O Quadrilátero desfeito. Os Estados Unidos de Trump e a Europa: Falso Déjà Vu (I)
(Arquivo) O então presidente Donald Trump e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na 50ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em 21 jan. 2020, em Davos, Suíça (Crédito: Foto oficial/Casa Branca/Shealah Craighead/Flickr)
Dossiê “Os Estados Unidos de Trump e a Europa”
Por Sebastião C. Velasco e Cruz* [Trump 2.0] [Europa] [Relações transatlânticas] [Política Externa]
Ao contrário do que se deu há oito anos, em novembro de 2024 a vitória de Donald Trump não foi surpresa para ninguém. Com efeito, apontado insistentemente, desde o início do ano, como favorito pelas pesquisas de intenção de voto, em sua dramaticidade o atentado que sofreu durante um comício de campanha na Filadélfia, em 13 de julho, parecia lhe garantir o retorno triunfal à Presidência dos Estados Unidos. Houve, então, o fatídico debate que pôs a nu o declínio das capacidades cognitivas de Joe Biden, a agitação febril dos altos escalões de seu partido, e finalmente a substituição do Presidente-candidato infirme por sua companheira de chapa, Kamala Harris. Tal reviravolta reacendeu as esperanças dos eleitores democratas e de quantos torciam contra o magnata republicano em todo o mundo. Mesmo assim, ninguém dava o resultado da disputa como certo.
Na dúvida, a única coisa a fazer era esperar o melhor, preparando-se para o pior, cuja antecipação era facilitada pela memória do primeiro mandato de Trump, por seu discurso de sempre e por suas renovadas promessas de campanha, além dos alentados documentos programáticos produzidos por seguidores.1
Assinado coletivamente por funcionários e acadêmicos de variada procedência nacional, o artigo “A Europa à prova de Trump. Como o continente pode se preparar para o abandono americano” (imagem abaixo), publicado em fevereiro de 2024, ilustra nitidamente a percepção que a elite dirigente europeia tinha do que estava por vir em caso de eleição de Trump. Vale a pena resgatar algumas das observações mais atiladas que esse texto registra.
“Trump may well be more antagonistic to Europe and European values in a second term, dramatically increasing the risks to the continent’s security and aggravating its existing difficulties.”
“The biggest immediate danger presented by a second Trump term is clear: Trump has already indicated he would end U.S. support for Ukraine.”
“The risks a second Trump presidency poses, however, go well beyond defense and security. Under Trump, the U.S.-Chinese relationship could further deteriorate… by threatening secondary sanctions, Trump could actively force European companies to cease operations in China or pressure Europeans to block Chinese investments in Europe.”
“If he gets a second term, Trump may well seek to further weaken democratic institutions in the United States, including the Department of Justice, and foment general disdain for the rule of law. This would embolen populists and Euroskeptic parties.” 2

Comentarei o problema europeu do que fazer em outro lugar. Por ora desejo salientar o fato de que, apesar de toda as indicações disponíveis ao observador avisado, nada preparava a elite europeia para o comportamento de Trump nos primeiros dias de seu segundo mandato.
Na realidade, a onda de choques começou bem antes. O primeiro veio com a coletiva que o presidente eleito concedeu à imprensa nacional e internacional em 7 de janeiro de 2025, um dia depois de confirmada a sua vitória pelo Senado dos Estados Unidos. Esmerando-se nas provocações, além de anunciar a mudança de nome do Golfo do México, que passaria a ser denominado Golfo da América; de insistir na tese esdrúxula da anexação do Canadá; de insinuar que poderia empregar a força para anexar a Groelândia e reaver o Canal do Panamá, Trump ameaçou a Dinamarca com tarifas punitivas, caso mantivesse sua recusa em vender o cobiçado território ártico. Não só isso, retomando a cantilena da exploração dos Estados Unidos pelos sócios da OTAN cobrou dos mesmos a destinação de 5% do PIB ao gasto em defesa, e não apenas os 2% até então convencionados.3
O seguinte veio duas semanas depois, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. Falando à distância para a plateia de governantes, altos funcionários internacionais, banqueiros e empresários ansiosos para ouvi-lo, Trump não mediu palavras. Concluído o discurso autocongratulatório no qual reiterou os grandes temas de sua plataforma eleitoral – da negociação de paz na Ucrânia ao restabelecimento dos Estados Unidos como superpotência energética –, na sessão de perguntas e respostas criticou os tributos europeus e os processos judiciais bilionários movidos pela União Europeia contra as gigantes digitais americanas (Apple, Google, Faebook), desafiando o público com proclamações como esta:
“My message to every business in the world is very simple: Come make your product in America, and we will give you among the lowest taxes of any nation on Earth …. But if you don’t make your product in America, which is your prerogative, then, very simply, you will have to pay a tariff — differing amounts, but a tariff — which will direct hundreds of billions of dollars and even trillions of dollars into our Treasury to strengthen our economy and pay down debt.”4
Pouco tempo depois, a sensibilidade europeia foi abalada por duas ocorrências significativas: na quarta-feira, 12 de fevereiro, a declaração do Secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, em sua primeira reunião com os aliados militares da Ucrânia na sede da OTAN, que a reconquista dos territórios ocupado pela Rússia era irrealista, que os Estados Unidos descartavam a entrada da Ucrânia na OTAN e que não participariam com tropas em esquema para garantir a segurança da Ucrânia5; três dias depois, o discurso provocador do vice-presidente J. D. Vance na Conferência de Segurança de Munique, no qual ele responsabilizou os próprios dirigentes europeus pelos ataques mais graves à democracia no continente.
O que veio a seguir ainda mora na lembrança de cada um: o espetáculo sem precedentes da altercação entre Trump e Zelensky no Salão Oval da Casa Branca, em 28 de fevereiro, de um lado, e, de outro, o anúncio teatral do tarifaço de Trump, em 2 de abril, que lançou a economia mundial em uma montanha russa da qual ela parece longe de poder sair.
A essa altura estava claro para todos – europeus e não europeus – que, não obstante a continuidade retórica, o segundo mandato de Trump destoaria bastante de sua primeira experiência de governo. (continua) ![]()
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Notas explicativas e referências
1 O mais notório dentre eles é o chamado Project 2025, documento de mais de 900 páginas publicado pela Heritage Foundation, reunindo estudos e recomendações sobre a estrutura da administração pública e diretivas para todas as esferas da ação governamental. Cf. Dans, Paul; Groves, Steven (eds.) Mandate for Leadership. The Conservative Promise. Washington, The Heritage Foundation, 2023. O mais conhecido, mas não necessariamente o mais influente. Patrocinado por think tank menor e mais recente – o America First Policy Institue –, o livro An America First Approach to US National Security reúne trabalhos redigidos por alguns dos principais membros da equipe encarregada dessa política no governo Trump 2.0.
2 González Laya, Arancha; Grand, Camille; Pisarska, Katarzyna; Tocci, Nathalie; Wolff, Guntram. “Trump-Proofing Europe. How the Continent Can Prepare for American Abandonment”, Foreign Affairs, 2.02.2024.
3 Sanger, David E.; Shear, Michael D., “Trump floats using force to take Greenland and the Panama Canal”, The New York Times, 8.01.2025.
4 Business World Economic Forum: transcript of U.S. President Donald Trump’s Special Address. Insight EU Monitoring. 23.01.2025.
5 Erlanger, Steve, “Hegseth says return to Ukraine’s pre-2014 border is ‘unrealistic’”, The New York Times, 12.02.2025.
* Sebastião Velasco e Cruz é ex-coordenador do INCT-INEU e coordenador do OPEU, Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP).
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