Trump e o Cáucaso: um golpe na influência russa
Presidente Donald Trump assina declaração conjunta trilateral com o presidente Ilham Aliyev, do Azerbaijão, e o primeiro-ministro Nikol Pashinyan, da Armênia, em 8 ago. 2025, no State Dining Room (Crédito: Daniel Torok/Foto oficial da Casa Branca/Flickr)
Por Leonardo Fernandes* [Informe OPEU] [Política Externa Trump 2.0] [Rússia]
No dia 8 de agosto de 2025, Donald Trump surpreendeu o mundo, ao mediar diretamente um acordo de paz entre Armênia e Azerbaijão, no coração do Cáucaso. Poucos dias antes da cúpula Trump-Putin no Alasca, em 15 de agosto, a jogada certeira de Washington no Cáucaso marcou a retomada do engajamento americano na região e também soou como um drible político de Trump sobre Vladimir Putin. O episódio se consolidou como um dos maiores reveses recentes do Kremlin, que vê com preocupação a expansão de influências externas em sua região histórica de projeção. A erosão de sua imagem de garantidor de estabilidade e segurança regional é, sem dúvida, um problema para Vladimir Putin.
A iniciativa do presidente norte-americano resultou no Trump Route for International Peace and Prosperity (TRIPP), um corredor político e econômico que projeta diretamente os EUA em uma área historicamente integrada à esfera de poder russa. O movimento foi comparado, em simbolismo, ao histórico acordo de Camp David nos anos 1970, e levou, inclusive, os líderes Nikol Pashinyan e Ilham Aliyev a indicarem Trump ao Prêmio Nobel da Paz – gesto carregado de significado diplomático.
O enfraquecimento de Moscou já vinha de antes. Em 2023, quando o Azerbaijão retomou o controle de Nagorno-Karabakh em uma ofensiva-relâmpago, a Rússia não conseguiu socorrer militarmente a Armênia, mesmo Yerevan sendo membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO). A percepção de abandono acelerou o desgaste da confiança armênia no aliado histórico. A situação se agravou em 2025, quando o governo Pashinyan decidiu congelar a participação do país na aliança, recusando-se a comparecer a compromissos multilaterais organizados por Moscou.
A perda de credibilidade russa se soma à dissolução do Grupo Wagner e à morte de oficiais militares-chave durante a Guerra na Ucrânia, fatores que reduziram ainda mais o alcance da política securitária do Kremlin. Além disso, com seus recursos humanos e materiais drenados pela guerra prolongada na Ucrânia, Moscou viu diminuir sua capacidade de projetar poder no sul do Cáucaso.
Nesse cenário, o TRIPP ganha contornos estratégicos ainda maiores: além dos dividendos diplomáticos, ele abre caminho para rotas econômicas e logísticas que ampliam a integração entre Europa e Ásia Central, oferecendo aos países do Cáucaso uma alternativa à Rússia como player regional.
Diante disso, a grande questão que emerge é: poderá a Rússia, sobrecarregada no front ucraniano e fragilizada na sua retaguarda estratégica, sustentar influência sobre os países do Cáucaso – ou estaremos diante de uma transição histórica em que seu papel dominante é gradualmente substituído por novos arranjos liderados por Washington? ![]()
* Leonardo Fernandes é graduado em História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Membro do Grupo de Trabalho de História Militar da ANPUH-PI, tem pesquisas publicadas pela Universidade de Yale. Atua como colunista de Relações Internacionais no jornal O Povo do Ceará.
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