‘Together, We Are America’: como Bad Bunny levou a América Latina ao centro do Super Bowl
Bad Bunny (Crédito: Divulgação)
Por Acza Rodrigues e Carolina Weber* [Informe OPEU] [Migração] [América Latina] [Trump 2.0]
“Un aplauso pa’ mami y papi, porque, en veda’, rompieron” (“Um aplauso para minha mãe e meu pai, porque, fala sério, arrasaram”), trecho que se tornou emblemático da música La Mudanza, que encerra o Álbum “Debí Tirar Más Fotos” (“Eu devia ter tirado mais fotos”), reconhece os sacrifícios feitos por seus pais ao conseguirem resistir, criar um filho e manter dignidade e identidade em um contexto de dominação. A frase sintetiza uma das principais batalhas simbólicas de Bad Bunny nos últimos anos: lembrar ao ouvinte que, por trás de grandes processos históricos, existem histórias pequenas, inseridas nos vínculos familiares e pessoais, que são íntimas, mas sustentam essas estruturas. Ademais, essa ideia se coloca em oposição direta ao ideal de individualismo que estrutura o American Way of Life (Estilo Americano de Viver) e o American Dream (Sonho Americano). Assim, Bad Bunny afirma que nenhuma conquista é isolada, mas fruto de redes de cuidado, afeto e resistência historicamente invisibilizadas.
Nas últimas décadas, a cultura pop deixou de ocupar um lugar estritamente associado ao entretenimento para se consolidar como um espaço central de disputa política. Artistas globais passaram a mobilizar linguagens, estéticas e narrativas capazes de tensionar discursos hegemônicos sobre nação, pertencimento e poder. Isso se dá, em especial, no contexto dos Estados Unidos, onde o entretenimento ocupa posição estratégica na construção do imaginário nacional. Nesse cenário, a trajetória recente de Bad Bunny se destaca não apenas pelo sucesso comercial, mas pela forma como articula música, memória e posicionamento político para questionar pilares do American Way of Life.
Ao afirmar o espanhol como língua legítima no centro da indústria cultural norte-americana e ao deslocar o foco do êxito individual para histórias coletivas, familiares e territoriais, Bad Bunny transforma sua obra em um projeto artístico que dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre imigração, colonialidade e identidade latino-americana. O álbum DeBí TiRaR MáS FOToS, seu reconhecimento no Grammy e sua histórica apresentação no Super Bowl não devem ser lidos como eventos isolados, mas como partes de uma mesma narrativa, na qual o artista ocupa espaços hegemônicos sem abrir mão de sua origem, de sua língua e de sua memória.
Afinal, quem é Bad Bunny?
Nascido Benito Antonio Martínez Ocasio, em 10 de março de 1994, em Vega Baja, Porto Rico, Bad Bunny surgiu como um dos principais nomes da música global a partir de uma trajetória que combina afirmação cultural porto-riquenha e inserção estratégica na indústria norte-americana. A condição política de sua terra natal é central para compreender essa dualidade. Porto Rico é classificado como território não incorporado dos Estados Unidos: pertence aos EUA, mas não integra plenamente a federação como um estado. Seus habitantes são cidadãos norte-americanos desde 1917, podendo circular e trabalhar livremente no território continental e servem às Forças Armadas, porém, não votam nas eleições presidenciais se residirem na ilha e não têm representação com direito a voto no Congresso. Essa ambiguidade jurídica estrutura parte das tensões identitárias porto-riquenhas e ajuda a explicar a relevância simbólica de um artista da ilha ocupar espaços centrais da cultura estadunidense.
Benito começou a cantar ainda jovem e adotou o nome artístico “Bad Bunny” após compartilhar nas redes sociais uma foto de infância em que aparecia fantasiado de coelho, com expressão séria. O contraste entre a fantasia infantil e o semblante carrancudo acabou se transformando em sua marca estética. Inicialmente usado em uma conta no Twitter (atual X), o nome permaneceu, à medida que sua música, publicada de forma independente no SoundCloud, passou a ganhar projeção. O sucesso de Soy Peor (2016) o inseriu no circuito do trap latino, abrindo caminho para colaborações internacionais e para o lançamento do álbum de estreia, X 100pre (2018), que combinava reggaeton, trap e experimentações pop.
A partir de então, sua carreira se consolidou não apenas por números expressivos, mas por uma capacidade de expandir os limites do mercado musical em espanhol. Álbuns como YHLQMDLG (2020), El Último Tour del Mundo (2020), primeiro disco integralmente em espanhol a alcançar o topo da Billboard 200, e Un Verano Sin Ti (2022) redefiniram o alcance da música latina no mainstream norte-americano. No campo do streaming, tornou-se o primeiro artista a liderar o ranking global do Spotify em quatro ocasiões (2020–2022 e 2025), acumulando dezenas de bilhões de reproduções. O álbum Debí Tirar Más Fotos foi reconhecido como o mais reproduzido de 2025 na plataforma, consolidando sua posição como fenômeno transnacional.
Paralelamente, Bad Bunny ampliou sua presença na indústria cultural dos Estados Unidos por meio do cinema e da televisão. Utilizando seu nome de batismo em produções audiovisuais, atuou em filmes como Bullet Train (Trem-Bala, no Brasil) (2022), ao lado de Brad Pitt; Cassandro (2023); e Happy Gilmore 2 (2025), com Adam Sandler, além de participar da série Narcos: México, da Netflix. Também marcou presença recorrente no programa de humor Saturday Night Live, primeiro como convidado musical e depois como apresentador, demonstrando versatilidade para além da música. Ao mesmo tempo, seus looks marcantes em tapetes vermelhos e premiações reforçam sua imagem como artista que desafia códigos tradicionais de masculinidade no universo urbano latino.
Com a conquista de seis prêmios Grammy, 17 Grammy Latino e 16 Billboard Music Awards, além de reconhecimentos do BMI e da ASCAP, sua trajetória combina legitimidade institucional e domínio do ambiente digital. No entanto, mais do que um conjunto de premiações, Bad Bunny representa um deslocamento simbólico: um artista porto-riquenho, cidadão norte-americano, que canta majoritariamente em espanhol e ocupa o centro do entretenimento dos EUA. Sua presença em eventos de alcance nacional, como o Super Bowl, deixa de ser apenas um dado cultural e passa a expressar uma transformação demográfica, linguística e identitária na própria ideia de “América” no século XXI.
Sobre o álbum DeBí TiRaR MáS FOToS
Debí Tirar Más Foto, seu álbum mais recente, propõe, da perspectiva de um imigrante, uma jornada de volta a Porto Rico. Lançado em 5 de janeiro de 2025, o trabalho é marcado pela presença de ritmos tradicionais porto-riquenhos, como a salsa e a bachata, articulados ao reggaeton contemporâneo e à música urbana. Em nenhum momento, o artista demonstra preocupação em adaptar esses sons a um público mais amplo, mesmo quando são profundamente enraizados em referências locais. Essa combinação de elementos evidencia a celebração da cultura musical porto-riquenha e a necessidade de preservação de identidade cultural.
Algumas faixas se destacam de maneira particular nesse processo. “Nueva YoL” é uma música que trata da experiência latina no centro imperial. Seu título remete à forma como comunidades latinas historicamente se referem a Nova York. A faixa traduz o deslocamento, o cotidiano do imigrante e a tensão entre Sonho Americano e exclusão, evidenciando a cidade-símbolo do American Dream como um espaço de ambiguidade, pertencimento parcial e resistência cultural. Já a música “Lo que le pasó a Hawaii” amplia a crítica do artista para além de Porto Rico. Ao evocar o caso do Havaí, mira os padrões históricos de dominação territorial exercidos pelos Estados Unidos. A música com versos marcantes, como “No, no suelte’ la bandera ni olvide’ el lelolai” (“Não, não solte a bandeira nem esqueça o lelolai”), “Quieren quitarme el río y también la playa” (“Querem tirar meu rio e também minha praia”) e “Aquí, nadie quiso irse, y quien se fue, sueña con volver. Si algún día me tocara, qué mucho me va a doler” (“Aqui, ninguém quis ir embora, e quem foi, sonha em voltar. Se algum dia eu tiver que ir, vai doer demais”), expõe não só a preocupação com a anexação dos territórios, mas também com apagamento cultural, cidadania incompleta e exploração econômica e cultural.
Como desdobramento do álbum, Bad Bunny lançou um curta-metragem de 13 minutos, protagonizado pelo ator porto-riquenho Jacob Morales. A produção aborda de forma crítica os impactos da gentrificação e do processo histórico de colonização em Porto Rico, evidenciando o avanço de influências externas sobre a cultura local e as tensões enfrentadas pela população na preservação de sua identidade e de seus modos de vida.
Assim, por meio de suas composições e da construção visual que acompanha o álbum, Bad Bunny elabora uma crítica direta às desigualdades políticas e sociais que atravessam a América Latina, denunciando o abandono de populações marginalizadas, a violência institucional e a atuação de elites políticas distantes da realidade cotidiana. Bad Bunny une música, estética e narrativa audiovisual, o que transforma a cultura pop em um espaço de denúncia e memória, conduzindo essas discussões para o centro do mainstream global. O álbum se consolida como celebração da cultura porto-riquenha e, também como um gesto político de preservação das identidades locais e de valorização da resiliência de seu povo diante de contextos históricos e sociais adversos.
Bad Bunny no Grammy
Com esse álbum, Bad Bunny ampliou ainda mais seu impacto no cenário musical internacional. Tornou-se o primeiro cantor em língua espanhola a receber, simultaneamente, indicações nas três principais categorias do Grammy: Melhor Álbum, Gravação do Ano e Canção do Ano. Trata-se de um feito histórico para um artista que canta majoritariamente em espanhol e que afirma suas raízes culturais fora do eixo tradicional da indústria musical estadunidense.
Na cerimônia de premiação, em 1º de fevereiro, “DeBí TiRaR MáS FOToS” conquistou o principal prêmio da noite: o de Álbum do Ano. Também venceu nas categorias de Melhor Álbum de Música Urbana, por “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, e Melhor Performance Musical Global, pela faixa “EoO”.
Ao subir ao palco pela primeira vez, quando recebeu o prêmio de Melhor Álbum de Música Urbana, Bad Bunny voltou a marcar a história da premiação, ao utilizar seu discurso como espaço de posicionamento político. Diante de uma audiência global, o artista protestou contra o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), iniciando sua fala com a declaração: “Before I say thanks to God, I’m gonna say: ICE out. We’re not savage, we’re not animals, we’re not aliens, we’re humans and we’re americans” (“Antes de eu agradecer a Deus, eu quero dizer: fora ICE. Nós não somos selvagens, não somos animais, não somos aliens. Somos humanos e somos americanos”).
Bad Bunny acrescenta ao discurso uma reflexão sobre a onda de ódio que tem atravessado os Estados Unidos, especialmente em relação aos imigrantes: “Also, I want to say to the people – I know it’s tough not to hate these days, and I was thinking sometimes we get contaminados … I don’t know how to say that in English. The hate gets more powerful with more hate. The only thing that is more powerful than hate is love” (“Também quero dizer ao povo – eu sei que é difícil não odiar nesses dias, e eu estava pensando que às vezes a gente fica contaminado… Eu não sei como dizer isso em inglês. O ódio fica mais poderoso com mais ódio. A única coisa que é mais poderosa que o ódio é o amor”). Em seguida, completa: “So please, we need to be different. If we fight, we have to do it with love. We don’t hate them. We love our people, and we love our family, and that’s the way to do it – with love. Don’t forget that, please. Thank you” (“Então, por favor, nós precisamos ser diferentes. Se lutarmos, temos que fazer isso com amor. Nós não os odiamos. Amamos nosso povo, e amamos nossa família, e essa é a forma de fazer isso – com amor. Não esqueçam disso, por favor. Obrigado”).
A Casa Branca reagiu à declaração. Publicou no Instagram uma imagem com os dizeres “Stand with ICE” (“Apoie a ICE”), incentivando seus seguidores a continuarem defendendo as ações de repressão e violência policial.
Com essa abordagem, o artista reivindica pertencimento e humanidade para populações sistematicamente marginalizadas pelas políticas migratórias norte-americanas. A escolha de uma linguagem simples e acessível, aliada a um apelo ao amor como resposta ao ódio, evidencia uma estratégia discursiva que permite inserir críticas estruturais no coração do mainstream cultural, ampliando seu alcance e impacto simbólico.
Ao final do evento, Bad Bunny recebeu o prêmio mais aguardado da noite, o de Álbum do Ano. O artista cobriu os olhos com uma das mãos e chorou antes de se levantar para aceitar o Grammy. Quando subiu ao palco, outro feito inédito marcou a premiação: seu discurso foi realizado majoritariamente em espanhol.
“Puerto Rico, crean en mí cuando les digo que somos mucho más grandes que 100 por 35 y no existe nada que no podamos lograr. Gracias a Dios, gracias a la Academia, gracias a todas las personas que han creído en mí durante toda mi carrera, a todas las personas que trabajaron en este álbum. Gracias, mami, por darme a luz en Puerto Rico. Los amo” (“Porto Rico, acredite em mim quando digo que somos muito maiores que 100 por 35 e não existe nada que não possamos alcançar. Obrigado a Deus, obrigado à Academia, obrigado a todas as pessoas que acreditaram em mim durante toda a minha carreira, a todas as pessoas que trabalharam neste álbum. Obrigado, mamãe, por me dar à luz em Porto Rico. Eu os amo”). Em meio ao discurso, o artista incluiu uma única frase em inglês: “I want to dedicate this award to all the people who had to leave their homeland, their country, to follow their dreams” (“Quero dedicar este prêmio a todas as pessoas que tiveram que deixar sua terra natal, seu país, para seguir seus sonhos”).
Na sequência, o artista retoma o espanhol, afirmando: “A todas las personas que han perdido a un ser querido y, aun así, han tenido que seguir adelante con gran fuerza, este premio es para ustedes. Gracias por tanto amor, los amo a todos. A todos los latinos en todo el mundo y a todos los artistas que vinieron antes y que merecían estar en este escenario recibiendo este premio, muchas gracias” (“A todas as pessoas que perderam um ente querido e, ainda assim, tiveram que seguir em frente com grande força, este prêmio é para vocês. Obrigado por tanto amor, eu amo todos vocês. A todos os latinos em todo o mundo e a todos os artistas que vieram antes e que mereciam estar neste palco recebendo este prêmio, muito obrigado”).
Bad Bunny não parece preocupado com ser plenamente compreendido pelo público norte-americano, ou por audiências não latinas. Ao contrário, o artista desloca a lógica histórica de assimilação cultural, afirmando o espanhol como idioma legítimo no centro da indústria cultural dos Estados Unidos. A escolha pontual do inglês, utilizada apenas para dedicar o prêmio a pessoas que deixaram seus países em busca de sonhos, revela uma estratégia discursiva precisa. Nesse caso, mais do que garantir visibilidade à mensagem, o inglês surge como ferramenta de interpelação direta ao centro político e cultural dos Estados Unidos, comunicando que, embora seja possível falar sua língua, ela não é a língua que define sua identidade. O gesto reforça a ideia de pertencimento sem renúncia identitária e evidencia como Bad Bunny ocupa espaços hegemônicos sem abrir mão de sua linguagem, memória e origem.
Super Bowl
No dia 8 de fevereiro de 2026, Bad Bunny fez história ao se tornar o primeiro artista latino solo a comandar os 13 minutos do intervalo do Super Bowl LX, realizado no Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia. Mais do que um espetáculo musical, sua performance se configurou como um evento cultural de forte densidade simbólica, inserindo a língua espanhola e a experiência latino-americana no centro do maior evento esportivo dos Estados Unidos.
O show foi concebido como uma narrativa histórica e identitária. A abertura apresentou cenários inspirados em plantações de cana-de-açúcar, evocando o passado colonial do Caribe e os ciclos de exploração econômica que marcaram Porto Rico desde o domínio espanhol até a presença de grandes companhias norte-americanas no século XX. Ao longo da performance, referências à cultura jíbara (agricultores tradicionais da ilha), vendedores ambulantes, piraguas e ambientações que remetiam às comunidades latino-americanas compuseram um mosaico visual de pertencimento popular. Em “El Apagón”, música que denuncia a crise energética porto-riquenha após o furacão Maria e critica processos de privatização e gentrificação, dançarinos subiram em postes de energia, simbolizando a precariedade estrutural da ilha e a resiliência cotidiana de sua população.
A dimensão política também se fez presente nos símbolos nacionais mobilizados. Em determinado momento, Bad Bunny exibiu a bandeira porto-riquenha com o triângulo azul-claro (versão historicamente associada ao movimento independentista e à resistência cultural). Ao final, citou nominalmente diversos países das Américas, reforçando uma identidade continental plural, e segurou uma bola de futebol americano com a inscrição “Together, we are America” (“Juntos, somos América”). A mensagem operava uma reinterpretação do termo “América”, frequentemente apropriado no discurso político estadunidense como sinônimo exclusivo de Estados Unidos.
A participação de Lady Gaga, que apresentou uma versão em salsa de “Die With a Smile”, e a presença de Ricky Martin, interpretando “Lo Que Le Pasó a Hawaii”, ampliaram o diálogo cultural do espetáculo. Uma cena que remetia a um casamento tradicional porto-riquenho, com uma criança adormecida ao fundo, introduziu uma camada afetiva de memória coletiva e continuidade geracional.
Essa construção simbólica contrastou diretamente com o posicionamento do presidente Donald Trump, que criticou publicamente a apresentação. Em suas redes sociais, Trump classificou o show como “terrível” e “um desrespeito à América”, argumentando que o uso exclusivo do espanhol afastaria o público e descaracterizaria o evento. Antes mesmo da partida, sinalizou que não compareceria ao jogo por discordar da escolha do artista, inserindo a performance no debate mais amplo sobre identidade nacional, imigração e valores culturais. Suas declarações ecoaram setores conservadores que questionaram a presença de uma narrativa latino-americana explícita no principal palco esportivo do país.
A tensão política extrapolou o campo discursivo. Bad Bunny manifestou temores com relação à presença de agentes da ICE no esquema de segurança do evento. Tal fato dialoga com seu histórico de críticas às políticas migratórias restritivas e às ações de fiscalização que impactam comunidades latinas e porto-riquenhas nos Estados Unidos. Além disso, o artista já havia sinalizado que não incluiria cidades norte-americanas na nova etapa de sua turnê, reforçando uma estratégia de valorização prioritária do público latino e caribenho, assim como esse receio para com a ICE.
A reação à apresentação revelou a clivagem cultural contemporânea nos Estados Unidos. Para críticos conservadores, o espetáculo simbolizaria uma diluição da identidade nacional tradicional; para seus defensores, representou o reconhecimento de uma transformação demográfica e cultural já consolidada. O fato de um artista porto-riquenho (cidadão norte-americano oriundo de um território não incorporado) ocupar o centro do evento televisivo de maior audiência do país explicitou as ambiguidades da própria ideia de pertencimento nacional.
O show de Bad Bunny no Super Bowl LX ultrapassou, portanto, os limites do entretenimento esportivo. Ao articular memória histórica, denúncia social, latinidade e uma disputa simbólica pelo significado de “América”, a performance inseriu o maior palco televisivo dos Estados Unidos no centro de um debate cultural mais amplo. A crítica de Donald Trump reforçou a polarização em torno do evento e evidenciou que o intervalo do Super Bowl pode funcionar como espaço de projeção das tensões contemporâneas sobre identidade nacional, imigração e poder cultural.
Se o álbum DeBÍ TiRaR MáS FOToS consolidou uma narrativa de memória, pertencimento e crítica social; se o Grammy representou o reconhecimento institucional máximo da indústria cultural norte-americana; e se a trajetória de Benito Martínez Ocasio revela a complexidade de ser um artista porto-riquenho no centro do mainstream global, o Super Bowl de 2026 sintetizou todos esses vetores em um único palco.
Ali, diante de milhões de espectadores, Bad Bunny não apenas cantou em espanhol: ele reconfigurou simbolicamente o que significa ocupar o espaço mais visível da cultura popular dos Estados Unidos. Ao trazer plantações coloniais, jíbaros, apagões, bandeiras alternativas e uma América plural ao centro do espetáculo, deslocou o imaginário nacional de uma narrativa homogênea para uma disputa aberta por significado. A reação do presidente Donald Trump, ao classificar a apresentação como um “desrespeito à América”, evidenciou que o debate não se restringe ao gosto musical, mas envolve concepções distintas de identidade nacional e pertencimento cultural.
Nesse sentido, o Super Bowl LX não foi apenas um evento esportivo com um intervalo de sucesso. Funcionou como espelho de uma transformação demográfica e simbólica em curso nos Estados Unidos. A controvérsia em torno da performance revelou que, no século XXI, as disputas políticas também se travam no campo cultural. Ao ocupar o centro do espetáculo mais assistido do país cantando em espanhol e evocando a história de um território ainda marcado por ambiguidades coloniais. Bad Bunny tornou visível uma América que já não pode ser tratada como periférica, mas cuja incorporação plena ao imaginário nacional segue sendo objeto de disputa. ![]()
* Acza Rodrigues é mestranda em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (PPGEST/UFF) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe de mídias sociais. Contato: silva.acza@gmail.com.
Carolina Weber é pós-graduanda em Jornalismo Digital e Comunicação pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe do Instagram e LinkedIn. Tem expertise em Comércio Exterior. Contato: carolinaweberds@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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