O paradoxo europeu e o desmonte do Quadrilátero (IV)
(Arquivo) ‘Uma Europa poderosa’: Macron discursa em Sorbonne, em 25 abr. 2024 (Fonte: X/@EmmanuelMacron)
Dossiê “Os Estados Unidos de Trump e a Europa”
Por Sebastião C. Velasco e Cruz* [Trump 2.0] [Europa] [Relações transatlânticas] [Política Externa]
Para muitos analistas, a dupla ofensiva de Trump criava involuntariamente uma oportunidade preciosa para a realização do antigo sonho europeu da autonomia estratégica. Pressionados nas negociações comerciais por um interlocutor que quebrava ostensivamente contratos solenemente assumidos, e os ameaçava com punições severas se não oferecessem uma proposta que julgasse aceitável, no prazo estreito por ele estipulado; informados de que não poderiam mais contar incondicionalmente com sua proteção, e que precisariam cuidar de sua própria segurança, os Estados Unidos com Trump lançavam aos países europeus um desafio incontornável.
Alguns de seus líderes já previam, antes da eleição de Trump, que o momento da verdade para a Europa estava próximo. É o que se pode depreender do Discurso sobre a Europa, que o presidente francês, Emmanuel Macron, pronunciou na Sorbonne, em 25 de abril de 2024. O texto é longo, mas a mensagem essencial está contida nos trechos que se seguem.
“Nous devons être lucides sur le fait que notre Europe, aujourd’hui, est mortelle. Elle peut mourir. Elle peut mourir, et cela dépend uniquement de nos choix”.
“Les États-Unis d’Amérique ont deux priorités. Les États-Unis d’Amérique d’abord et c’est légitime, et la question chinoise ensuite. Et la question européenne n’est pas une priorité géopolitique pour les années et les décennies qui viennent …”
“tout ce qui est stratégique dans notre monde, nous l’avions un peu délégué: notre énergie à la Russie, notre sécurité pour plusieurs de nos partenaires: pas la France, mais plusieurs aux États-Unis, et des perspectives aussi critiques à la Chine. Nous devons les reprendre. C’est ça, l’autonomie stratégique.”1
Herdeira de um passado de glórias, detentora de força e estratégia nuclear próprias, a França sempre foi a nação mais ciosa de sua soberania entre os membros da União Europeia. Mas, com diferentes nuances, o debate em torno da necessária autonomia estratégica estava em curso nos grandes países da região já há algum tempo quando Trump assumiu pela segunda vez o governo dos Estados Unidos.2
Assista ao discurso do presidente Macron
Este fato conferiu ao tema uma importância e uma urgência inéditas, como ficou evidente na sequência dramática de atos que se seguiram ao entrevero entre Trump e Zelensky na Casa Branca. A entrevista coletiva fatídica ocorreu na sexta-feira, 28 de fevereiro; dois dias depois, o Presidente francês reunia-se com o Primeiro-Ministro britânico e mais 13 líderes europeus em Londres, num desagravo a Zelensky, presente no ato, a quem reiteraram o apoio e inabalável solidariedade; e já na terça-feira, 4 de março, a presidente da União Europeia anunciava um plano de defesa europeu no valor de 800 bilhões de euros, na forma de licença para os países membros gastarem nesta rubrica acima do teto fiscal em vigor na U.E. – o plano previa ainda a criação de um “novo instrumento”, um fundo europeu, para financiar a indústria bélica. Pari passu, os governos europeus – o Reino Unido incluído – multiplicavam promessas de apoio financeiro e militar à Ucrânia enquanto durasse o conflito com a Rússia, e garantias de segurança quando – ou se – fosse alcançado entre as partes um cessar-fogo prolongado, um armistício na melhor das hipóteses.
Esse movimento armamentista culmina com a aprovação, em 18 de março, de uma emenda constitucional pelo Bundestag, o parlamento alemão, autorizando o governo federal a violar a regra de ouro do equilíbrio fiscal para viabilizar o investimento militar (e de quebra ambiental) na ordem de 500 bilhões de euros. Votação feita a toque de caixa por uma legislatura caduca, dias antes de ser instalado o novo parlamento, cuja composição fora profundamente alterada, onde a proposta já começaria a tramitar natimorta.
*** ***
A integração e o fortalecimento da base industrial de defesa europeia era parte de um projeto maior de transformação econômico-institucional há muito percebido como indispensável para vencer as barreiras que tolhiam o crescimento da região, a cada dia mais distante dos Estados Unidos, vencer o seu atraso relativo em setores críticos de alta tecnologia, e criar as bases materiais da autonomia estratégica pretendida.
A literatura especializada aponta várias razões para explicar por que este tem se mantido há tanto tempo como um objetivo elusivo. Não posso examiná-las aqui – direi apenas que dentre elas duas me parecem fundamentais: a inconsistência política dos Estados membros da União Europeia – que só faz aumentar com o ingresso de novos sócios – e a resistência aberta dos Estados Unidos, que foram contrários à unificação monetária e sempre vetaram a criação de um braço armado europeu fora das estruturas da OTAN, quer dizer um aparato militar federado dotado de centro de planejamento estratégico e sistema decisório próprios. Veto expresso lapidarmente pela Secretária de Estado Madeleine Albright, em entrevista coletiva na sede da OTAN, em dezembro de 1998, ao ser questionada sobre a ESDI (sigla em inglês para Identidade Europeia de Segurança e Defesa). Em suas palavras,
“We believe that it is a very useful way to think about burden sharing. … We have felt that it is important to do that under what we would say the three ‘D’s which is no diminution of NATO, no discrimination and no duplication because I think that we don’t need any of those three ‘D’s to happen.”3
Essas palavras foram ditas no auge da crise que levaria, três meses depois, à decisão não autorizada pela ONU de bombardear Belgrado, numa guerra essencialmente americana que expôs tensões mal veladas entre os aliados da OTAN e muito perto de um choque direto entre forças da organização e tropas russas. Em sua franqueza rude, elas nos permitem entrever a situação dilemática em que se encontra hoje a Europa, com seu projeto de autonomia estratégica, em meio a uma guerra que definiu como sua, defrontada com o governo inamistoso dos Estados Unidos.
Consideradas abstratamente, essas condições são complementares: a ameaça externa, na ausência de firme compromisso da parte do protetor histórico, requer a concretização do projeto da política de segurança e defesa europeia.
O problema surge quando introduzimos a variável “tempo” na equação. Deixando de lado o aspecto mais delicado da formação da vontade coletiva – e da superação dos obstáculos políticos, nos diversos países envolvidos, para efetivá-la –, bastam algumas observações rápidas sobre o tema do rearmamento europeu para nos darmos conta do tamanho da dificuldade.
Como vimos, nos últimos meses a Europa decidiu elevar extraordinariamente o seu gasto em defesa, estabelecendo um compromisso quantitativo nesse sentido, no Encontro Bianual da OTAN, realizado do dia 24 a 26 de junho em Haia (5% do PIB, como Trump exigiu, sendo 1,5% voltado para investimento em infraestrutura de segurança). Mas o desafio que a confronta não é o de armar-se, mas de fazer isso com independência, quer dizer com provisão própria.
Presidente Trump participa do encontro da OTAN, em 25 jun. 2025 (Crédito: Martijn Beekman. Fonte: OTAN/Flickr)
Este o objetivo da política de integração e fomento da base industrial de defesa europeia, mas, como adverte o autor do trecho a seguir, ele é inalcançável a curto prazo.
“Standardization, which is necessary if we are to achieve economies of scale, should also apply for armies that would continue to be national armies, in the medium term at least, but this necessitates intergovernmental agreements, which are always a sensitive, if essential, issue. Adopting new technologies and new advanced defense instruments is neither a simple nor a rapid operation. For example, it currently takes over a decade to research and manufacture advanced chips and semiconductors (over which Taiwan has a virtual monopoly today) or to put a totally new military airplane or tank in the field.”4
Por esse motivo, não há como discordar da avaliação cética dos analistas americanos que contribuíram para um dossiê recente sobre o tema, ainda que ela seja claramente interessada.
“Our analysis and recommendations are clear. The level of threat that Europe faces coupled with the demands of a modern comprehensive defense industrial base mean that autonomy is an unrealistic goal for Europe…
The incoming Trump administration has already forced some European leaders to reckon with this disparity with more urgency. European Central Bank director Christine Lagarde recently called for Europe to buy more American weapons to ease trade tensions… We identify still one more pressure: even if the Trump administration ‘abandons’ NATO, Europe’s increased need to defend itself will require US weapons purchases.”5
A avaliação é enviesada porque toma como dado uma variável fundamental do problema: a natureza e a intensidade da ameaça. Ele está se referindo naturalmente à Rússia, sua campanha longa já de três anos na Ucrânia e a expansão de sua indústria militar nesse período.
Reside aí o paradoxo. Em vez de buscar uma atenuação do conflito que torna maior a ameaça a cada giro da rosca – se não por outro motivo, para ganhar tempo – , a Europa demoniza o adversário, corta toda comunicação com ele e recusa-se a aceitar negociações sobre a Ucrânia em termos realistas, que possam resultar em um acordo de paz, ainda que precária.
Ora, o tempo da guerra é curto, as necessidades são prementes, o atraso em atendê-las mede-se em número de vidas ceifadas e posições perdidas. Nessas condições, malgrado os discursos vibrantes, a Europa se amarra aos Estados Unidos: não concebe o sistema de defesa articulado pela OTAN sem eles, e abre suas burras às empresas americanas de material bélico, sem as quais estaria (ou acha que estaria) condenada.
O problema, porém, não termina aí. O desencontro na área de segurança é uma das frentes do contencioso com os Estados Unidos de Trump. O outro é a disposição deste de reorganizar a seu favor a economia mundial, usando para isso, de forma estudadamente truculenta, todos os meios de coerção a seu dispor, a começar pelas barreiras tarifárias.
Como vimos em outras partes deste ensaio, a reorganização buscada pelos Estados Unidos envolve, além das medidas de proteção aduaneira, o questionamento de partes inteiras do arcabouço institucional criado pela União Europeia para regular o funcionamento dos seus mercados, impulsionar a sua indústria, avançar em setores novos de atividade.
E não adianta à Europa tentar separar as duas esferas – guerra e comércio; segurança e economia. Na estratégia de seu interlocutor elas estão amalgamadas.
Reconhecendo sua dependência na primeira, a posição da Europa fica igualmente fragilizada na segunda.
Estaria muito menos se pudesse atenuar o seu conflito com a Rússia e reestabelecer os laços corroídos com a China, ampliando dessa forma o seu grau de liberdade.
No presente, com os governantes de turno, esta possibilidade parece remota (mas é preciso considerar que nos países mais poderosos a situação dos governos respectivos é bastante débil).
Estados Unidos, China, Rússia, Europa. Retomei neste artigo a imagem do quadrilátero, que usei no passado para descrever esquematicamente as relações significativas a levar em conta na análise da guerra na Ucrânia.6 Pois bem, seja ele qual for, o caminho tomado pela Europa está fadado a reconfigurar este quadro: o da autonomia estratégica aprofundará a tendência à multipolaridade; a persistência no padrão de comportamento presente resultará na irrelevância da Europa como ator na política internacional e a consequente substituição do quadrilátero pela figura do triângulo. ![]()
Notas explicativas e referências
1 Élysée, Discours du Président de la République sur l’Europe à la Sorbonne, 25.04.2024
2 Roberts, Paul, “The War in Ukraine: A Paradigm Shift for the EU? It’s a Mixed Picture”. The Panphlet, 1/9/2024.
3 US Secretaire of State Albright Press Conference. NATO HQ, Brussels, 8.12.1998. Sobre a posição exposta pela Secretária Albright, Cf. Grieco, Kelly A. “Albright’s 3 Ds: Dependency, Dependency, Dependency”. Defense Priorieties, 2.07.2024. E para uma justificativa elaborada da postura americana sobre a questão. Kissinger, Henry. Does America Need a Foreign Policy? Toward a Diplomacy for the 21st Century. New York, Simon & Shuster, 2002, pp. 58-63.
4 Schioppa, Antonio Padoa, “Requirements for a European defense”. Aspenia online. International Analysis and Commentary, 7.10.2021.
5 Caverley, Jonathan; Kapstein, Ethan, « The Limits of Strategic Autonomy: plus ça change, plus c’est la même chose? » in Jonathan Caverley, Ethan Kapstein, Léo Péria-Peigné and Élie Tenenbaum, “A Transatlantic Defense Industrial Base? Two Contrasting Views”, Focus stratégique, No. 124, Ifri, March 2025, pp. 5-19 (p. 17).
6 Velasco e Cruz, Sebastião C., “O Quadrilátero da Crise: A guerra na Ucrânia e o governo Biden”, in Velasco e Cruz, Sebastião C. e Bojikian, Neusa M. P. (Orgs.) Tempos Difíceis. O primeiro tempo do Governo Biden e as eleições de meio de mandato. São Paulo, Editora UNESP, 2023, pp. 235-293.
* Sebastião Velasco e Cruz é ex-coordenador do INCT-INEU e coordenador do OPEU, Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP).
** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
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