A nova ordem política e a rivalidade hegemônica global em debate no Encontro Anual INEU 2025
Crédito: Tatiana Carlotti
Por Tatiana Carlotti [Informe OPEU] [Divulgação]
O Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) realizou, entre os dias 3 e 5 de dezembro, mais um de seus encontros de final de ano, desta vez marcado pelo retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025.
A terceira mesa de debates, realizada no dia 4, debateu as relações Brasil e Estados Unidos no contexto da reconfiguração da ordem política e da rivalidade hegemônica global.
Com mediação da professora Flávia Campos Mello (PUC-SP), o debate contou com a participação dos professores Williams Gonçalves (UERJ e UNR), Haroldo Ramanzini Júnior (UnB/IREL), Dawisson Belém Lopes (UFMG) e Pedro Henrique Vasques (Unicamp e Cedec).
O evento teve transmissão ao vivo, e todas as discussões podem ser conferidas no canal do INEU na plataforma YouTube. Acompanhe os principais temas debatidos.
Pressão sobre o Brasil irá aumentar

Abrindo os trabalhos da mesa, o historiador e professor Williams Gonçalves (UERJ) analisou os objetivos estratégicos da atual política externa norte-americana, salientando uma “mudança de grande envergadura” na inserção internacional do país.
Em sua avaliação, Trump “abdicou de perseguir a posição hegemônica, como nunca aconteceu desde a Segunda Guerra Mundial” na ordem internacional. Isso significa que, tacitamente, ele “admitiu que o sistema internacional de poder assumiu uma estrutura multipolar” e aceitou a ideia “de que os Estados Unidos não conseguem impor seus interesses sobre todo o campo aliado”.
Diante disso, o comportamento estratégico de perseguir a hegemonia dos governos norte-americanos não faz mais sentido, sobretudo frente ao custo dessa política. No entanto, salientou o pesquisador, isso não significa “aceitar uma posição secundária em relação aos demais polos do poder, especialmente em relação à China”.
Trump, destaca Gonçalves, trabalha com a ideia de que todo poder reside na economia, a partir de uma perspectiva empresarial da política internacional, que concebe o poder militar como decorrência dessa capacidade econômica. “Por isso ele respeita a China como concorrente e desdenha dos aliados europeus”, avalia.
Essa é a lógica que vem comandando as relações dos Estados Unidos com a América Latina: a de combater os interesses econômicos chineses na região e recuperá-la como área de influência. Em outras palavras, “as riquezas da região devem estar disponíveis para o bom desempenho da economia norte-americana”.
Gonçalves mencionou que Trump não tem se preocupado em justificar suas ações externas com grandes elaborações teóricas; ao mesmo tempo, não há dúvidas em relação à política industrial do país de competir em condições de igualdade com a China. “Sua abordagem dos interesses nacionais é nitidamente econômica, podendo ser entendida como nacionalista e desenvolvimentista”, avalia.
Essa estratégia tem como efeito “a multipolarização do sistema internacional de poder” e vem exigindo de “todos os atores do sistema internacional uma redefinição dos seus objetivos e de suas alianças”. Ele mencionou a ausência, no discurso norte-americano, da proteção do multilateralismo, das democracias e da paz mundial. Isso tudo foi substituído “pelo interesse nacional indiferente à sorte da democracia dos demais países do sistema e pela ênfase no bilateralismo”.
Segundo Gonçalves, a grande dificuldade de entendimento dessa política pelos demais países reside “em como reacomodar os diferentes interesses nacionais em uma nova definição que se ajuste às necessidades impostas pela nova realidade do sistema internacional”.
Essas mudanças, salienta o professor da UERJ, afetam diretamente o Brasil, já que o projeto norte-americano busca restabelecer uma zona de influência de Washington nas Américas “desde a Groenlândia até a Patagônia”. Nesse quesito, não há a menor condição de que “o maior e mais rico país da América Latina fique fora da área de influência e seja um aliado preferencial da China na região. Isso não faz o menor sentido. Naturalmente, a pressão sobre o Brasil irá aumentar”, avalia.
Gonçalves também destacou que o Brasil é parte importante do BRICS e que a diplomacia brasileira sempre buscou extrair o maior benefício do bloco, sem assumir seu principal objetivo estratégico, que “é a mudança da ordem internacional”, apresentando o BRICS como “um projeto econômico e não estratégico”. O objetivo norte-americano, no entanto, é “esvaziar o multilateralismo do bloco e apostar no bilateralismo”.
Confira a apresentação de Williams Gonçalves (UERJ)
Defesa do multilateralismo

Na sequência, o professor Haroldo Ramanzini Júnior (UnB) analisou como o governo Trump vem promovendo a corrosão e o enfraquecimento do multilateralismo e da institucionalidade internacional. Em sua avaliação, esse processo vem sendo intensificado através da intensificação do unilateralismo e do bilateralismo nas relações comerciais.
Ramanzini enumerou uma série de ações dos Estados Unidos visando o enfraquecimento de instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e instâncias da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicadas à resolução de conflitos. “Para um país como o Brasil, que sempre buscou fortalecer e atuar dentro da institucionalidade internacional, este é um cenário que traz novos desafios”, avaliou.
Entre esses desafios, ele mencionou a tentativa de alguns países — principalmente dos Estados Unidos, mas não apenas — de estabelecer uma governança por meio de áreas de influência. Essa estratégia, aponta Ramanzini, “busca ressuscitar algumas ideias do período da Guerra Fria”, o que não é do interesse do Brasil, nem de países emergentes ou de potências do Sul Global.
Ele salientou que este é um processo em andamento e que cabe aos países se articularem em busca de “um multilateralismo razoavelmente inclusivo e funcional”. Neste sentido, o professor observa o fortalecimento do que denomina “instâncias informais de governança”, como o G20 e o próprio BRICS, destacando como aspecto central o fato de o bloco se constituir como “um instrumento informal, um agrupamento que conta com uma instância formal, o Banco do BRICS (Novo Banco de Desenvolvimento, NDB, em inglês)”.
Em sua avaliação, o BRICS precisa “insistir na relevância dessa ideia de governança global fragilizada pelas políticas do governo Trump, nessa dimensão formal ou informal, e até nas adaptações que os países precisam fazer nas suas políticas externas e nas suas estratégias”.
O pesquisador citou, também, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, em inglês), duas iniciativas do governo brasileiro que dialogam com essa dimensão de informalidade e formalidade. “Se você fosse construir esses dois instrumentos no multilateralismo tradicional, teria sido muito mais difícil, senão inviável”, apontou.
Ele também salientou que, em relação à política externa brasileira, o governo Lula encontrou “um cenário de terra arrasada, inclusive do ponto de vista dos instrumentos de política externa”. Mesmo assim, o país tem conseguido resultados importantes ao insistir no caminho da diversificação e das parcerias, investindo no BRICS e mantendo esforços em torno de algum tipo de governança regional.
“Isso é de interesse para a maior parte dos países, independentemente dos governos ou das afinidades políticas, porque permite que a região se posicione com mais autonomia”, destacou.
Confira a apresentação de Haroldo Ramanzini (UnB)
Cronologia da ruptura da ordem institucional

Em sua apresentação, o professor Dawisson Belém Lopes (UFMG) trouxe uma cronologia dos principais episódios que marcam a ruptura com a ordem internacional, impulsionando o processo de sua reconfiguração. Ele apontou o 11 de setembro de 2001 como o primeiro marco desse processo.
Em sua avaliação, “o ataque terrorista aos Estados Unidos, mais do que mostrar a vulnerabilidade da ‘superpotência solitária’, revelou outras visões ao discurso triunfalista norte-americano de que não havia alternativas ao liberalismo e à democracia procedimental”.
O segundo marco foi a crise econômica de 2008, com a retomada da “percepção de que o Estado importava” e da “concepção de que havia um lugar para a promoção de políticas públicas pelo ente estatal”. Naquele momento, salienta Lopes, “desmoronou a ideia de que estaríamos bem servidos se deixados à mercê dos mercados”.
Ao mesmo tempo, a China passou a se afirmar como uma potência emergente, após sofrer muito pouco – “uma marolinha” – os efeitos da crise financeira global. Foi um momento em que se tornou possível “equacionar outras visões sobre o Estado, a economia e a sociedade. Essas outras maneiras de ver o mundo passaram a ser bem-vindas”, destacou.
O terceiro ponto que atesta a reconfiguração da ordem internacional, avaliou o pesquisador, foi a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014. Ali, salientou Lopes, “a modalidade da guerra de conquista foi reabilitada no sistema internacional, quando não normalizada”. Até aquele momento, havia uma crença em um certo destino virtuoso, no qual a paz prevaleceria e a Organização das Nações Unidas (ONU) teria uma função central na governança global, orientada pelo direito internacional.
O quarto marco foi o ano de 2016 e por diferentes aspectos. Foi o ano do Brexit [no Reino Unido] e da primeira eleição de Trump, quando “uma nova forma de fazer política passou a ser tendência” e o populismo de ultradireita passou a ocupar o centro do poder internacional.
O quinto marco desse processo amplo de rupturas foram os anos 2019/2020, frente à pandemia da Covid-19 que ressignificou as relações internacionais. “Temas de saúde global, até então relegados a um segundo escalão, vão para o primeiro.” Ao mesmo tempo, os temas ambientais emergem e passam a ser associados à continuidade ou não da vida no planeta.
Lopes, também citou como sexto marco o ano de 2022, “um prolongamento do episódio de 2014, entre Rússia e Ucrânia”, mas agora por meio de uma guerra [Guerra na Ucrânia] marcada pela ruptura entre a Rússia e os países europeus. “Uma relação que sempre foi tensa, mas ali os destinos dos dois blocos passaram, de fato, a seguir direções opostas.”
Como último marco desse processo, Lopes destacou a Guerra em Gaza. “O ato terrorista do Hamas, ao qual se seguiu uma reação desproporcional e descolada do quadro jurídico internacional por parte de Israel, sob o amparo dos Estados Unidos, tanto de Biden quanto de Trump”.
Segundo Lopes, a guerra promoveu “um divórcio entre os Estados Unidos, o grande patrocinador do complexo institucional criado após a Segunda Guerra Mundial, com todo o constructo institucional relativo às cortes internacionais, à ONU e a certo ideário liberal institucionalista”.
‘New kids on the block’
O resultado de todas essas transformações, analisou o professor, foi a emergência de “um mundo onde há clivagens muito visíveis entre o projeto dos Estados Unidos, com a Europa a reboque, e uma série de países que vêm adquirindo musculatura ao longo dos últimos anos”.
Prova disso, ressaltou, “é que no fim da Segunda Guerra Mundial o Atlântico Norte correspondia a dois terços do PIB global. Hoje, mal deve passar de 50%, e algumas estimativas falam em menos ainda, talvez 40%, se nos basearmos na paridade de poder de compra”.
Em síntese, apontou citando o embaixador Celso Amorim, “os ‘new kids on the block’ chegaram: falamos de Índia, China, talvez possamos citar até a Rússia como potência reemergente, mas também o Brasil e outros atores que conseguem, quando coesionados, causar impactos no sistema internacional”.
“Isso, para mim, é uma novidade. O tal do Sul Global nos permite dizer que outros países hoje têm agência, conseguem influir, diferentemente do que acontecia com os países não alinhados ou mesmo o G77. Parece-me que o BRICS e outros constructos institucionais do tempo presente passaram a ter capacidade agencial”, afirmou.
Confira a apresentação de Haroldo Ramanzini (UnB)
Embates ambientais na reconfiguração global

Fechando os trabalhos da terceira mesa de debates do dia, o pesquisador Pedro Henrique Vasques, pós-doutorando do Departamento de Ciência Política da Unicamp, abordou os embates climáticos nesta nova reconfiguração da ordem internacional, observando o papel dos Estados Unidos e do Brasil neste processo.
Ele destacou que Trump vem promovendo inúmeros retrocessos na política climática e ambiental nos Estados Unidos, revertendo avanços implementados no governo Biden. “Temos uma série de ações judiciais propostas, bloqueios legislativos, articulações subnacionais atuando dentro e fora do país, uma série de campanhas junto aos mercados”.
O que se vê, aponta o pesquisador, é o aprofundamento do movimento antiambientalista e contrário às mudanças climáticas, já radical no primeiro mandato do republicano. No entanto, agora, “Trump é repetição, mas também ruptura”. Segundo Vasques, ele “não está situado no exterior do ambientalismo, mas em uma outra ordem que subverte de forma brutal a racionalidade que organizou a agenda ambiental nos termos da sustentabilidade, do desenvolvimento sustentável, notadamente a partir do pós-Segunda Guerra Mundial”.
“Trata-se de uma agenda que há mais de 40 anos vem sendo atacada nos Estados Unidos que agora, com Trump, ganha um aliado disposto a levar às últimas consequências as suas práticas espoliativas”, destaca.
Ele destacou a recusa do republicano em participar das discussões da 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). “Os Estados Unidos abriram mão de assumir uma liderança em uma agenda considerada inevitável e determinante para o futuro de pequenas e grandes economias, mantendo sua frontal oposição a essa agenda”, salientou.
Brasil
Em relação à agenda ambiental no Brasil, o pesquisador destacou a reconstrução das instituições públicas e políticas desmontadas pelo governo Bolsonaro. Em sua avaliação, diferentemente do que acontece com Trump, “Lula tem sido instado por parte de seus aliados a se equilibrar entre demandas ambientalistas e a retomada da economia por meio de uma política neodesenvolvimentista”.
Ele também destacou a retomada do atual governo das políticas desenvolvidas nos mandatos anteriores, ainda que enfrentando inúmeros obstáculos internos. O atual governo brasileiro, porém, vem fazendo “uma oposição limitada aos retrocessos legislativos e oferece pouco em termos de fortalecimento institucional às agências ambientais, por exemplo”, avaliou.
No plano internacional, apontou Vasques, o presidente Lula tende “a oferecer ao mundo uma proposta responsável de gestão da Amazônia como forma de demonstrar que o Brasil assumiu sua parcela de responsabilidade em relação aos processos ligados à mudança do clima”. Internamente, porém, “as demandas dos ambientalistas são geridas à luz do princípio de intervenção do Estado para o desenvolvimento do país, sendo negociadas, então, com o complexo agroindustrial”.
Os limites se expressam nas escolhas do atual governo que “atendem a certas demandas locais, mas tendem a minimizar conflitos com setores econômicos estratégicos, vide a exploração na foz do rio Amazonas”.
O pesquisador também fez uma forte crítica à nova versão da agenda climática, ancorada na “contabilidade de moléculas de carbono” que, segundo ele, leva a respostas “a partir da descarbonização da vida humana”, promovendo um discurso fortemente desterritorializado e “irreconciliável com demandas por justiça”, cujo cerne reside nas implicações dessas ações sobre pessoas e territórios.
Dessa agenda, ele cita, por exemplo, a diferença das atenções dada às ações de mitigação e de adaptação climáticas. “Enquanto a mitigação recebe a atenção dos mercados, a adaptação segue marginalizada”, afirma.
Em sua avalição, a ausência de Trump “explicita as inconsistências do discurso climático, suas amarrações e estruturas provisórias, oferecendo uma oportunidade para navegar além dele”.
Para Vasques, é necessário pressupor “um movimento preliminar típico de distanciamento e esquecimento dessas categorias do ambientalismo”, o que não significa “um desengajamento entre reflexão crítica e ação política, mas sim a reafirmação dessa articulação”.
Dentre os caminhos para esta tarefa – “que nos pertence”, frisa –, a saída precisa ser construída “não por fora, mas dentro e a partir das nossas práticas”.
Confira a apresentação de Pedro Vasques ![]()
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