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Big Techs, IA e colonialismo digital: da fábula do progresso ao pesadelo da desigualdade global (II)

Trump recebe CEOs das Big Techs, na Casa Branca, em 4 set. 2025 (Crédito: captura de tela do vídeo do canal ANI News no YouTube)

Por Camila Vidal* [Informe OPEU] [Imperialismo] [Big Techs] [Brasil] [Colonialismo digital] [Hegemonia]

Se a Terceira Revolução Industrial representava, na segunda metade do século XX, o advento da Internet e dos computadores; a Quarta seria caracterizada pela projeção, praticamente sem fronteiras, da Internet e do estabelecimento da Inteligência Artificial. As Big Techs são a expressão mais clara da chamada Indústria 4.0 – uma etapa revolucionária que, por ser tão recente, ainda estamos entendendo e aprendendo a lidar. Mais uma vez, a fábula que nos tem sido contada em muito se relaciona com a mesma acerca da revolução tecnológica e da globalização exposta por Milton Santos. A Indústria 4.0 nos é apresentada como o ápice do progresso humano e da neutralidade tecnológica, além de ferramenta de emancipação e liberdade. Apaga, assim, a representação da tecnologia como fruto de relações sociais com finalidades políticas e econômicas para manter uma estrutura capitalista, ao mesmo tempo que substitui o trabalho vivo pelo trabalho objetivado, distanciando o trabalhador, cada vez mais, da apropriação do fruto do seu trabalho. 

Livro – “Trabalho em Plataformas: Regulamentação ou Desregulamentação?” –  ABETNo Brasil, temos uma extensa literatura que trata do trabalho no mundo informacional, enfatizando como a revolução tecnológica vem alienando a força laboral e fragilizando ainda mais as condições de trabalho. Como novos frascos em velhas embalagens, a revolução informacional pode ser vista como responsável não pelo progresso, mas justamente pela regressão dos trabalhos laborais. Assim, explica Ricardo Antunes, 

outsourcing, por exemplo, vigente na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, pelo qual a classe trabalhadora laborava em casa, fora do espaço da fábrica, sem nenhum direito e sob condições de exploração ilimitados, atualmente se converteu no pomposo crowdsourcing, também desprovido de legislação protetora, adulterando a árdua história global do trabalho”.  

Assim, “O velho reaparece como novo, ressurgindo como ‘moderno’, sendo que a moderna proteção do trabalho é apresentada como ‘arcaica’”. Esse é o caso de uma infinidade de direitos trabalhistas que, depois de anos de luta coletiva e sindical, passam a ser vistos como arcaicos na era da flexibilização do trabalho e dos empreendedores de si mesmo, a exemplo da CLT, vilipendiada pela população brasileira mais jovem, como mostra uma reportagem recente.  

Paradoxalmente, na era da mais ampla e profunda revolução tecnológica, a força laboral nunca esteve tão precarizada e, ao mesmo tempo, tão romantizada. Como bem argumenta o neoliberal Friedrich Hayek, 

O estado de opinião que rege uma decisão sobre questões políticas é sempre o resultado de uma evolução lenta, que se estende por longos períodos e se estende em diversos níveis. Novas ideias começam entre poucos e vão se espalhando até se tornarem posse de uma maioria que pouco sabe de sua origem”.  

São várias as instituições que se ocupam de difundir e fabricar esse mesmo consenso capitalista neoliberal mundo afora. No Brasil, para além da proliferação dos institutos ditos liberais, instituições e intelectuais orgânicos estadunidenses e brasileiros atuaram conjuntamente para a reforma do Novo Ensino Médio e, mais recentemente, para promover, nos ciclos fundamental e médio, as benesses do capitalismo e do empreendedorismo – caso do programa Mais Unidos, que conta com a atuação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), da Embaixada dos EUA no Brasil e de grandes empresas estadunidenses.  

Um parêntese se faz necessário aqui. As supostas benesses que a revolução tecnológica trouxe para o país porta-voz do capitalismo transformou-o em uma sociedade de serviços, ao mesmo tempo que privatizou amplos setores de serviço público. Lá, a romantização da flexibilização do trabalho, da economia de compartilhamento e da emancipação laboral que caracteriza o indivíduo como empreendedor de si mesmo; convive com dados alarmantes de pobreza, desigualdade e precarização da força laboral.  

Desde a década de 1970 e, sobretudo, após a eleição de Ronald Reagan na década seguinte, sindicatos foram dissolvidos no país e, com eles, importantes conquistas que as classes trabalhadoras tinham assegurado desde a crise de 1930. Atualmente, apenas 10% dos trabalhadores são sindicalizados. Na iniciativa privada, são meros 6%. Mais de 1/3 dos trabalhadores (36%) não têm trabalho fixo e fazem parte da chamada Gig economy (os famosos “bicos”). Os Estados Unidos são a única economia avançada, onde o empregado não tem direito a férias pagas (um em cada quatro trabalhadores não tem férias nem feriados remunerados). Nos últimos anos, quase metade (41%) não tirou férias.  

No país da inovação tecnológica, não existe requisito legal (federal) que garanta licença de saúde remunerada (ainda que alguns estados possam ter uma legislação própria, geralmente não excedem 10 dias de licença). Não existe uma lei federal que garanta direitos a remuneração superior para trabalhos com alta periculosidade. Nesse país, não há obrigatoriedade legal para licença-maternidade. Em torno de 58% das empresas pagam um único salário-mínimo durante a licença. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os Estados Unidos são um dos três únicos países do mundo que não oferecem licença-maternidade remunerada por lei, junto com Ilhas Marshall e Papua Nova Guiné. Por fim, segundo a Federação Sindical Internacional, os Estados Unidos são o país desenvolvido que menos respeita os direitos dos trabalhadores (Projeto Villar). 

‘Projeto Villar’ expõe face sombria do ‘Sonho Americano’

A reunião entre o capitalismo, a tecnologia e a ausência de estrutura pública para segurança social, implica um dos piores índices de pobreza dos países desenvolvidos. Na maior economia do mundo, 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, concentrando a maior taxa de pobreza infantil entre todas as nações da OCDE. Quase metade das pessoas sem-teto (40%) vive nas ruas, porque perdeu o emprego. De acordo com o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano nos Estados Unidos, 21% do número de sem-teto no país corresponde a crianças. Anualmente, 2,5 milhões de crianças (metade delas, menores de 6 anos) passam a noite nas ruas. Idosos ocupam o maior segmento desse grupo: representam 50% do total das pessoas sem-teto. Ou seja, no país porta-voz do capitalismo e da revolução informacional que concentra a maior economia mundial, um número nada desprezível de idosos e crianças vivem ao relento.  

O país escancara a desigualdade inerente a essa estrutura econômica, se levarmos em consideração que a diferença entre os mais ricos e os mais pobres dobrou entre 1989 e 2016. O 1% mais rico arrancou US$ 50 bilhões dos 90% mais pobres nesse país. Apenas três indivíduos têm o mesmo patrimônio que a metade mais pobre do país, ou seja, que 160 milhões de pessoas. Ainda assim, a lógica capitalista neoliberal segue intocável. As condições de vida são, para o bem ou para o mal, mérito ou culpa própria. Vemos, assim, alguns poucos gigantes corporativos inseridos em uma sociedade altamente desregulamentada que controlam a técnica e a inovação tecnológica, ao mesmo tempo que precarizam as condições de trabalho para maiores lucros aos primeiros. Na periferia, a lógica segue a mesma. 

Alguns autores, como Deivison e Lippold, na obra Colonialismo Digital (Boitempo, 2023), entendem que há, atualmente, um novo tipo de colonização ocorrendo, em meio à Revolução 4.0: de um lado, o centro mantém o monopólio da indústria da informação sediado nas Big Techs (a exemplo de Alphabet, Apple, Amazon, Meta, Microsoft, Ndivia, Tesla Open AI); de outro, a periferia gera lucro, ao consumir essa tecnologia e fornecer matéria-prima para a manutenção da mesma. Nessa “colonização digital”, as grandes corporações tecnológicas podem ser vistas como as novas Companhias das Índias, em que “sua violência muitas vezes sutil produz a precarização nada suave do trabalho e aponta para uma submissão social enredada e gamificada que forma sujeitos à servidão maquínica e aos sistemas algorítmicos das grandes empresas do norte global”. Nesse sentido, o imperialismo pela “hegemonia tech” mantém o padrão colonial de dependência da periferia em relação ao centro. Não se trata de uma “nova economia”, ou de uma “nova era”, mas de uma economia capitalista adaptada à revolução informacional que acelera e intensifica ainda mais a extração da mais-valia.  

Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana | Amazon.com.brEssas grandes corporações têm exercido um monopólio tecnológico informacional e uma concentração de poder como possivelmente jamais vista, ao menos não como essa amplitude. São as empresas mais valiosas do mundo e, ao terem esse poder econômico, também exercem o poder político. Basta lembrar a proximidade do atual governo Donald Trump  com CEOs dessas mesmas empresas, a exemplo da nomeação de Elon Musk como “funcionário especial do governo” para atuar à frente do então recém-criado Departamento de Eficiência Governamental. A disputa continua sendo, portanto, aquela pelo controle material, para maiores lucros – sobretudo, na periferia –, e pelo controle ideológico, para manutenção de políticas, grupos e governos subservientes ao hegemon 

Se antes isso era feito pelos conglomerados midiáticos a serviço do capital, agora esse papel é compartilhado com as Big Techs. Com mais eficácia, rapidez e sucesso que técnicas anteriores, os gigantes tech coletam dados de seus usuários, o que permite maior vigilância e controle para persuasão. Nesse sentido, vale lembrar a reportagem do semanário The Economist, evidenciando que os dados são, hoje, os recursos mais valiosos do mundo, superando o petróleo. Como o saque de informações é transformado em ativos econômicos, o controle dos dados permite não só a propaganda, mas a espionagem, as guerras híbridas, o fortalecimento de movimentos reacionários e, como não poderia deixar de ser, o controle político.  

As Big Techs têm um vínculo estreito com o poder político nos Estados Unidos e servem como ferramenta para manutenção hegemônica desse mesmo país. Longe da neutralidade técnica que a fábula da Revolução 4.0 nos conta, elas desempenham um papel importante para a preservação do sistema de classes e para o domínio (neo)colonial estadunidense na periferia. Como já era de se esperar, prosperaram a partir de recursos públicos, enquanto privatizam os lucros. O governo estadunidense foi o primeiro grande investidor do Vale do Silício durante a Guerra Fria, em uma tentativa de conter a evolução tecnológica soviética. O Departamento de Defesa foi responsável por pesquisas e pela produção da Internet, dos computadores e do GPS. O governo Trump apenas explicita a relação público-privada com as Big Techs. Recebeu, na sua campanha eleitoral em 2024, vultuosos recursos dessas empresas, prontamente retribuídos em editais para modernização tecnológica das instituições governamentais, a exemplo do próprio Pentágono.  

Foi no âmbito dessa relação intrincada entre o público e o privado que a OpenAI realizou doação de US$ 1 milhão para o governo Trump. Uma das empresas mais valiosas do mundo, quando criada, em 2015, difundia a fábula tech que previa o uso da Inteligência Artificial e dos avanços tecnológicos para benefício de toda a humanidade. Em documento apresentado em 13 de março de 2025 para o governo Trump, entretanto, a fábula é desvelada ao manifestar o uso dessa mesma tecnologia para manutenção da hegemonia e liderança estadunidense.  

De acordo com o documento: “As propostas políticas da OpenAI focadas na liberdade, tomadas em conjunto, podem fortalecer a liderança dos Estados Unidos na IA e, ao fazê-lo, desbloquear o crescimento econômico, garantir a competitividade americana e proteger a nossa segurança nacional”. Assim, argumenta: “Nós propomos uma abordagem holística que permite a parceria voluntária entre o governo federal e o setor privado e neutraliza […] o RPC [China]”. Por fim, “Propomos uma estratégia que aplicaria uma lente de crescimento comercial […] para promover proativamente a adoção global de sistemas de IA americanos”. 

Pode causar estranheza uma gigante da tecnologia defender o uso dessa mesma tecnologia para fins políticos, econômicos e, inclusive, militares. De fato, estamos presenciando, concomitantemente, a modernização na tecnologia de defesa dos EUA e a militarização das Big Techs a serviço desse primeiro. Meta, Google e OpenAI retiraram cláusulas nas suas políticas corporativas que proibiam o uso de Inteligência Artificial em armamento. Em abril de 2025, um decreto executivo de Trump estabelece um plano de modernização tecnológica para o setor da Defesa (a exemplo de tecnologia para drones) com aporte de US$ 1 bilhão — direcionados, grande parte, para o Vale do Silício. Em agosto de 2025, na Virgínia, executivos da Meta, OpenIA, Thinking Machines Lab, Palantir, entre outros, foram nomeados tenentes-coronéis da recém-criada Unidade de Inovação Técnica (Destacamento 201) do Exército. Por serem, agora, tenentes-coronéis, juraram lealdade aos EUA em cerimônia protocolar. Já em setembro de 2025, os CEOs da Meta, Apple, Google, Microsoft e OpenAI participaram de um jantar com Trump, no qual foi acordado o investimento de US$ 1 trilhão nos EUA de Trump (Clarín). 

No próximo informe deste minidossiê, entro na última parte da minha exposição: a manutenção hegemônica e o acesso a matérias-primas no século XXI.

 

Camila Feix Vidal é professora no Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC), do Instituto de Estudos para América Latina (IELA/UFSC) e do Instituto Memória e Direitos Humanos (IMDH/UFSC). Contato: camila.vidal@ufsc.br e camilafeixvidal@gmail.com.   

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEsse conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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