A Estratégia de Segurança Nacional de Trump 2.0
Por Williams Gonçalves* [Informe OPEU] [Documentos] [Estratégia de Segurança Nacional] [Doutrina Monroe] [China] [América Latina] [Trump 2.0]
No corrente mês de novembro de 2025, o presidente Donald Trump deu a público o documento National Security Strategy of the United States of America (NSS). A apresentação desse documento se tornou uma obrigação do Poder Executivo desde 1986, quando o Congresso aprovou o projeto de lei apresentado conjuntamente pelo senador republicano Barry Goldwater (R-AZ) e pelo representante democrata Bill Nichols (D-AL). O objetivo pretendido pelo projeto dos dois parlamentares era reorganizar o Departamento de Defesa e fortalecer a autoridade civil neste órgão.
A partir da instituição da Lei Goldwater-Nichols, como ficou conhecida, o governo passou a esclarecer regularmente à nação como percebia o estado das relações internacionais e como pretendia defender os interesses nacionais do país, qual seja, apontar os objetivos a serem alcançados e os meios para afastar os obstáculos que se oferecem no caminho. A publicização do documento serve, simultaneamente, para informar os cidadãos do país e os dirigentes dos demais Estados, com os quais os Estados Unidos mantêm relações.
A apresentação da NSS é sempre cercada de muita expectativa. Costuma ser um documento de amplo escopo. É a oportunidade para o governo apresentar sua visão sobre praticamente todas as questões relativas ao meio internacional, desde as mais importantes até as de menor relevância. Toda a expectativa consiste na identificação daquelas questões que, aparentemente, formam o núcleo do pensamento estratégico de seus formuladores. Razão pela qual polêmicas são frequentes, uma vez que as análises do documento nem sempre são semelhantes, havendo divergências quanto às ênfases.
Pode-se dizer que a Estratégia de Segurança Nacional do atual governo Trump quebrou essa rotina. Já não despertava a mesma curiosidade e expectativa que cercou o documento de administrações anteriores. Primeiramente, porque seu governo não pode ser considerado uma novidade. Tendo em vista as características de seu primeiro mandato e o andamento do segundo, dificilmente ocorreriam mudanças significativas na sua conduta internacional. Nada indicava a intenção de promover mudança de rumo. O caráter conciso do documento por ele apresentado também reduz a margem de debate. Desde a definição de estratégia, passando pelos objetivos nacionais a serem alcançados, a NSS de Trump é marcada pela objetividade, sem o usual e intencional recurso da ambiguidade. Sua definição de estratégia nacional não deixa, portanto, margem à dúvida: pragmática, realista e muscular, buscando sempre obter um objetivo contido, segundo ele, “em duas palavras, America First”.
Em conformidade com as críticas que lançou aos governos antecedentes, dedicados a assegurar para os Estados Unidos a posição hegemônica no sistema internacional de poder, a NSS de Trump admite que a estrutura do sistema internacional é multipolar. Segundo sua crítica, a estratégia voltada para manter a posição hegemônica debilitou a potência norte-americana. Os Estados Unidos financiaram a segurança de aliados, que se aproveitaram disso para poupar recursos em segurança e investir mais em desenvolvimento econômico; ao incentivarem o processo de globalização, os governos assistiram à saída de empresas do país, o que reduziu a capacidade produtiva e gerou desemprego; e se envolveram em guerras que não proporcionaram qualquer vantagem objetiva, quando não comprometeram a imagem do país.
Em vista disso, em vez de perseguir uma primazia sobre todos os demais atores estatais, Trump se propõe a zelar pelo equilíbrio de poder (Balance of Power), como vemos nesse trecho à página 10 do documento: “os Estados Unidos não podem permitir a qualquer nação se tornar tão dominante que possa ameaçar nossos interesses. Nós trabalharemos com aliados e parceiros para manter equilíbrios de poder global e regional de modo a prevenir a emergência de adversários dominantes”.
Assista ao episódio “Corolário Trump para a América Latina” na íntegra
Esferas de influência
Essa ideia acerca da inserção internacional dos Estados Unidos é contrária, portanto, a qualquer posição idealista sobre o papel do país como defensor universal da democracia e do livre-comércio e responsável pela paz mundial. Isso explica, em grande medida, por que Trump se comprometeu, desde a campanha eleitoral, a trabalhar para estabelecer a paz nas guerras travadas na Ucrânia e no Oriente Médio. Na Europa, Trump ignorou o compromisso dos europeus com os ucranianos e instou o presidente Volodymyr Zelensky a dialogar com o russo Vladimir Putin para fazer um acordo de paz. Argumentando que o governo antecessor de Joe Biden havia investido dinheiro demais apoiando a Ucrânia, deixou para os europeus o encargo de prosseguir em guerra, caso fosse o desejo deles. Claramente, Trump considera a Rússia como polo de poder, tendo o direito de definir sua área de influência, ao mesmo tempo em que deixou em aberto a possibilidade de os europeus definirem uma liderança entre eles.
No Oriente Médio, Trump pressionou Israel a interromper a ação militar em Gaza e aceitar um plano de paz. Embora sua ação tenha sido favorável a Israel, uma vez que, por razões de política doméstica, seria impensável os Estados Unidos condenarem frontalmente seu histórico aliado, Trump sinalizou que o Oriente Médio deixou de ser objeto de especial atenção da política internacional norte-americana. O ataque que ordenou ao Irã serviu para advertir esse país de que não toleraria seu projeto de se elevar à categoria de potência regional, mediante a persistência em seu programa nuclear. Com esse ataque ao Irã, Trump mostrou a Israel que não deveria ir além do que havia conquistado em sua violenta arremetida contra o Hamas e os palestinos.
Sem surpresa, a NSS considera que o grande desafio à condição dos Estados Unidos como potência e polo de poder vem da região do Indo-Pacífico. O documento prevê que será nessa região que serão travados os grandes embates econômicos e geopolíticos, uma vez que essa região é responsável por quase metade do PIB mundial. E a China é, evidentemente, o principal destaque da região. Sempre lamentando que a China alcançou a condição de grande potência econômica e tecnológica em virtude da desastrada política de globalização incentivada pelos governos norte-americanos anteriores (sobretudo democratas), a NSS de Trump se propõe a enfrentar a China em todos os aspectos econômicos e tecnológicos, com vistas a impedir que esse país consiga se colocar como potência dominante global, como seria do desejo de seus dirigentes.
O caminho da reindustrialização
Para fazer face a esse desafio, torna-se necessário, conforme o documento, investir na reindustrialização dos Estados Unidos. Aludindo ao pensamento de Alexander Hamilton (1755-1804), um dos Pais Fundadores da República e ícone do pensamento industrialista, a NSS afirma que a produção industrial forma a base de uma economia nacional forte e autossuficiente. Esta é, acrescenta, a condição indispensável para a segurança do Estado. Por essa razão, serão feitos todos os esforços no sentido de atrair investimentos e aprofundar a pesquisa em tecnologias avançadas. Reequilibrar as relações comerciais, reduzir os déficits comerciais, derrubar barreiras às exportações e eliminar práticas anticompetitivas que prejudicam as indústrias e os trabalhadores nacionais estão entre as medidas prioritárias para recuperar a capacidade industrial do país. A NSS promete, enfim, uma política econômica nacionalista, industrialista e protecionista para garantir aos Estados Unidos a posição de nação industrial poderosa.
Entre os fatores necessários para empreender o caminho da reindustrialização, como já recomendava Alexander Hamilton, consta o livre acesso aos minerais e materiais críticos. Ao lado disso, deve-se, ainda, acrescentar o domínio das fontes de energia (petróleo, gás, carvão e nuclear), o controle dos mercados de capitais e, muito importante, a manutenção do dólar como moeda internacional.
Consistentemente com a ideia de multipolaridade e com a definição de áreas de influência, o documento aponta o Hemisfério Ocidental como a base do poder dos Estados Unidos. A qualidade de polo de poder da potência norte-americana depende, naturalmente, de sua capacidade de exercer o controle sobre toda a região. Em conformidade com o projeto de recuperação da capacidade industrial do país, todas as riquezas do Hemisfério Ocidental devem estar disponíveis. Os responsáveis pela elaboração da NSS não sentem qualquer constrangimento em anunciar o “Corolário Trump da Doutrina Monroe” (Western Hemisphere: The Trump Corollary to the Monroe Doctrine).

Sumário da NSS 2025
Doutrina Monroe para o século XXI
Esse retorno ao século XIX configura enorme desafio para os governos latino-americanos. Na época em que a Doutrina Monroe foi proferida (1823), os recém-independentes países da região lutavam contra a possibilidade de uma reação da Santa Aliança. Portanto, a despeito de qualquer intenção oculta, a declaração era bem-vinda, pois constituía importante apoio às independências face às metrópoles coloniais europeias. O contexto atual é muitíssimo diferente. A intenção dos Estados Unidos é indisfarçável. Trata-se de trabalhar para forçar a saída dos chineses do continente e abrir caminho para a volta do domínio dos Estados Unidos.
Essa não será uma tarefa fácil. A China investiu muito nas relações econômicas com os países da região. Apresenta-se como investidora direta em projetos produtivos, com destaque na área de infraestrutura, tendo se tornado uma indispensável parceira comercial. Além, portanto, de consumir as commodities produzidas pelos latino-americanos, os chineses contribuíram, significativamente, para importantes obras de infraestrutura para o desenvolvimento. Entre tantos projetos em que os chineses se veem envolvidos, um dos mais significativos, e que mais afetam os interesses norte-americanos, é o superporto de Chancay, que conecta o Peru e os Estados circunvizinhos aos portos chineses. Além, evidentemente, de expandir seu poder econômico em uma região antes dominada pelos norte-americanos, os chineses cumprem o programa do BRICS, principal expressão da força do Sul Global.
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Atualmente, essas diretrizes expostas na NSS de Trump 2.0 estão sendo testadas na Venezuela. A pretexto de combater um cartel de narcotraficantes, o governo Trump ocupou militarmente a região do Caribe com o anunciado intuito de substituir o governo venezuelano de Nicolás Maduro por um que seja dócil aos interesses dos Estados Unidos e impermeável aos interesses econômicos, políticos e estratégicos de russos e chineses. Esta ainda é uma crise aberta. Somente o tempo dará a resposta.
Independentemente de como será superada a crise venezuelana, tudo faz crer que o governo de Trump está disposto a recorrer a todo o arsenal diplomático e militar para fazer valer sua concepção estratégica. Para dar consecução a esse plano, Trump tem usado, espertamente, argumento muito popular entre seus prosélitos nacionais. O combate aos imigrantes que ocupam os postos de trabalho da classe trabalhadora norte-americana e aos narcotraficantes que inundam o mercado das drogas do país é política muito bem assimilada pelos cidadãos norte-americanos. E isso não é de hoje.
A Estratégia de Segurança Nacional é um programa de governo que, de um lado, contempla uma antiga aspiração de muitos países do Sul Global, que é o fim do hegemonismo norte-americano. De outro, essa nova política dos Estados Unidos se revela desafiadora, na medida em que destrói o multilateralismo, mas, em contrapartida, afirma orgulhosamente a adoção do bilateralismo como instrumento de negociação. Se a multipolarização do sistema internacional contribui para a democratização das relações internacionais, a desmontagem da multilaterização concorre para o sentido contrário, ou seja, para a sua oligarquização. Ademais, para os países da América Latina, sobretudo para o Brasil, que é parte fundadora do BRICS, o desafio é duplo: como manter os compromissos assumidos contraídos com os parceiros do BRICS e enfrentar a ofensiva imperialista norte-americana sem ter uma vontade nacional claramente definida? ![]()
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* Williams Gonçalves é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM-EGN). Doutor em Sociologia, também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU).
Entre outros livros, é autor de A China e a nova ordem internacional (Editora Ayran, 2023) e O realismo da fraternidade: as relações Brasil-Portugal no governo Kubitschek (Funag, 2024).
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em 5 mar. 2025. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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