As ameaças ao governo brasileiro se baseiam em uma falsa alegação de “déficit orçamentário” na balança comercial. Contudo, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil (MDIC), ocorre justamente o contrário. Desde 2009, o Brasil importa mais dos Estados Unidos do que exporta. No ano passado, o déficit na balança comercial foi de US$ 253 milhões para o Brasil. Assim, identifica-se uma falácia no discurso de Trump sobre a ameaça à sua segurança nacional e aos interesses de seu país. Tais variáveis evidenciam um movimento discursivo e ideológico que vem ganhando espaço e moldando a formulação de políticas.
Embora habitualmente empregadas como demérito e atribuídas às ações de “outros”, as palavras “ideologia” e “interesse” compõem a condução da política externa dos Estados Unidos ao longo da história. Todavia, na política internacional, pode ser traiçoeiro quando um governo se orienta, total ou parcialmente, por uma base ideológica. Nesse sentido, o novo governo expõe essa característica de forma bem incisiva, a exemplo da “recente imposição de uma tarifa comercial de 50% ao Brasil pelos Estados Unidos em resposta ao julgamento e à provável condenação do ex-presidente e aliado de Trump, Jair Bolsonaro (PL”, como bem argumenta o professor Vinicius Vieira (FAAP).
Recapitulando, na política externa dos Estados Unidos para a América Latina, é tradicional o uso de questões ideológicas para justificar ações de Washington para a região. Um exemplo dessa lógica pode ser identificado na Doutrina Monroe, um dos mais antigos pilares da política externa dos Estados Unidos e que estabelece a América Latina como parte da tradicional esfera de influência desse país. Embora seja uma política de duzentos anos atrás, ela ainda persiste no imaginário e nas ações da Casa Branca, sobretudo nos mandatos de Trump. A velha doutrina, agora repaginada, tem sido invocada por seus secretários de Estado, conselheiros e estrategistas sem nenhum pudor. O exemplo mais emblemático dessa reivindicação foi quando seu conselheiro e estrategista, Steve Bannon, pediu uma “Doutrina Monroe 2.0” no primeiro governo Trump (2017-2021). Mesmo após quatro anos, Trump e seus aliados não esqueceram a ideia. Essa persistência pode ser identificada, por exemplo, na biografia do atual secretário de Estado, Marco Rubio, o primeiro latino-americano a ocupar o cargo, mas um defensor assíduo de uma “tutela benevolente” dos Estados Unidos sobre a América Latina.
Desse modo, a questão econômica, tema central do governo Trump desde o primeiro mandato, adquire novos contrastes no segundo: um caráter mais ideológico sob a roupagem da extrema-direita embasado no movimento Make America Great Again (MAGA). Nesse sentido, grupos em defesa de um nacionalismo fundado na branquitude e na defesa dos valores cristãos, incomodados com um suposto favorecimento de minorias em políticas públicas nos últimos anos, se tornaram defensores do trumpismo e, no Brasil, do bolsonarismo. Em vista disso, mesmo com uma narrativa de Trump que claramente viola a soberania do Brasil, como a tentativa de ingerência sobre o Judiciário brasileiro, apoiadores de Jair Bolsonaro defendem a decisão de taxar o Brasil, expondo uma grande contradição dos autoproclamados patriotas. Ademais, a sinalização do interesse de Trump nos minerais estratégicos brasileiros, logo após o anúncio das tarifas, também reitera narrativamente as duas variáveis presentes na sua política: a ideologia e o interesse nacional dos Estados Unidos.
O tarifaço e o movimento transnacional do MAGA
Em 30 de julho, Trump assinou uma ordem executiva concretizando sua ameaça de sobretaxar o Brasil em 50%. Porém, diferente do que havia sido anunciado previamente, a medida poupou produtos-chave. Dentre eles: automóveis; eletrônicos; fertilizantes; madeira; pedras (ornamentais e para construção); produtos agrícolas (incluindo o suco de laranja), e aqueles relacionados aos setores de energia; aviação; e mineração (ferro, aço, alumínio, prata, ouro e cobre). Baseando-se em uma suposta “emergência nacional”, o decreto alega que a relação comercial entre os dois países ameaça a economia, a política e a segurança dos Estados Unidos.
Entretanto, segundo o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio de 1994 (Gatt 94) da Organização Mundial do Comércio (OMC), essa ordem executiva é injustificável e viola regras do direito do comércio internacional. O artigo XXI do Gatt, intitulado “cláusula de segurança nacional”, prevê que medidas desse gênero sejam aplicadas em casos de guerra, emergência nacional e proteção de interesses essenciais à segurança e integridade do país. O que, na prática, não acontece na relação comercial entre os Estados Unidos e o Brasil. Frente a isso, a decisão revela-se de cunho político-ideológico, associada ao processo do STF brasileiro contra Bolsonaro. Dessa forma, ela expõe um velho aspecto da política externa dos Estados Unidos para a América Latina.
A lógica da responsabilização da economia vem se transformando concomitantemente com a identidade da extrema-direita, associada ao nacionalismo e defesa dos valores cristãos. O principal movimento que espelha essa lente e a torna transnacional é o Make América Great Again, conhecido como MAGA. Utilizado por Trump em sua campanha à presidência dos Estados Unidos em 2016, o slogan parafraseia aquele utilizado na campanha eleitoral do republicano Ronald Reagan (1981-1989) nos anos 1980 – “let’s make america great again”. Segundo seus idealizadores, a ideia basilar é recuperar a influência, destaque e projeção de poder dos Estados Unidos que estaria sendo prejudicada pela atuação estrangeira, pelos imigrantes e pela globalização. Do ponto de vista econômico, o MAGA defende políticas protecionistas que marcaram a década de 1950, quando os Estados Unidos eram um dos principais fabricantes de produtos no mundo.
O erro estratégico de Trump tem origem na sua tentativa de não reconhecer a interdependência produtiva dos dias atuais. Além disso, entre o anúncio da sua ameaça e a efetiva assinatura do decreto, foi identificada a possibilidade de inflação nos lares estadunidenses, o que resultou na exclusão de 694 produtos do tarifaço. Desse modo, constata-se que a narrativa de imposição de tarifas ultrapassa o âmbito meramente econômico, consolidando-se como uma velha política que preconiza a ideologia e o interesse nacional em prol da manutenção do status quo estadunidense, em especial na América Latina.
Restrições a Moraes expõem o caráter ideológico
A lógica ideológica que move o “tarifaço” se estende para além da economia. A política externa do novo governo Trump tem operado como extensão de uma agenda interna polarizadora, que busca recompensar aliados e punir opositores, mesmo que estrangeiros. Nesse sentido, o ministro do STF Alexandre de Moraes, figura central na responsabilização dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e que vinha sendo sistematicamente atacado por lideranças da extrema-direita brasileira, passou a ser alvo também dos Estados Unidos.
A revogação do visto de Moraes e sua inclusão em investigações preliminares sob a Lei Magnitsky configuram um movimento político de forte carga simbólica. Cabe destacar que a legislação em questão permite sanções contra estrangeiros acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. A aplicação seletiva dessa lei, sem haver processo formal, denúncia fundamentada ou debate público sobre as supostas violações cometidas por Moraes, evidencia o uso da norma como ferramenta ideológica. Embora revestida de legalidade, a medida se insere numa lógica de revanche: enfraquecer a autoridade de um magistrado que simboliza a contenção institucional ao bolsonarismo e, por extensão, à extrema-direita em uma esfera de interesse dos Estados Unidos.
Esse gesto revela o funcionamento da chamada política externa do espetáculo: uma diplomacia baseada em ações performáticas, de alto impacto simbólico, que substitui os canais tradicionais de diálogo por demonstrações públicas de alinhamento ou ruptura. Ao sancionar uma figura-chave do Judiciário brasileiro, o governo Trump não apenas envia um recado direto ao STF, mas também fortalece seu discurso populista perante sua base interna, seus aliados internacionais e a audiência digital, que consome essas ações como parte da guerra cultural global. Nesse modelo, os Estados Unidos atuam como promotor de uma cruzada ideológica, em que seus instrumentos jurídicos e diplomáticos deixam de seguir parâmetros universais e passam a refletir os valores e antagonismos de uma agenda política radicalizada. A política externa torna-se palco de disputas morais, e não de interesses estratégicos tradicionais.
A perseguição simbólica a Moraes insere-se, portanto, no mesmo espectro político do tarifaço: ambas as ações instrumentalizam o poder do Estado para reafirmar os pilares da agenda MAGA, o nacionalismo econômico, a supremacia cultural branca e o desprezo por instituições liberais multilaterais. São capítulos de uma diplomacia ideológica que reafirma a centralidade do populismo de direita no cenário internacional, agora em nova fase.
Novo discurso, mesmo objetivo: o contínuo interesse dos Estados Unidos nos minerais críticos brasileiros
Em meio ao anúncio do tarifaço, os Estados Unidos manifestaram interesse nos minerais críticos e estratégicos brasileiros como um instrumento de barganha diante das tarifas impostas pelo governo Trump ao Brasil. Gabriel Escobar, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, chegou a se reunir com representantes do setor de mineração para sinalizar esse interesse. Embora alguns especialistas identifiquem o setor como estratégico para a negociação sobre a taxa imposta por Trump, o presidente Lula fez duras críticas a essa proposta, defendendo a soberania do Brasil sobre seus recursos.
Apesar do novo argumento, de que esses materiais são fundamentais para o fortalecimento da indústria de defesa dos Estados Unidos, o interesse não é uma exclusividade da gestão Trump. O governo Joe Biden (2021-2025) também manifestou seus anseios pelos minerais, alegando sobre sua imprescindibilidade para a transição energética dos Estados Unidos. Desse modo, a cobiça pelos minérios críticos brasileiros apenas veste uma nova roupagem.
São chamados de minerais críticos os elementos essenciais para setores estratégicos de um país e que podem, potencialmente, estar em risco de escassez ou baixa disponibilidade. São considerados no conjunto desses minerais principalmente os elementos essenciais para a defesa, tecnologia de ponta e transição energética. Apesar de cada país determinar quais minerais são estratégicos para si, eventualmente os interesses por esses elementos convergem, principalmente em setores mais disputados. Dentre os principais elementos que, em geral, são considerados como minerais críticos estão o lítio, cobalto, urânio, grafite, cobre, manganês, terras-raras e nióbio.
Considerando que minerais críticos são indispensáveis, por exemplo, na fabricação de veículos elétricos, painéis solares, semicondutores, baterias, turbinas eólicas, sistemas de defesa, equipamentos médicos e satélites, assegurar o acesso a eles trata-se, portanto, de uma questão de segurança nacional e econômica para os países. Nesse sentido, levando em consideração a atual competição entre Estados Unidos e China no cenário internacional, bem como que a China é um dos principais exportadores e consumidores de minerais críticos do mundo, viabilizar o acesso às reservas brasileiras se torna vital para os interesses estadunidenses. Salienta-se que a China detém 49% das reservas globais de terras-raras; o Brasil figura em segundo lugar, com 23%. Os Estados Unidos vêm buscando diminuir sua dependência de importação de minerais críticos da China, que desde 2023, passou gradualmente a controlar a exportação desses materiais. Em dezembro de 2024, em meio à escalada de tensões comerciais, a China chegou a proibir a exportação de elementos de aplicação militar para os Estados Unidos em retaliação à repressão aos chips chineses.
Assim, o Brasil figura como uma importante peça no tabuleiro geopolítico internacional. Bem articulada, a narrativa do governo Lula tem reforçado a soberania nacional frente a uma política externa estadunidense imperialista, ideológica e neocolonialista, que visa a extração e exploração sem promover o desenvolvimento social e econômico para essas regiões. O Brasil não recusou a negociação, mas deixou claro que sabe da importância de seus minerais, ratificada pelo fato de que 75% dos minérios brasileiros foram isentos das novas taxas. É possível observar ainda que a política externa dos Estados Unidos mantém os mesmos simbolismos e ferramentas de atuação da velha Doutrina Monroe, como a ideologia e a defesa dos interesses nacionais na busca pela primazia estadunidense no sistema internacional. ![]()
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Yasmim Abril M. Reis é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG). É pesquisadora colaboradora no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) nas áreas de Segurança e Defesa, líder de pesquisa voluntária no Laboratório de Simulações e Cenários na linha de pesquisa de Biodefesa e Segurança Alimentar (LSC/EGN) e Pesquisadora de geopolítica no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: reisabril@gmail.com.
Vanessa Passos Bandeira de Sousa é doutoranda em Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI/UERJ) e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG). Atualmente, é coordenadora do “Sementes de Futuro da Economia do Mar” (SFEM-FEMAR/EGN); líder de pesquisa de “Arranjos Metodológicos”, no Laboratório de Simulações e Cenários da Escola de Guerra Naval (LSC/EGN); vice-líder de “Tendências de Impacto Marítimo-Naval – TIMAN” (LSC/EGN); pesquisadora na Fundação de Estudos do Mar (FEMAR); no Grupo de Economia do Mar (GEM); e no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: vanessabandera@gmail.com.
Carolina Weber é Pós-graduanda em Jornalismo Digital e Comunicação pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) nas áreas de meio ambiente e energia e faz parte da equipe do Instagram e LinkedIn. Possui expertise com Comércio Exterior. Contato: carolinaweberds@gmail.com.
** Publicado originalmente em Le Monde Diplomatique Brasil, em 7 ago. 2025. Republicado no OPEU com a autorização das autoras. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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