Por que os EUA capturaram Maduro, mas não derrubaram Khamenei
(Arquivo) Encontro de Maduro e Khamenei no Irã, em 22 out. 2016 (Fonte: khamenei.ir)
Como a estratégia imperial dos EUA produz resultados distintos na América Latina e no Oriente Médio
Dossiê “Trump 2.0 e o golpe na Venezuela“
Por Bruno Huberman* [Informe OPEU] [Venezuela] [Imperialismo] [Oriente Médio] [Trump 2.0]
A abdução do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos EUA foi uma agressão imperialista sem precedentes na América do Sul. Apesar do histórico imperialista próprio da América Latina, que explica muito do que aconteceu na Venezuela, a ação contra Maduro também remete à “Guerra Global ao Terror” (GWOT, na sigla em inglês) no Oriente Médio e, especialmente, ao cerco ao Irã.
Diferentemente da “Guerra às Drogas”, que foi uma estratégia imperialista para o controle da América Latina fundamentada — principalmente — na militarização da região por meio das elites nacionais, a GWOT no Oriente Médio envolve ação militar direta dos EUA para a derrubada de governantes e, em alguns casos, a gestão direta do país para sua reconstrução, com a intenção de extrair os seus recursos naturais. O que vemos ocorrer na Venezuela é Donald Trump aplicar o manual da “Guerra ao Terror” sob o signo das drogas — ou do “narcoterrorismo”.
A estratégia da “Guerra ao Terror”
Desde o início da “Guerra ao Terror”, após o 11 de Setembro, os EUA depuseram, por meio de ação militar direta — ou patrocinando forças paramilitares locais —, o Talibã, no Afeganistão, em 2001; Saddam Hussein, no Iraque, em 2003; Muamar Kadafi, na Líbia, em 2011; e Bashar al-Assad, na Síria, em 2024, além de auxiliarem direta ou indiretamente diversos movimentos contrarrevolucionários na região, como no Egito, em 2013, que derrubou o governo eleito de Mohammed Morsi, e a ocupação de Israel dos territórios palestinos.
Caminhos do imperialismo dos Estados Unidos no Oriente Médio e na América Latina
Saiba mais sobre o tema neste Informe de autoria de Bruno Huberman e Rodrigo Amaral
Hussein, Kadafi e Assad eram expressões degeneradas do antigo socialismo árabe, que foi a principal força anti-imperialista no Oriente Médio durante a Guerra Fria. Embora tenham aderido ao neoliberalismo e se alinhado ao Ocidente, acabaram derrubados sob a justificativa do combate ao “terror”, quando surgiu a oportunidade. Os estadunidenses almejavam eliminar qualquer força antagonista ao seu poder na região para impor no Oriente Médio uma hegemonia semelhante à imposta na América Latina por meio da Doutrina Monroe. Assim, buscavam assegurar estabilidade política e acesso facilitado aos recursos naturais da região, em especial o petróleo — Iraque, Líbia e Síria estão entre os maiores produtores de combustíveis fósseis do mundo.
O Irã permaneceu, ao lado da Venezuela, na América do Sul, e da Coreia do Norte, no Leste Asiático, como um dos principais remanescentes do “eixo do mal” criado por George W. Bush no início da “Guerra ao terror”. Os três países, assim como a Rússia, estão sob fortes sanções dos EUA. A Coreia do Norte, assim como a Rússia, possui um instrumento fundamental de dissuasão: a bomba atômica. Desde que o país asiático demonstrou sua capacidade nuclear, deixou de ser ameaçado de forma direta pelos EUA, diferente da Venezuela e do Irã, que permaneceram sob crescente cerco.
Por que o Irã resistiu, e a Venezuela balança
Ambos os países são dependentes da exportação de petróleo, utilizam suas parcerias com China e Rússia para se armar com baterias antiaéreas e mísseis capazes de resistir a uma agressão imperialista e viram suas economias entrarem em crise em razão das sanções. Na mesma semana da abdução de Maduro, protestos nacionais contra a inflação e o custo de vida emergiram no Irã e provocaram a morte de ao menos 20 pessoas. Enquanto Trump declarou que Colômbia, Cuba e Nicarágua deveriam “tomar cuidado” na América Latina, anunciou estar disposto a “socorrer” os manifestantes iranianos.
Essas ameaças constantes de emprego da força bruta — mesmo que em ações pontuais, não em “guerras infinitas” —, demonstram a intenção do presidente dos EUA de impedir o declínio do império estadunidense pelo uso recorrente da violência: uma das poucas vantagens que os EUA ainda têm em relação à China.
Diferentemente do ataque à Venezuela, que foi capaz de sequestrar o chefe de Estado após meses de cerco marítimo, a agressão ao Irã não derrubou o aiatolá Ali Khamenei. Nem mesmo uma guerra de 12 dias capitaneada por Israel e um amplo bombardeio a usinas nucleares realizado por caças estadunidenses abalou as estruturas do regime iraniano. Israelenses e estadunidenses esperavam que a agressão desencadeasse uma guerra civil que nunca veio. Pelo contrário: por um breve período, o governo iraniano ampliou a unidade entre franjas liberais, burguesas e pró-Ocidente da sociedade.
Aprofunde
Bagheri, R. (2025). Zionist Defeat in Iran: The Triumph of National Identity over Aggression. Middle East Critique, 34(4), p. 823–828
Taheri, Z., & Karimi Riabi, E. (2025). Iranian Community, Horizontal Comradeship, and the 12-Day War. Middle East Critique, 34(4), p. 829–835
Bahrami, Z. (2025). National Integration and Identity: The Impact of the 12-Day War on the Iranian People. Middle East Critique, 34(4), p. 837–843
A derrubada de Khamenei era vista como uma linha vermelha maior do que a de Maduro. Embora o principal representante dos interesses imperialistas no Oriente Médio, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tenha declarado a intenção de matar Khamenei no início da guerra contra o Irã, Trump afirmou que vetaria o assassinato do chefe de Estado iraniano. A decapitação do aiatolá poderia gerar desdobramentos regionais e reações das potências rivais em uma escala que a abdução de Maduro não traria.
Assim como os líderes árabes, Maduro já era uma degeneração do socialismo chavista que buscava se conciliar com os EUA para se manter no poder. Mesmo que o regime venezuelano ainda se mantenha de pé sob a liderança de Delcy Rodríguez, o país demonstrou grande fragilidade diante da ação dos EUA, enquanto o Irã conseguiu restabelecer a dissuasão com o Ocidente após a guerra contra Israel. Essa diferença decorre, em primeiro lugar, das capacidades materiais resultantes dos históricos de cada país. Enquanto a Venezuela é uma antiga colônia espanhola que nunca superou sua condição de dependência sob a esfera dos EUA, o Irã é herdeiro do Império Persa, que nunca foi formalmente colonizado, embora continue sendo um país subdesenvolvido.
A solidez da Inteligência iraniana e a traição dentro do governo venezuelano que permitiu à CIA saber o paradeiro de Maduro são razões importantes que distinguem um caso do outro. Além disso, as diferenças nas ordens regionais da América Latina e do Oriente Médio permitiram que Venezuela e Irã desenvolvessem estratégias distintas de resistência ao imperialismo.
Hegemonia e resistência no Oriente Médio e na América Latina
A ausência de hegemonia dos EUA no Oriente Médio é causa e produto das disputas políticas violentas em diferentes países, como a luta palestina por libertação nacional, as insurreições da Primavera Árabe e as diversas guerras civis. O resultado foi a formação de uma rede transnacional composta por atores estatais e não estatais envolvidos em suas lutas nacionais por soberania. Apesar das divergências ideológicas, esses atores têm em comum a oposição aos EUA e a Israel, conformando o chamado “Eixo da Resistência”, composto por Irã, Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Forças de Mobilização Iraquianas, Ansar Allah (Iêmen) e a Síria — até a deposição de Assad.
Em que pesem os conflitos internos, essa rede foi fundamental para fortalecer as lutas de cada um desses atores nas duas últimas décadas, em especial durante a Guerra Civil Síria e no ataque palestino de 7 de outubro de 2023. Além disso, permitiu ao Irã romper parcialmente o isolamento político imposto pelas sanções e pelos movimentos contrarrevolucionários posteriores à Primavera Árabe, capitaneados pelos EUA e pela Arábia Saudita.
Em meio ao conflito sírio, Irã e Rússia expandiram a cooperação para o desenvolvimento de drones e mísseis. Ademais, a posição geográfica do Irã na Ásia Central e seus abundantes recursos energéticos funcionam como ativos estratégicos para a expansão da China no continente euroasiático por meio da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês). Esses fatores ajudam a explicar a solidez das capacidades materiais iranianas, a despeito de décadas de cerco imperialista via sanções, guerras e sabotagens.
Os desafios do anti-imperialismo desde o Sul Global diante de Gaza
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Já a Venezuela nunca conseguiu forjar uma aliança política com atores latino-americanos que lhe permitisse estabelecer uma dissuasão semelhante contra os EUA. A ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) nunca teve caráter militar, mas político e ideológico (embora 32 soldados cubanos tenham sido mortos no sequestro de Maduro, revelando a cooperação militar entre os países). A Unasul (União de Nações Sul-Americanas) foi um projeto de integração regional capitaneado por Chávez e Lula que envolveu a criação de um Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), o qual poderia servir como instrumento de enfrentamento a uma agressão estadunidense.
A Unasul foi, no entanto, desmontada com a onda de direita capitaneada por Jair Bolsonaro e Javier Milei, da Argentina. Lula, em seu terceiro mandato, não conseguiu reviver o projeto de integração sul-americana ao lado de Gustavo Petro, da Colômbia, e Gabriel Boric, do Chile. O resultado foi a fragmentação dos espaços de cooperação regionais em benefício de organismos alinhados aos poderes imperialistas, como a OEA (Organização dos Estados Americanos).
Centrada na formação de milícias populares, no firme controle das Forças Armadas e na modernização militar por meio da cooperação com Rússia e China, a estratégia venezuelana de resistência foi incapaz de impedir o sequestro de Maduro. Embora Rússia e China tenham criticado o ataque estadunidense, a Venezuela não tem relevância estratégica suficiente para que esses países atuem fora de suas “esferas de influência” e intervenham no “quintal” dos EUA.
O Brasil de Lula, por sua vez, contribuiu para aumentar a vulnerabilidade venezuelana, ao adotar uma postura tímida diante das agressões imperialistas. Como resultado, todas as nações progressistas do continente, como Colômbia e Cuba, tornam-se extremamente vulneráveis, enquanto lideranças de direita, como Milei e José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, comemoram a prisão do venezuelano em uma nova onda de direita no continente.
O retorno das esferas de influência
Esse exercício comparativo entre Oriente Médio e América Latina, entre Irã e Venezuela, permite compreender como as nações sul-americanas, ao confiarem excessivamente no institucionalismo (neo)liberal após a Guerra Fria — em razão de uma falsa percepção de paz regional produzida pela hegemonia dos EUA —, vêm-se mostrando particularmente frágeis diante do avanço imperialista. A política externa brasileira ainda parece repousar excessiva importância a instituições multilaterais em um momento em que estas são cada vez mais descartadas pelas grandes potências.
Em contraste, as nações do Oriente Médio, obrigadas a viver sob um realismo atávico, devido à permanência de conflitos armados desde o fim da Guerra Fria, encontram-se mais bem preparadas para enfrentar um mundo que volta a se organizar a partir das “esferas de influência” e da força bruta. Países como Turquia, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Irã parecem mais bem posicionados politicamente para se beneficiar das disputas entre as grandes potências do que Brasil, Argentina e México, muito mais suscetíveis ao poder estadunidense. Contribui para isso o fato de o Oriente Médio não ser “quintal” de nenhuma superpotência, enquanto os EUA consideram a América Latina a sua “esfera de influência”.
* Bruno Huberman é professor de Relações Internacionais da PUC-SP. Pesquisador do INCT/INEU e do Grupos de Estudos de Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP. Autor de Colonização Neoliberal de Jerusalém (EDUC). Contato: bruno.huberman@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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