Trump é cansativo
Crédito: Imagem gerada com IA
Por Williams Gonçalves* [Informe OPEU] [Guerra no Irã] [Oriente Médio]
A dinâmica da guerra promovida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã tem determinado o rumo das relações internacionais em todas as suas dimensões. O mundo todo tem estado atento a cada movimento e a cada declaração prestada pelos dirigentes dos Estados nela diretamente envolvidos. Dois recentes acontecimentos demonstram o quanto isso é verdade.
O primeiro deles foi a declaração de Donald Trump a respeito de sua previsão de duração da guerra. O controle exercido pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã do Estreito de Ormuz, restringindo significativamente o trânsito de navios petroleiros e, consequentemente, prejudicando o abastecimento de todos os países consumidores, ocasionou a elevação do preço dessa commodity a nível superior a US$ 100, o maior valor atingido nos últimos anos. Em face das perspectivas sombrias que essa alta do petróleo criava para o conjunto da economia internacional, o presidente dos Estados Unidos declarou que, na verdade, o fim da guerra está muito próximo. Imediatamente após essa sua declaração, os preços do petróleo no mercado futuro caíram para o nível de antes.
O segundo acontecimento com grande impacto na dinâmica da política internacional foi a conversa de Trump com o presidente russo, V. Putin. Este último, segundo foi noticiado, ofereceu-se como mediador para que norte-americanos e iranianos alcancem um entendimento que permita encerrar a guerra. O fato de Trump apresentar essa conversa como um episódio de sinal positivo contribuiu para reforçar a ideia de que a guerra pode durar apenas um pouco mais, o que se somou a declaração anterior e contribuiu bastante para acalmar os investidores no mercado futuro de petróleo.
Esses dois acontecimentos constituem claras evidências que Trump não dispõe de uma estratégia para alcançar o objetivo, a que se propôs, de “tornar a América grande novamente”. A cada dia, torna-se manifesto que ele age impulsiva e empiricamente. Atuar de maneira estratégica significa prever quais são as possíveis e prováveis reações do oponente face às suas iniciativas. Essa previsão da reação do outro permite, por sua vez, se não sua neutralização, pelo menos uma nova ação com vistas a reduzir os danos e lançar mão de novas ações, explorando as vulnerabilidades do oponente. Em vista disso, qualquer estratégia que se queira vitoriosa depende do maior conhecimento possível das capacidades e do estado de ânimo do inimigo. Essa lição de conhecer bem o inimigo é uma das primeiras coisas que um leitor casual de Sun Tzu logo aprende.
A ideia acalentada por Trump de que a iniciativa bélica tomada em conjunto com Israel seria capaz de derrubar o sistema político do Irã, afastando o clero islâmico do comando do país e substituindo-o por dirigentes laicos simpáticos aos Estados Unidos, afigura-se espantosamente ridícula. Chega a ser incompreensível que uma equipe governante da maior potência bélica mundial perceba o sistema político iraniano como algo que tenha sido imposto de fora para dentro do país e que pode ser simplesmente substituído por um sistema trazido de fora pelos Estados Unidos, sob uma chuva de bombas. Deixando de lado esse aspecto operacional da questão, Trump e seus assessores se comportam como quem desconhece a cultura do Irã e o processo, do qual resultou sua atual estrutura de poder.
Não é objetivo deste texto analisar o sistema político iraniano, tampouco demonstrar as razões da unidade nacional daquele país. Nossas observações são expostas para tão somente reafirmar a ideia de que Trump age impulsiva e empiricamente. Embora seja verdade que a ideia de guerra contra o Irã sempre tenha sido desejada pelos formuladores de política dos Estados Unidos, as condições que cercam a iniciativa belicosa de Trump são muito adversas. A camada dirigente norte-americana entendia uma guerra contra o Irã como necessária tanto para proteger Israel do programa nuclear iraniano, o que garantiria imunidade estratégica ao Irã e fortaleceria seus aliados na região que lutam em favor da causa palestina, quanto para reverter a humilhação sofrida quando da Revolução Islâmica de 1979. Todavia, Trump alterou de tal modo a ordem internacional que as iniciativas bélicas dos Estados Unidos não são mais acolhidas como foram no passado.
O governo Trump destruiu a ordem internacional. E o fez sem ter qualquer preocupação em estruturar uma nova ordem. Instaurou a desordem para dela se aproveitar. Mas até quando poderá tirar proveito dessa situação? Essa é a grande questão.
Sugestão da editora
Trump e a decomposição da ordem internacional
Trump inaugurou nova fase da inserção internacional dos Estados Unidos. Renunciou à ambição alimentada pelos dirigentes do país desde a Segunda Guerra Mundial de torná-lo hegemônico infinitamente. Tacitamente, admitiu a multipolaridade do sistema internacional. Ele dissolveu a mais sólida base desse programa hegemônico: rompeu a Aliança Atlântica e praticamente abandonou a OTAN à própria sorte. Acrescente-se a isso a ideia de converter o Canadá em mais um Estado da Federação e anexar a Groenlândia. A contrapartida dessa decisão foi reconhecer a Rússia como potência interlocutora à altura, com o direito de definir sua própria área de influência.
Tem trabalhado com vistas a esvaziar ao máximo o multilateralismo que seus antecessores tanto fizeram para construir. Retirou os Estados Unidos de mais de 60 organismos internacionais, ignora as regras da Organização Mundial do Comércio e desdenha da ONU. Nesse sentido, organizou uma entidade paralela à ONU – Conselho da Paz – para estudar a reconstrução de Gaza. Além disso, deu a público uma Estratégia de Segurança Nacional, na qual se arroga no direito de submeter a América Latina como área de influência dos Estados Unidos e com direito de explorar as matérias-primas dessa região em proveito próprio. Realizou uma intervenção armada na Venezuela e sequestrou o presidente desse país, pondo em prática a tal estratégia. Acrescente-se a isso o plano de estrangulamento econômico de Cuba.
Sugestão da editora
A relação do Conselho da Paz de Trump e o Banco Mundial
Por fim, no plano econômico, tem buscado recolocar a economia norte-americana como central, mediante um nacionalismo tributário, ao mesmo tempo em que luta para impedir que o BRICS persista no trabalho de substituir o dólar como moeda internacional por outra ou outras moedas e que implementa um conjunto de ações para controlar ao máximo as reservas de petróleo do mundo.
Independentemente do que os mecanismos políticos institucionais norte-americanos poderão fazer para que ele leve avante seu insaciável apetite de poder, mais cedo ou um pouco mais tarde, essa desordem internacional por ele criada chegará a um limite. O sistema internacional de poder e a complexa interdependência econômica internacional não conseguirão suportar os desmandos de Trump. Haverá a necessidade de uma forte coligação que o dissuada de prosseguir nesse caminho que ele escolheu ou uma guerra generalizada acontecerá para interrompê-lo. A resistência do Irã, as advertências da Rússia e a disposição que os europeus têm sinalizado de se armarem e não se submeterem aos seus caprichos são sinais do cansaço que ele está causando por toda parte. ![]()
Conheça alguns dos textos mais recentes do autor publicados no OPEU
Informe “Trump e a decomposição da ordem internacional”, 21 jan. 2026
Informe “Crise nas relações Brasil-EUA”, 13 ago. 2025
Informe “O discurso belicista de Macron”, 6 mar. 2025
Informe “Trump – edição atualizada de Reagan”, 15 jan. 2025
Informe “O futuro governo Trump e as Relações Internacionais”, 8 nov. 2024
Informe “Os Estados Unidos e a Cúpula do BRICS, em Kazan”, 1º nov. 2024
Informe “Congresso: Partido Comunista Chinês se infiltra e influencia os norte-americanos”, 29 out. 2024
Informe “O Partido da Guerra”, 11 out. 2024
Informe “Relatório sobre Estratégia de Defesa Nacional 2024 adverte sobre grandes ameaças aos EUA”, 25 set. 2024
Informe “A tensa relação de Estados Unidos e China no Mar da China Meridional”, 13 jun. 2024
Informe “Rotas de colisão”, 18 de maio de 2024
Informe “Repensar a Estratégia dos Estados Unidos”, 2 ago. 2023
* Williams Gonçalves é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM-EGN). Doutor em Sociologia, também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU).
Entre outros livros, é autor de A China e a nova ordem internacional (Editora Ayran, 2023) e O realismo da fraternidade: as relações Brasil-Portugal no governo Kubitschek (Funag, 2024).
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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