Caminhos do imperialismo dos Estados Unidos no Oriente Médio e na América Latina
Crédito: GECI/Instagram
Por Bruno Huberman e Rodrigo Amaral* [Informe OPEU]
Em artigo recém-publicado na revista Middle East Critique, intitulado “Hegemony and Resistance: US Imperial Strategies in Latin America and the Middle East After the Cold War”, oferecemos uma análise comparativa das estratégias imperialistas dos Estados Unidos na América Latina e no Oriente Médio, do século XIX ao período pós-Guerra Fria, com base em uma compreensão gramsciana de hegemonia. O estudo examina como os EUA buscaram estabelecer e manter uma ordem hegemônica em ambas as regiões e como diversas formações sociopolíticas regionais resistiram a esses esforços.
Neste breve Informe OPEU, fazemos uma reflexão introdutória do artigo, contendo trechos selecionados e traduzidos.
O segundo mandato de Donald Trump começou com a deportação de imigrantes latino-americanos, a perseguição de dissidentes políticos sob o pretexto de combater o antissemitismo, o uso de tarifas comerciais como instrumento político, ataques militares contra países que não representam uma ameaça iminente e o desejo de tomar territórios estrangeiros — como Gaza e Panamá. Esses processos demonstram que a lógica imperial norte-americana para a América Latina e o Oriente Médio não estão tão distantes.
Trump deu sinal verde a Israel para continuar sua campanha de bombardeios indiscriminados contra os palestinos e suspender toda a ajuda humanitária, agravando a fome em Gaza, que já havia começado sob o governo democrata de Joe Biden (2021-2025). Em junho de 2025, os EUA bombardearam instalações atômicas iranianas depois que Israel atacou o Irã durante as negociações sobre o acordo nuclear. Em outubro, Trump anunciou um “plano de paz” para Gaza, pedindo que o Hamas e Israel “encerrassem a guerra”, reconstruíssem Gaza e estabelecessem uma governança palestina sob supervisão internacional — proposta que revive antigas estratégias imperialistas.
Essa lógica se insere em uma longa trajetória histórica: dos mandatos europeus no Oriente Médio pós-otomano aos projetos de reconstrução estatal dos EUA no Iraque e no Afeganistão — voltadas a remodelar os Estados regionais sob supervisão ocidental, justificadas por alegações de incapacidade para o autogoverno e servindo como medida contrarrevolucionária.
Na América Latina, as ações imperialistas são menos militares, mas igualmente agressivas. O governo Trump impôs uma tarifa comercial de 50% ao Brasil, apesar de o país apresentar superávit comercial com os EUA, mirando o Judiciário por restringir as grandes empresas de tecnologia americanas e por processar Bolsonaro por uma intentona após as eleições de 2022. Trump também impôs uma tarifa de 50% sobre o cobre, afetando gravemente o Chile, maior produtor mundial. Além disso, há suspeitas de que os Estados Unidos tenham conspirado em uma tentativa de golpe na Colômbia para derrubar Gustavo Petro. Em um possível ponto de inflexão na política norte-americana para a América Latina, Trump lançou uma escalada militar contra a Venezuela sob o pretexto de combater o tráfico de drogas, retratando o governo de Nicolás Maduro como um “regime criminoso envolvido em tráfico de drogas em larga escala”. Todos esses países são governados por líderes de esquerda: Lula no Brasil, Boric no Chile, Petro na Colômbia e Maduro na Venezuela.
No plano interno, Trump utilizou a perseguição a imigrantes para fundir as “guerras” contra as drogas e o terrorismo em um projeto mais amplo de eugenia e pacificação da sociedade americana. A Immigration and Customs Enforcement’s (ICE) se tornou uma força policial política que mira comunidades latinas trabalhadoras e imigrantes solidários à Palestina. Deportações em massa para países de origem ou para o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), em El Salvador, evidenciam o caráter racializado dessa perseguição. Trump reforçou a ligação entre drogas e terrorismo ao descrever Maduro como um líder “narcoterrorista” e ao pressionar o governo brasileiro a classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) — uma grande organização de tráfico de drogas que atua da América do Sul à Europa e à África — como grupo terrorista, justificando a imposição de sanções. Trump também ofereceu uma recompensa de US$ 10 milhões por informações sobre as operações financeiras do Hezbollah na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Essa guerra ao “narcoterrorismo” já aumentou a perseguição a cidadãos árabes e muçulmanos na América do Sul, demonstram Cheaito e Freixo (imagem abaixo).

Imperialismo dos EUA e a luta por hegemonia regional
Na América Latina e no Oriente Médio, observamos como as diversas estratégias dos EUA em impor sua hegemonia sobre as periferias provoca a erosão da soberania popular. Intervenções militares, golpes de Estado e cooptação de elites locais estão entre as características definidoras do imperialismo liderado pelos Estados Unidos em ambas as regiões. A ortodoxia econômica mantém as duas regiões dependentes dos centros industriais, enquanto a burguesia dependente continua a lucrar com essa desigualdade estrutural. A agressão violenta contra forças nacionalistas e socialistas durante a Guerra Fria, seguida pela promoção do neoliberalismo por meio do endividamento e da austeridade, produziu uma profunda desarticulação social que deu origem a novas formas de organização entre as classes subalternas em luta por sobrevivência e liberdade: cartéis de drogas e grupos islâmicos, respectivamente.
Após a Guerra Fria, as “guerras” neoliberais contra inimigos abstratos — drogas, terrorismo, imigração e corrupção — legitimaram intrusões imperialistas no Sul Global. Essas ameaças também justificaram a construção global de Estados de segurança nacional que visam a populações racializadas por meio de táticas de contraterrorismo, vigilância e militarização de fronteiras. As consequências são guerras intermináveis voltadas para o extermínio, encarceramento em massa e superexploração das classes trabalhadoras. O objetivo final é controlar as populações excedentes geradas pelas novas cadeias globais de valor e pelas políticas de austeridade neoliberal, nas quais a guerra e a produção de segurança se tornam veículos de acumulação de capital.
Apesar das conexões entre as regiões, há diferenças significativas. Diferentemente da América Latina, onde as elites nacionais vêm implementando a “guerra às drogas” desde os anos 1980 contra organizações que almejam o lucro — não o poder político —, as intervenções dos EUA no Oriente Médio sob a bandeira da “Guerra Global ao Terror” são tipicamente agressões militares diretas contra grupos políticos que buscam tomar o poder estatal ou contra Estados acusados de “apoiar redes terroristas”. Essa diferença se manifesta na agressão militar contra o Irã e na pressão sobre o Brasil para intensificar sua repressão às organizações criminosas.
Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos intervieram — direta ou indiretamente, por meio de seus aliados subimperialistas, como Arábia Saudita, Israel, Turquia e Emirados Árabes Unidos — no Iraque (1990-1991 e 2003-2011), Afeganistão (2001-2021), Líbia (2011), Síria (2011-2024), Bahrein (2011), Iêmen (2014-2023), Sudão (2023-presente) e Irã (2024-2025). Além disso, ajudaram a promover golpes na Venezuela (2002), Honduras (2009), Paraguai (2012), Brasil (2016) e Bolívia (2019), bem como tentativas de golpe na Nicarágua (2018) e na Guatemala (2023). Essas ações foram acompanhadas pela perseguição de lideranças políticas de esquerda e pelo fortalecimento de forças de extrema direita em todo o continente, configurando uma estratégia hemisférica de contenção das alternativas progressistas e de reforço de alianças alinhadas aos interesses norte-americanos.
Enquanto a DEA (sigla em inglês para Agência Antidrogas dos EUA) é, de fato, um ator imperial com presença direta na América Latina, os Estados Unidos exercem primazia sobre quase todas as elites latino-americanas — incluindo as nominalmente de esquerda —, o que lhes permite fomentar golpes, perseguição política, militarização de fronteiras e repressão social sem recorrer a intervenções militares diretas. Mesmo em nações anti-imperialistas como Venezuela, Bolívia e Cuba, os EUA têm preferido — até o momento — impor sanções e promover mudanças de regime por meio de atores locais, em vez de ações militares diretas como as vistas no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria.
Nós não entendemos hegemonia apenas como superioridade militar e financeira. Empregamos uma compreensão gramsciana do termo, em que, na esfera internacional, uma potência dominante lidera uma ordem baseada não apenas em sua superioridade material, mas também na aceitação geral de sua liderança. Em outras palavras, trata-se da equação entre força e consenso. Para Gramsci, hegemonia é um conceito usado para analisar o equilíbrio de poder em cada sociedade. Uma ordem hegemônica é aquela em que o consentimento, e não a coerção, caracteriza as relações entre classes, Estado e sociedade civil. O Estado é o espaço onde ocorre a luta de classes e, portanto, onde as hegemonias das classes dominantes podem ser construídas.
Como afirma Van der Pijl, os ciclos hegemônicos na política mundial devem ser explicados por configurações específicas de classes dominantes unidas por programas comuns ou conceitos abrangentes de controle. Esses conceitos são fórmulas políticas que conferem coesão e força ao domínio de determinadas classes e frações de classe, traduzindo interesses idealizados em orientações estratégicas para a sociedade como um todo.
No caso dos EUA no século XXI, essas ações vão além da prática militar, combinando dispositivos ideológicos e econômicos intervencionistas para manter a dominação entre seus aliados (Brasil, Arábia Saudita, Israel) ou cooptar seus adversários (Venezuela, Cuba, Irã). A hegemonia americana, portanto, combina superioridade militar e financeira com liderança ideológica, por meio da disseminação de valores neoliberais por ONGs, think tanks e pela indústria cultural, além de liderança política exercida mediante alianças e coalizões facilitadas por organizações internacionais (OIs), como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organização dos Estados Americanos (OEA), que garantem o consentimento.
Argumentamos que essas diferenças decorrem, principalmente, da hegemonia duradoura dos EUA sobre a América Latina, estabelecida no século XIX e mantida, ainda que contestada, até o presente. Enquanto no Oriente Médio, o imperialismo americano nunca conseguiu estabelecer a sua hegemonia.
Hegemonia contestada na América Latina
A hegemonia norte-americana na América Latina foi construída por meio de guerras e golpes ao longo dos séculos XIX e XX, mas, desde a Guerra Fria, tem-se sustentado, sobretudo, pela dependência econômica, pela militarização associada à guerra às drogas e pela fabricação do consentimento, por meio da promoção de valores neoliberais através de OIs e ONGs, demonstra Camila Vidal (imagem abaixo). O racismo anti-latino, que retrata os povos da região como criminosos e traficantes, legitima intervenções dos EUA na Venezuela, Bolívia, Colômbia e Brasil, ainda que de forma menos violenta do que no Oriente Médio.

As nações latino-americanas não são enquadradas como uma ameaça existencial, como ocorre com o mundo islâmico, embora os imigrantes latinos sejam representados como um perigo à integridade da sociedade norte-americana. Embora Trump tenha fortalecido o papel do USSOUTHCOM (Comando Sul dos EUA), por meio da cooperação militar e educacional com as forças armadas latino-americanas, e de Washington ter exercido pressão sobre a Venezuela com sanções e agressões militares, a escala da violência direta na região permanece limitada. Essa moderação no uso da força militar pelos EUA abriu espaço para táticas hegemônicas alternativas de fabricação do consentimento.
Forças anti-imperialistas, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no Brasil, e a CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), no Equador, têm, em grande parte, favorecido formas não violentas de resistência. Partidos socialistas, como o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), da Venezuela, e o MAS (Movimento ao Socialismo), da Bolívia, optaram pela via eleitoral, em vez da luta revolucionária para alcançar o poder político. Washington continua a depender, principalmente, da lealdade das elites locais para conter forças progressistas, ao mesmo tempo em que se apoia nas atividades de ONGs, OIs, corporações transnacionais, indústria cultural e outros aparelhos hegemônicos. A maioria dos golpes e repressões políticas foi conduzida de forma autônoma por iniciativas domésticas.
A ausência de grandes conflitos regionais reflete a força da hegemonia norte-americana e também uma mudança na atuação do Brasil como líder regional. O país exerce um papel contraditório na sustentação dessa ordem hegemônica. Embora tenha deixado de atuar como um ator subimperialista que confrontava, coercitivamente, movimentos nacionalistas e socialistas durante a Guerra Fria, o Brasil nunca adotou uma postura anti-imperialista, mesmo sob os governos progressistas do Partido dos Trabalhadores. Sua permanente cooperação com a Argentina — apesar das divergências ideológicas entre os governos de Bolsonaro-Fernández (2019-2023) e Lula-Milei (2023-presente) — ilustra essa transformação. No entanto, o veto do Brasil à entrada da Venezuela no BRICS, influenciado por suas elites domésticas, revela seu papel na reprodução da hegemonia dos Estados Unidos. A postura tímida brasileira diante das ameaças de agressão militar de Trump, em seu atual mandato, contra a Venezuela demonstram a continuidade desse padrão. O uso excessivo de violência por parte dos EUA, copiando a estratégia empregada no Oriente Médio, pode, contudo, minar as bases da sua própria ordem hegemônica.
Resistência à hegemonia no Oriente Médio
Em contraste, as potências ocidentais nunca garantiram hegemonia comparável no Oriente Médio, onde o acesso a mercados e a recursos permanece contestado, apesar de regimes autoritários apoiados pelos EUA assegurarem o controle ocidental sobre o petróleo. O imperialismo norte-americano continuou a depender de guerras travadas diretamente, ou por meio de seus aliados — Israel, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU) —, contra os remanescentes Estados pan-arabistas (Iraque, Líbia e Síria); forças contra-imperialistas que compõem o Eixo de Resistência (Irã, Hamas, Hezbollah e Ansar Allah); grupos salafi-jihadistas, como o Talibã, a Al-Qaeda e o ISIS; e revoluções populares em vários países, da Tunísia ao Bahrein.
Os Estados Unidos tentaram, inicialmente, construir sua hegemonia na região durante a Guerra Fria por meio do Pacto de Bagdá (1955) e do Acordo de Paz de Camp David (1979). Ambos foram frustrados por revoluções nacionalistas. Após o fim da Guerra Fria, movimentos insurgentes continuam a impedir a consolidação da hegemonia norte-americana. A Guerra do Golfo (1990-1991) marcou uma tentativa de estabelecer uma hegemonia baseada no direito internacional e no livre-mercado. A Segunda Intifada e os ataques do 11 de Setembro frustraram esse projeto e inauguraram a “Guerra ao Terror”.
O início do governo Barack Obama (2009-2017), que buscou uma reconciliação com as nações árabes após as ocupações do Afeganistão e do Iraque, representou uma segunda tentativa de construção hegemônica. A Primavera Árabe e as consequentes contrarrevoluções apoiadas pelos EUA na Líbia, Síria, Iêmen e Egito interromperam esse projeto. A terceira tentativa ocorreu com os Acordos de Abraão, promovidos por Donald Trump em seu primeiro mandato (2017-2021), que buscavam ampliar os laços entre Israel e países árabes. Em seguida, o democrata Joe Biden tentou incluir a Arábia Saudita, avançou com o IMEC (corredor Índia-Oriente Médio-Europa) para competir com a Rota da Seda chinesa e propôs uma espécie de “OTAN do Oriente Médio” para isolar o Irã. O projeto de construir um “Oriente Médio pós-americano” sob a sua hegemonia acabou interrompido pelos ataques de 7 de outubro, que desencadearam uma nova onda de agressões contra Palestina, Líbano, Iêmen e Irã.
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O excesso de violência por parte de Israel e dos Estados Unidos — através de guerras e de sanções desde o fim da Guerra Fria, somado ao abandono de antigos aliados durante a Primavera Árabe, como Hosni Mubarak no Egito — gerou desconfiança entre as elites dependentes, especialmente nas monarquias do Golfo, demonstram Menezes e Nasser. Ademais, o ímpeto colonial de Israel, que desde 1948 vem sabotando a criação de um Estado palestino, tem funcionado como um ator contraditório na construção da hegemonia norte-americana. Israel tem sido central no enfrentamento dos inimigos do imperialismo — desde as forças pan-arabistas até os movimentos islâmicos —, além de fornecer tecnologias e Inteligência empregadas na Guerra ao Terror e na repressão à Primavera Árabe. O país também liderou as agressões após os ataques de 7 de outubro de 2023.
No entanto, o comportamento de Israel como um rogue state desestabiliza a região e gera efeitos contrários: Israel minou os planos de paz neoliberal dos EUA após a Guerra do Golfo; a sua colonização contínua dos territórios palestinos alimentou as motivações tanto para os ataques de 11 de setembro quanto para os de 7 de outubro; e a solidariedade à Palestina durante a Segunda Intifada ajudou a catalisar a Primavera Árabe. Essa instabilidade perpetua os conflitos e obstrui a consolidação hegemônica do poder norte-americano. Embora a al-Qaeda, o Hamas e os movimentos da Primavera Árabe difiram ideológica e estrategicamente, todos rejeitam a dominação dos EUA e de Israel.
Em outubro de 2025, Trump impôs um cessar-fogo a Israel para pausar o genocídio em Gaza, restaurar laços entre aliados dos EUA e construir uma ordem estável e economicamente lucrativa para Washington. Apesar de os Estados Unidos terem garantido uma ampla rede de parceiros autoritários neoliberais — como ilustrado pela “cúpula da paz” encenada no Egito após o cessar-fogo em Gaza —, as contradições que deram origem à Primavera Árabe e a outras formas de resistência na região permanecem vivas.
Hegemonia, imperialismo e resistência
Portanto, as estratégias imperialistas dos Estados Unidos no Oriente Médio e na América Latina estão enraizadas na lógica neoliberal de “acumulação pelo desperdício”, que sustenta as guerras contra o “terrorismo” e as “drogas”. Isso faz da hegemonia uma questão fundamental tanto para compreender as formas de uso da força pelos EUA quanto para entender as formas de resistência. Enquanto na América Latina as classes dominantes são as principais responsáveis por reprimir as forças contra-hegemônicas e conter as populações excedentes, no Oriente Médio são os Estados Unidos e seus aliados que assumem diretamente a responsabilidade pelas guerras permanentes contra os movimentos de resistência.
Como observa Max Ajl, compreender o papel da resistência requer revisitar a noção de soberania política como uma dimensão crucial da transformação emancipatória. No caso do Oriente Médio e da América Latina, Irã e Venezuela se destacam, respectivamente, como as principais forças antagônicas ao imperialismo norte-americano. Ambos os países vêm sendo alvo de sanções dos EUA há muitos anos, mas suas estratégias de resistência se distinguem, significativamente, em razão dos contextos geopolíticos em que estão inseridos. A capacidade — ou a incapacidade — dos Estados Unidos de estabelecer hegemonia produz formas distintas de dominação e resistência.
Os casos de Irã e Venezuela mostram que a resistência ao imperialismo norte-americano assume formas distintas, moldadas por suas circunstâncias geopolíticas. A estratégia transnacional e armada do Irã — o chamado Eixo da Resistência — ilustra como a confrontação pode sustentar um bloco contra-hegemônico sob coerção prolongada. Já a experiência da Venezuela, em contraste, revela os limites da mobilização estatal sem um apoio regional ou militar mais amplo. Ainda assim, ambos os casos demonstram que a dominação imperial permanece incompleta: apesar das sanções e do isolamento, sua persistência e adaptabilidade reafirmam a resistência como uma força duradoura, capaz de redefinir a soberania e contestar a hegemonia dos EUA.
Embora a ação dos Estados Unidos na América Latina seja atualmente mais contida, sua hegemonia foi construída historicamente por meio de intensa violência, em paralelo com as práticas contemporâneas observadas no Oriente Médio. Como argumenta Samir Amin (2017), a expansão global da Doutrina Monroe criou uma dinâmica caótica de rogue state e intensificou as resistências — ilustrando, ao mesmo tempo, os limites da influência norte-americana no Oriente Médio e as fraturas internas da América Latina.
* Bruno Huberman é professor do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), pesquisador do INCT-INEU e vice-coordenador do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI). Contato: bhuberman@pucsp.br.
Rodrigo Augusto Duarte Amaral é professor do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), pesquisador do INCT-INEU, membro do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) e do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE). Contato: radamaral@pucsp.br.
** Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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