Republicação

Malcolm X, 61 anos depois: os assassinatos da década de 1960, o COINTELPRO e a confirmação de suas críticas 

(Arquivo) Martin Luther King e Malcolm X antes de coletiva de imprensa, em 26 mar. 1964 (Crédito: Marion S. Trikosko/Fonte: Wikimedia Commons/Library of Congress)
Por Inderjeet Parmar, para The Wire, com tradução de Filipe Mendonça* [Republicação] [The Wire] 

Ao completarmos 61 anos desde o assassinato de Malcolm, seu legado permanece como um diagnóstico urgente. O império persiste, com suas contradições aumentando em meio a desafios multipolares do Sul Global, colapso climático e desilusão doméstica. 

Sessenta e um anos após o assassinato de Malcolm X no Audubon Ballroom, no Harlem, em 21 de fevereiro de 1965, sua morte continua a lançar uma longa sombra esclarecedora sobre o poder americano. Aos 39 anos, enquanto discursava para a Organização da Unidade Afro-Americana, Malcolm foi morto a tiros em uma chuva de balas orquestrada em meio a tensões internas da Nação do Islã, mas possibilitada por um clima mais amplo de vigilância e provocação por parte do Estado. 

Sua morte não foi isolada nem acidental; ela foi o ponto central de um cataclismo de cinco anos (1963-1968) que eliminou os líderes liberais brancos mais progressistas dos Estados Unidos – John F. Kennedy e Robert F. Kennedy – e as vozes negras mais radicais – Malcolm X e Martin Luther King Jr.  

Essa sequência, prolongada pelo programa COINTELPRO do FBI, que sistematicamente desmantelou o Partido dos Panteras Negras e travou uma guerra paralela contra a Nova Esquerda branca, alterou profundamente as trajetórias políticas dos Estados Unidos.  

Desde então, a história confirmou as ideias mais poderosas de Malcolm X: os Estados Unidos são um império colonialista racializado, cujas hierarquias domésticas de raça e classe são inseparáveis de seu projeto global de dominação. As promessas liberais de inclusão servem como cobertura ideológica, enquanto o sistema emprega força bruta contra aqueles que se recusam a ser cooptados. 

O conceito de hegemonia de Gramsci fornece uma lente precisa, através da qual se pode compreender essa estratégia dupla. Para Gramsci, a hegemonia nunca é alcançada apenas por meio da coerção. É uma combinação dinâmica de consentimento e força. A classe dominante garante o consentimento moldando normas culturais, instituições e o “senso comum”, de modo que seu domínio pareça natural e inevitável, enquanto reserva a força – legal, extrajudicial ou letal – para aqueles que desafiam o consenso de forma muito direta. 

A elite americana executou precisamente essa estratégia na década de 1960 e além: a força foi desencadeada contra radicais intransigentes como Malcolm X, Martin Luther King em sua fase radical final e os Panteras Negras, enquanto o consentimento foi fabricado através da cooptação de vozes mais moderadas e da integração de figuras negras e progressistas selecionadas ao sistema, sem desmantelar seus fundamentos. 

JFK representou o auge do internacionalismo liberal do pós-guerra dentro da elite branca. Seu discurso na American University em 1963 clamava pela paz e compreensão mútua com a União Soviética. Ele resistiu à escalada total no Vietnã e assinou o Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares. RFK, inicialmente um guerreiro da Guerra Fria, transformou-se em defensor dos pobres e opositor da guerra, visitando comunidades devastadas e forjando alianças com ativistas dos direitos civis. Ambos os homens incorporavam um impulso reformista que buscava humanizar o império sem questionar fundamentalmente sua lógica racial e imperial. 

No flanco radical, Malcolm X – especialmente após sua peregrinação a Meca em 1964 e sua ruptura com a Nação do Islã – ofereceu uma crítica internacionalista intransigente. Ele reestruturou a opressão negra na América como parte de um padrão colonial global, pedindo solidariedade com as lutas anti-imperialistas na África, Ásia e América Latina. Martin Luther King Jr., radicalizado pela Guerra do Vietnã, proferiu seu discurso contundente “Beyond Vietnam” (Além do Vietnã) na Igreja Riverside em 1967, declarando os EUA “o maior fornecedor de violência do mundo” e vinculando os programas de combate à pobreza doméstica aos gastos imperiais. A campanha Poor People’s Campaign (Campanha dos Pobres) planejada por King tinha como objetivo unir raças e classes contra a injustiça econômica, convergindo para o tipo de frente multirracial e anti-imperialista que Malcolm havia começado a imaginar. 

Os assassinatos eliminaram essas ameaças em rápida sucessão. O assassinato de JFK em Dallas (22 de novembro de 1963) abriu caminho para a escalada maciça de Lyndon Johnson no Vietnã e para o afogamento sangrento do influente partido comunista da Indonésia. O assassinato de Malcolm (21 de fevereiro de 1965) silenciou uma voz que estava internacionalizando o nacionalismo negro, no momento em que o espírito de Bandung e do Movimento dos Países Não Alinhados estava se fortalecendo em direção às demandas radicais do Terceiro Mundo por uma Nova Ordem Econômica Internacional. O assassinato de King em Memphis (4 de abril de 1968), enquanto apoiava os trabalhadores da limpeza em greve, provocou rebeliões em todo o país, mas também fragmentou o movimento mais amplo. O assassinato de RFK em Los Angeles (5 de junho de 1968), momentos após vencer as primárias da Califórnia com uma plataforma de paz e justiça, extinguiu a possibilidade de uma candidatura democrata radicalizada em 1968. 

O sistema não se limitou a assassinatos de alto perfil. O COINTELPRO (1956-1971), programa secreto de contra-espionagem do FBI, institucionalizou a combinação de força e gestão do consentimento. A partir de 1967, quando J. Edgar Hoover expandiu as operações contra “grupos nacionalistas negros de ódio”, o Partido dos Panteras Negras tornou-se o alvo principal. Fundado em 1966, os Panteras Negras deram continuidade ao legado de Malcolm: autodefesa comunitária armada, programas de sobrevivência (cafés da manhã gratuitos, clínicas de saúde, escolas) e anti-imperialismo explícito. Eles formaram coalizões, inclusive com radicais brancos. Hoover os declarou “a maior ameaça à segurança interna do país”, temendo um “Messias Negro” capaz de unificar a dissidência. Das 295 ações documentadas contra organizações nacionalistas negras, 233 se concentraram nos Panteras — variando de infiltração e desinformação a prisões falsas, batidas policiais e assassinatos. 

O assassinato de Fred Hampton em Chicago, em 4 de dezembro de 1969, é considerado a execução mais infame do programa. Um informante do FBI dentro dos Panteras forneceu uma planta baixa e drogou Hampton. A polícia de Chicago invadiu seu apartamento, atirando no vice-presidente de 21 anos e em Mark Clark, enquanto dormiam. A Coalizão Arco-Íris de Hampton — que unia as comunidades negra, porto-riquenha, branca dos Apalaches e mexicano-americana — refletia o universalismo pós-Meca de Malcolm e a organização inter-racial contra a pobreza de King. Ao eliminar tais figuras, o Estado rompeu pontes potenciais entre o radicalismo negro e a dissidência mais ampla. 

O COINTELPRO simultaneamente teve como alvo a Nova Esquerda branca – Estudantes por uma Sociedade Democrática, Weather Underground e grupos antigerra – por meio de vigilância ilegal, agentes provocadores, abertura de correspondência e faccionalismo planejado. O objetivo era claro: romper a solidariedade entre radicais negros e brancos, empurrar segmentos da esquerda para uma violência autodestrutiva que desacreditava o movimento e conter as energias anti-imperialistas dentro de limites controláveis. Os programas comunitários dos Panteras Negras foram difamados como fachadas para a criminalidade; a esquerda branca se fragmentou, muitos ativistas foram levados à clandestinidade ou ao retiro político. 

Essa estratégia dupla – força letal contra os intransigentes, cooptação e contenção dos demais – garantiu a hegemonia. Organizações moderadas de direitos civis receberam financiamento de fundações; líderes integracionistas foram celebrados; caminhos eleitorais (simbolizados mais tarde pelas campanhas da Rainbow Coalition de Jesse Jackson em 1984 e 1988) foram abertos dentro do Partido Democrata. No entanto, o racismo estrutural, o encarceramento em massa e as guerras imperiais persistiram. Os assassinatos e o COINTELPRO abriram caminho para a reação de Nixon em favor da lei e da ordem, o estado carcerário e a virada neoliberal que aprofundou a desigualdade sob o pretexto de uma meritocracia que não faz distinção de cor. 

O diagnóstico de Malcolm X foi profético precisamente porque nomeou essa dinâmica. Ele rejeitou a mitologia do excepcionalismo americano, insistindo em que os EUA eram um império construído sobre a violência racial em casa e no exterior. As elites liberais ofereceram concessões parciais para fabricar consentimento; quando os radicais exigiram ruptura, a força se seguiu. Sua controversa observação após o assassinato de JFK – “os frangos voltando para o galinheiro” – capturou a inevitabilidade do efeito rebote das políticas imperiais e da repressão interna. O manual do COINTELPRO confirmou sua visão: o sistema neutraliza ameaças “por todos os meios necessários”. 

Sessenta e um anos depois, em 2026, as fraturas continuam visíveis. Assassinatos policiais persistentes, aumento das desigualdades de renda, fronteiras militarizadas e intervenções internacionais intermináveis atestam os limites das reformas pós-1960. A presidência de Barack Obama representou uma inclusão simbólica, mas presidiu deportações recordes e guerras com drones; os protestos do Black Lives Matter em 2020 internacionalizaram a luta de maneiras que Malcolm antecipou. No entanto, as redes de elite — fundações filantrópicas, iniciativas corporativas de DEI, maquinaria democrata centrista — continuam o trabalho de cooptação, canalizando a energia radical para canais não ameaçadores, enquanto marginalizam as críticas estruturais. 

A visão gramsciana é crucial: a hegemonia nunca é estática. O consentimento deve ser constantemente renovado, a força mantida em reserva. O Império Americano se destacou em ambos – integrando vozes suficientes para sustentar a legitimidade, enquanto esmagava aqueles que expunham o núcleo racial e imperial. Malcolm, King, os Panteras Negras e até mesmo os progressistas Kennedys ameaçavam esse equilíbrio. Sua eliminação, seguida pela longa sombra do COINTELPRO, consolidou uma ordem mais militarizada e desigual. 

Ao completarmos 61 anos desde o assassinato de Malcolm, seu legado perdura como um diagnóstico urgente. O império persiste, com suas contradições aumentando em meio a desafios multipolares do Sul Global, colapso climático e desilusão doméstica. O verdadeiro acerto de contas exige confrontar a história da força e da cooptação que silenciaram as vozes mais transformadoras da época. Malcolm X nomeou abertamente as verdades que o sistema temia o suficiente para matar. Sessenta e um anos depois, na era Trump, essas verdades permanecem tão nítidas – e tão necessárias – como sempre.

 

* Inderjeet Parmar é professor de política internacional e reitor associado de pesquisa na Escola de Política e Assuntos Globais da City St. George’s, Universidade de Londres. Ele é membro da Academia de Ciências Sociais e escreve a coluna American Imperium para o The Wire. Seu nome no Twitter é @USEmpire. Ele é autor de vários livros, incluindo Foundations of the American Century (Fundamentos do Século Americano), e atualmente está escrevendo sobre a história do establishment da política externa dos EUA e Trump and the Crisis of American Empire (Trump e a Crise do Império Americano). 

** Tradução: Filipe Mendonça. Publicado originalmente no site The Wire, em 22 fev. 2026. Republicado no OPEU com a autorização do autor. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.  

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