Brasil

Revolução tecnológica e terras raras: um novo tipo de imperialismo? (III) 

Os usos e o valor estratégico das terras raras (Fonte: Ashutosh Jha/LinkedIn)

Por Camila Vidal [Informe OPEU] [Imperialismo] [Big Techs] [Brasil] [Hegemonia] [Terras raras]

Longe da fábula que garante a neutralidade técnica em benefício da humanidade, a Revolução 4.0 é ferramenta política, mas que necessita – para a manutenção de seus avanços tecnológicos – de recursos materiais. Por mais que o discurso nos indique que a tecnologia é abstrata, que as informações ficam em nuvens e, portanto, em estruturas amorfas e invisíveis, as Big Techs necessitam de estruturas materiais – a exemplo dos centros físicos de grandes datacenters – e de recursos específicos, cuja materialidade só é possível mediante o uso de certos minerais. Subitamente, surge no léxico geopolítico o termo “terras raras”. Como o “ouro do século XXI”, o acesso a esses elementos se circunscreve a uma nova disputa por matéria-prima, muito próxima das disputas coloniais antigas. Mais uma vez, são os velhos frascos em novas embalagens.  

As chamadas terras raras não são propriamente raras, mas um conjunto de 17 minerais de difícil extração, refino e produção, a exemplo do lítio, nióbio, cobre e manganês. Por terem propriedades magnéticas e alto nível de condutividade (como, por exemplo, os ímãs), são necessárias para a fabricação de equipamentos mais leves, menores e mais potentes – a exemplo de smartphones, painéis solares, carros elétricos, drones, mísseis etc. A OTAN, por exemplo, lista um conjunto de 12 minerais críticos para produção de caças, tanques, submarinos e mísseis como “vital para manter a vantagem tecnológica e a prontidão operacional da OTAN”.  

O problema é que a produção não dá conta da demanda. Com a rapidez da evolução tecnológica, a demanda desses minérios deve crescer 1.500% até 2050 – muito acima da produção atual. Há ainda, um segundo problema: a localização dessas terras raras. Mesmo que a maioria esteja no Sul Global, as duas maiores reservas se concentram em dois países: China e Brasil. Os Estados Unidos não são autossuficientes e não podem contar para a China; pelo contrário, seu governo busca conter a liderança chinesa nessa seara. Precisam, então, contar com quem? Com o Brasil. Assim, subitamente o Brasil voltou ao radar nos Estados Unidos.  

O Brasil é segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás somente da China, cuja posição de líder no setor é garantida não só por ter a maior reserva mundial, mas também a maior produção. A China extrai, refina e consegue produzir em quantidades que nenhum outro país consegue. Isso faz com que ela tenha liderança, em alguns casos até o monopólio, da produção de alguns desses elementos. Concentra, por exemplo, 60% da produção global desses minérios, e 90%, do refinamento dos mesmos. Lidera a produção mundial de ímãs, enquanto refina 73% do cobalto; 59%, do lítio; e 40%, do cobre mundial. Na atual disputa geopolítica entre China e Estados Unidos, a corrida tecnológica entre esses países pode significar a ascensão ou o declínio hegemônico. O acesso às terras raras é, assim, vital. Cálculos da ONU, por exemplo, já indicam que, do total de conflitos intra-Estados nas últimas décadas, 40% estão relacionados a acesso a recursos naturais — entre eles, minérios como os presentes nas terras raras.  

Desde o início de sua campanha eleitoral de 2024, Trump vem priorizando o acesso a esses recursos. Ao mesmo tempo que seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmava que os Estados Unidos iriam “recuperar o nosso quintal” – referindo-se à América Latina –, o governo lançava, em março de 2025, um decreto para a ampliação da produção de minérios e extração de terras raras. Desconsiderando-se as falas histriônicas acerca da conquista da Groelândia e o acesso aos seus recursos minerais, esse governo já fez acordo com Ucrânia e República Democrática do Congo e tenta, agora, com o Brasil.  

Trump inaugura nova fase na estratégia mineral americana

Saiba mais neste Informe OPEU de Miguel Herman

No caso do Congo, a cooperação prevê, como contrapartida ao acesso aos minérios congoleses, a atuação estadunidense para controle dos conflitos domésticos e regionais que assolam o país, a partir da venda de armamentos, treinamento de militares e até o envio de corpo militar estadunidense ao país africano. Com a Ucrânia, o acordo prevê a exploração de terras raras ucranianas pelos Estados Unidos em troca de apoio militar para esse país. De acordo com Trump, “Como vocês sabem, estamos constantemente procurando terras raras. Eles [ucranianos] têm muitas delas, e fizemos um acordo para que possamos começar a cavar e fazer o que precisamos”. 

Recentemente, o Departamento de Defesa fez um investimento de US$ 400 milhões na operadora da única mina de terras raras dos Estados Unidos, em Mountain Pass, Califórnia: a estadunidense MP Materials. O recurso serve para a construção de sua nova fábrica, prevista para ser inaugurada em 2028, com foco na produção de ímãs. Vale lembrar o contencioso com a China, quando o governo Trump ameaçou taxar o país asiático em 200%, caso esse interrompesse ou diminuísse a exportação de ímãs para os EUA. Com o aporte à MP, o Pentágono se torna o maior acionista da empresa. A Apple é outra que fez acordo com essa mesma empresa. Investiu US$ 500 milhões para a obtenção de recursos minareis, em específico, ímãs.   

Na América do Sul, sub-região que concentra 58% das reservas globais de lítio e 38% das de cobre, são várias as empresas estadunidenses a operarem na região – sobretudo, no Chile. É o caso das mineradoras Newmont, Freeport-McMoRan, Albemarle e Alcoa. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda por lítio, por exemplo, deve quintuplicar até 2040 (apud Santos). Nesse sentido, é bom lembrar o tuíte do CEO da Tesla, Elon Musk, sobre o lítio boliviano, quando argumenta, em letras garrafais, que os Estados Unidos “iriam dar golpes em quem quisesse, apenas lidem com isso”. Por fim, em julho de 2025, houve tratativas com agências do governo dos Estados Unidos para financiamento público na Aclara Resources para exploração de terras raras na América Latina, prioritariamente no Chile e no Brasil, com refino e processamento nos EUA. A proposta representa a mesma lógica de dependência, em que a periferia exporta produtos de baixo valor agregado, enquanto o centro, ao deter a técnica e a indústria tecnológica, adiciona valor agregado e, assim, lucro. Basta lembrar que um minério refinado vale 20x mais que o bruto. 

Como o segundo país com maior reserva de terras raras, o Brasil detém 23% das reservas conhecidas no mundo e 21 milhões de toneladas em equivalentes de óxidos. Possui 98% das reservas mundiais de nióbio, a maior reserva mundial de grafite e a terceira maior de níquel. De acordo com o US Geological Survey, o nióbio é o segundo recurso mineral mais crítico para os Estados Unidos, quando se leva em consideração os riscos potenciais da cadeia de suprimentos. Tendo praticamente o monopólio mundial desse minério, é fácil entender o interesse estadunidense pelo Brasil. No entanto, temos problemas sérios: ainda que detenha a segunda maior reserva de terras raras do mundo, o país responde por menos de 1% da produção mundial. Dois motivos são apontados para essa lacuna: a) reservas inexploradas, a exemplo daquelas na região amazônica; e b) escassez de recursos tecnológicos para extração, refino e produção – ou seja, para inserção de valor agregado. 

Serra Verde Group | LinkedInEm outubro de 2024, o Departamento de Estado dos EUA publicou uma nota em que comemora o investimento em terras raras no Brasil. Enfatizando a necessidade de romper com o monopólio da oferta desses minérios circunscrita a alguns poucos países (ironicamente localizados na periferia), os Estados Unidos – junto com Canadá, Austrália e países europeus – fazem parte da Minerals Security Partnership. É nessa toada que a nota publicada comemora o investimento das estadunidenses Denham Capital e Energy and Minerals Group, em Goiás, na Serra Verde. De acordo com o website do Serra Verde Group, o projeto de mineração na região é “o primeiro a produzir em larga escala todos os elementos magnéticos críticos de terras raras fora da Ásia”. Começando sua produção em 2024, a atuação na Serra Verde é vista como “um ativo estratégico no fornecimento de materiais essenciais para cadeias de suprimentos globais emergentes de ímãs permanentes, bem como para os setores de defesa, nuclear, aeroespacial e outros setores essenciais”.  

Denham foi, inclusive, parceira da Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (a USAID) em ação na África, demostrando, mais uma vez, o intrincado relacionamento entre o público e o privado. Nesse sentido, vale lembrar que a USAID vem trabalhando no Brasil e na Amazônia já faz bastante tempo. Na Amazônia, criou a parceria Plataform for the Amazon (PPA) para, supostamente, educar as comunidades nativas e preservar a natureza. Entre as empresas-parte dessa parceria, estão gigantes estadunidenses das Big Techs, a exemplo da Google, e da mineração, como Alcoa e Mineração Rio do Norte – a primeira, referência na extração do alumínio; a segunda, da bauxita.  

Ainda em 2025, o encarregado de Negócios na Embaixada EUA no Brasil, fulano de tal, solicitou reunião com Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) para tratar das terras raras brasileiras. No seu website, o Ibram indica que “A agenda […] tratou da missão comercial de mineradoras que atuam no Brasil ao mercado daquele país e do interesse dos Estados Unidos em possíveis acordos com o setor mineral brasileiro, principalmente com relação aos minerais críticos e estratégicos”. Conforme o instituto, “O representante oficial da embaixada dos EUA no Brasil demonstrou interesse na Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos em preparação pelo governo brasileiro, bem como iniciativas parlamentares nesse mesmo contexto”.  

Em junho de 2025, Câmara de Comércio dos Estados Unidos e a AmCham Brasil (maior Câmara de Comércio estadunidense fora dos Estados Unidos) apresentaram uma declaração conjunta intitulada “Proposta de Cooperação Brasil-Estados Unidos em Minerais Críticos”. Com o objetivo de criar diretrizes para ações conjuntas a partir de cinco estratégias, a declaração reforça a ideia do Brasil como país exportador de matéria-prima de baixo valor agregado, e os Estados Unidos, como o centro tecnológico capaz de refinar e processar minérios. Assim, argumentam que: 

O Brasil é um player global na mineração, especialmente em minério de ferro de alta qualidade, e detém a maior reserva de nióbio, a segunda maior de grafite e terras raras e a terceira maior de níquel. No entanto, exceto no caso do nióbio, o país ainda não é um grande processador mineral. Os Estados Unidos, por sua vez, possuem menores volumes de reservas, mas contam com empresas capacitadas no desenvolvimento de tecnologias de processamento e incentivos para reduzir a dependência de fornecedores únicos”. 

A tentativa de cooperação e as conversas com setores específicos brasileiros receberam, entretanto, um revés ante o tarifaço de Trump, em julho passado. Não à toa, a questão agora volta a ser usada como moeda de troca por parte do Brasil, como já argumentado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.  

Finalizo aqui retornando ao início dos textos desse dossiê: portanto, à relação entre imperialismo, Estados Unidos, capitalismo, Big Techs e terras raras.  

Veias do sul continuam abertas, As - debates sobre o imperialismo de nosso tempo

Parece óbvio, mas, às vezes, até o obvio precisa ser dito (novamente): os Estados Unidos têm praticamente o monopólio da tecnologia digital, a partir da concentração das mais importantes empresas de tecnologia: as “Big Eight”. Como empresas, buscam lucro e manutenção dos privilégios de classe que seus fundadores, proprietários e acionistas detêm. Assim, não desempenham um papel neutro, mas ideológico e político. Se constituem como as novas ferramentas informacionais usadas para fabricação de consenso, persuasão e coerção para manutenção da subserviência política e econômica da periferia. São práticas hegemônicas imperialistas, agora pelo domínio tecnológico, nessa relação que inclui iniciativa privada e governo na apropriação de riqueza mineral e na exploração de trabalho na periferia, enquanto se difunde, ainda, o capitalismo neoliberal e sua indústria 4.0 em suposto benefício de toda a humanidade.  

Como bem argumentam Utsa Patnaik e Prahbat Patnaik, “A invisibilidade do imperialismo hoje significa que ele se tornou ainda mais poderoso, não que desapareceu”. Frente a essa violência, conforme Pierre Bourdieu indica, o domínio tende a assumir uma forma ainda mais opressiva, porque altamente eficaz e, “nesse sentido, mais brutal”. 

Talvez agora seja um bom momento de se pensar no Brasil em termos de projeto de nação: na regulação dos mecanismos de controle informacionais, no acesso às terras raras e na industrialização tecnológica nacional. Se faz necessário agora, talvez mais do que nunca, desvelar a fábula e a roupagem virtuosa envolta na neutralidade tecnológica e entender como ela realmente é: uma ferramenta de poder que aprofunda as desigualdades inerentes ao modelo capitalista neoliberal. Por fim, em um período de uso irrestrito dessas tecnologias para o tão difundido home office, é preciso recuperar os espaços físicos para o (re)estabelecimento de lutas coletivas.

 

Camila Feix Vidal é professora no Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC), do Instituto de Estudos para América Latina (IELA/UFSC) e do Instituto Memória e Direitos Humanos (IMDH/UFSC). Contato: camila.vidal@ufsc.br e camilafeixvidal@gmail.com.   

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEsse conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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