistas afirmam que a decisão pode levar à falta de credibilidade na Acip e causar o retrocesso em relação às políticas de vacina. ![]()
* Ingrid Marra é mestra em Global Political Economy and Development (GPED) pela Universität Kassel, graduada em Relações Internacionais pela UFRJ (IRID-UFRJ), colaboradora externa do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) na área de Economia e Finanças 2021-2024, e Política Doméstica a partir de 2024. Áreas de interesse: hierarquia monetária internacional e criptomoedas, análise de discurso, pós-desenvolvimento e saúde. LinkedIn.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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