Capilaridade e adaptação das ferramentas de controle do imperialismo dos EUA (parte I)
Charge política de 1898: “Dez mil milhas de ponta a ponta”, referindo-se à expansão do domínio americano (simbolizado por uma águia-careca) de Porto Rico às Filipinas após a Guerra Hispano-Americana; a charge contrasta isso com um mapa que mostra o tamanho significativamente menor dos EUA em 1798, exatamente 100 anos antes (Domínio Público/Wikipedia Commons)
Por Camila Vidal* [Informe OPEU] [Imperialismo] [EUA-AL]
O texto que trago, em três partes, neste minidossiê especial para o OPEU, foi redigido para uma palestra ministrada a convite do Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina (Sintrajusc). Apresentado em 3 de outubro, buscava tratar do papel do trabalho e do funcionalismo público na era da indústria 4.0 em uma perspectiva mais ampla, de modo a englobar questões geopolíticas e práticas imperialistas/(neo)coloniais. Sua organização foi, assim, um desafio, dadas as várias frentes a serem abordadas: imperialismo, América Latina, Estados Unidos, revolução tecnológica, Inteligência Artificial, sindicalismo e força laboral… E cada uma delas podendo ser tratada, individualmente, em palestras distintas.

Optei, assim, por enfatizar o uso de ferramentas informacionais e tecnológicas como ferramentas de controle por parte dos Estados Unidos e como isso afeta não só o mercado laboral. Em termos mais amplos, isso tem impactos na nossa soberania: tanto no âmbito ideacional, no sentido de persuasão para a manutenção de um modelo capitalista subserviente aos interesses simbólicos e materiais do centro; quanto no sentido material de exploração de trabalho na periferia e, no caso do Brasil, da exploração e expropriação da própria terra.
Parto, então, do termo colocado no título dessa apresentação: imperialismo. Ironicamente, tanto mais somos impactados na América Latina por um conjunto de ações, a partir de diferentes ferramentas de atuação por parte dos Estados Unidos (EUA), menos tratamos desse conceito, já considerado démodé, inclusive nas Relações Internacionais. A leitura de que a maciça independência de antigas colônias engendraria o fim de práticas coloniais e, portanto, imperiais, faz parte de uma leitura que rejeito fortemente. Nesse sentido, retomo Ellen Wood, em seu livro Império do Capital (Boitempo, 2014), que não apenas resgata a relação entre imperialismo e capitalismo, mas centraliza, ainda, o papel desempenhado pelos EUA no pós-Segunda Guerra Mundial como um poder imperial – mais especificamente, como o “primeiro império verdadeiramente capitalista do mundo”, cuja característica principal rompe com o domínio colonial direito, típico da relação metrópole x colônia, ao “operar o máximo possível por meio dos imperativos econômicos”. Para ela,
“O modo capitalista de imperialismo econômico é o primeiro imperialismo da história que não depende apenas da captura deste ou daquele território ou da dominação de determinado povo. Cabe a ele supervisionar todo o sistema global de Estados e assegurar que o capital imperial possa navegar com segurança e lucratividade por todo esse sistema”.
Esse “imperialismo do capital” opera ideológica – pela difusão do capitalismo neoliberal subserviente – e materialmente – pela exploração do trabalho e da força laboral oriunda da periferia do sistema internacional que perfaz uma nova divisão internacional do trabalho, mas também pela exploração e expropriação da terra e aquisição de riquezas dela advindas.
Comecemos pelo primeiro ponto: a difusão de um capitalismo neoliberal subserviente aos EUA.
Enquanto Karl Marx trabalhou exaustivamente na compreensão do capitalismo, centralizando sua análise na estrutura econômica propriamente dita, Antônio Gramsci tomou para si a análise da superestrutura – ou seja, do conjunto de instituições e intelectuais que a reproduzem, legitimam e propagam, mantendo, assim, uma estrutura social desigual que privilegia uns poucos em detrimento de muitos. Ainda que o uso da coerção seja condição sine qua non para a persuasão, um sistema baseado em consenso se torna central para a manutenção hegemônica. Nele, transportam-se visões de mundo (e interesses materiais e simbólicos) de uma classe dominante para uma classe dominada, perpetuando o sistema capitalista e as relações desiguais e dependentes que ele engendra. Ao tratar dessa dimensão, que pode parecer mais subjetiva, não se elimina nem a dimensão coercitiva, tampouco a dimensão material, já que o sucesso na fabricação de um determinado consenso está ancorado em recursos financeiros e ferramentas para disseminação ideacional.
Excepcionalismo como justificativa perene para subjugar
Tradicionalmente, os EUA operaram na América Latina combinando ferramentas de coerção e de consenso a partir de determinadas instituições, intelectuais orgânicos e recursos financeiros que possibilitaram a manutenção de privilégios de classe e a subserviência política e econômica ao primeiro. Suas práticas hegemônicas estão, entretanto, intimamente conectadas a uma perspectiva, sempre muito presente na sociedade estadunidense, de um suposto excepcionalismo. Ou seja, de uma sociedade singular e excepcional que, desde a sua gênese, colocava-se como distinta da Europa e das suas estruturas sociais monárquicas. Apresentavam-se, assim, como uma sociedade supostamente igualitária, democrática, livre e, portanto, escolhida por Deus. Por ser divina, essa sociedade tinha não só o direito, mas o dever de levar o exemplo de “civilização” e “progresso” para outros povos – a começar pelos vizinhos latino-americanos. Era o Destino Manifesto legitimando intervenções externas, a exemplo da exterminação dos povos indígenas e da captura de terras durante a expansão para o Oeste.
Dizer-se um povo excepcional, escolhido de Deus, significa colocar-se como superior a todos os outros. Talvez nenhuma outra região represente tão bem a noção de superioridade estadunidense quanto a América Latina. Para Lars Schoultz, no clássico Estados Unidos: Poder e Submissão (EDUSC, 2000), “A crença na inferioridade latino-americana é o núcleo essencial da política dos Estados Unidos em relação à América Latina”. Se somos, como prega a lógica do excepcionalismo estadunidense, seres inferiores e menos civilizados, precisamos ser “ensinados” por quem, supostamente, detém a excepcionalidade do progresso civilizacional.
É interessante notar como um número muito expressivo de organizações governamentais e não-governamentais estadunidenses caracterizam sua missão no exterior como “educacional”. É o caso, por exemplo, do National Endowment for Democracy (NED), da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) e da Atlas. Não posso deixar de trazer, aqui, o argentino Arturo Jauretche que, ainda na década de 1960, argumentava que a colonização é sempre e necessariamente pedagógica, porque confere ao centro o papel de professores e, à periferia, os de meros alunos subservientes ao primeiro. Como explica Edward Bernays (Propaganda, Maple Spring Publishing, 2025), o primeiro a tratar da cooptação da opinião pública para fins políticos,
“A nossa deve ser uma democracia com uma liderança formada pela minoria inteligente, cujos integrantes saibam conduzir as massas e controlá-las com mão de ferro. […] Seria isso uma forma de governar usando propaganda política? Chame, se você preferir, de governo pela educação”.
Nesse sentido, se a Guerra Fria foi caracterizada por conflitos terceirizados e proxy wars que visavam, por parte dos Estados Unidos, a conter a ameaça comunista; o período pós-Guerra Fria se caracterizaria por um conjunto de instituições que atuam como braços da política externa desse país. Capilarizada em vários setores sociais e “terceirizada” para instituições governamentais e privadas que vão operar externamente, o caráter da política externa dos EUA desde fins do século XX parece buscar neutralizar o aspecto político, atuando em ações que, em geral, seriam impedidas por princípios de soberania e da não intervenção.
Caracterizadas como instituições “privadas”, grande parte delas não apenas recebe financiamento público e mantém no seu quadro diretivo antigos ou atuais funcionários públicos e membros do Executivo/Legislativo, como são, também; criações do próprio governo dos EUA – a exemplo do Center for Private Enterprise. Uma das quatro instituições criadas dentro do NED, o CIPE conta com recursos oriundos do primeiro, via USAID, aprovados anualmente pelo Congresso estadunidense. Ainda assim, o CIPE, o NED e tantas outras instituições similares se apresentam como entidades privadas. Há, portanto, uma confusão intencional entre o público e o privado que ofusca o aspecto político.
Saiba mais
Camila Vidal: ‘Trump quer atuação mais seletiva da USAID’
USAID e a falácia da generosidade
Promovendo a ‘democracia’ por meio do livre-mercado: o papel do CIPE na América Latina
(Re)Pensando a dependência: Atlas Network e institutos parceiros no governo Bolsonaro
Para Nicholas Guilhot (Os profissionais da democracia em ação, Papirus, 2003), “Essa estrutura emaranhada parece ter por premissa que o dinheiro público, se for filtrado por um número suficiente de camadas burocráticas, transforma-se em financiamento ‘privado’”. Ou seja, a “presença de uma fundação que age em caráter privado […] permite ao governo se desengajar mantendo um certo tipo de intervencionismo político”. Como seres superiores que detêm o “saber” e a “técnica”, essas instituições atuam para “educar”, econômica e civicamente, os desafortunados latino-americanos. Essa distorcida lógica autoriza e legitima aos olhos de seus agentes, uma atuação moralmente aceita, pois envolta em uma roupagem virtuosa que prega a assistência e a neutralidade, enquanto invisibiliza os interesses materiais e simbólicos dessa mesma atuação.
Esse tipo de ação não é novidade. É o caso, por exemplo, da própria Agência Informacional dos Estados Unidos (USIA, na sigla em inglês), criada exatamente para promover o capitalismo estadunidense como o bastião da liberdade e do progresso e, desse modo, levar as sociedades periféricas à submissão. Enquanto, naquele momento, a fabricação do consenso era executada por meio do uso de mídias tradicionais, exposições no exterior, e ações de educação e assistência; atualmente, com o uso da tecnologia e do sistema informacional, adentramos em um patamar ainda mais rápido e eficaz para a persuasão.
Nesse sentido, o avanço tecnológico é a mais nova frente de atuação para a expansão capitalista e, assim, para a aquisição de lucros. Longe da “fábula” enaltecida pela revolução tecnológica e pelo aprofundamento da globalização que prega que o maior fluxo transnacional de informações, bens e serviços criariam uma aldeia global e que os benefícios dela decorrentes seriam igualmente redistribuídos; os avanços técnicos tendem a reproduzir, justamente, aspectos perversos do capital. Assim, para Evgeny Morozov (Big Tech, Ubu, 2018), “Toda discussão de tecnologia implica sancionar, muitas vezes involuntariamente, alguns dos aspectos mais perversos da ideologia neoliberal”.
É disso que tratarei na segunda parte deste minidossiê. ![]()
* Camila Feix Vidal é professora no Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC), do Instituto de Estudos para América Latina (IELA/UFSC) e do Instituto Memória e Direitos Humanos (IMDH/UFSC). Contato: camila.vidal@ufsc.br e camilafeixvidal@gmail.com.
** Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Esse conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.
Siga o OPEU no Instagram, Twitter, Linkedin e Facebook
e acompanhe nossas postagens diárias.
Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.
Somos um observatório de pesquisa sobre os EUA,
com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.