Economia e Finanças

O conflito tarifário EUA-Brasil e as redes transnacionais do autoritarismo populista 

Presidente Trump anuncia tarifas sobre automóveis, em 26 mar. 2025, no Salão Oval da Casa Branca (Crédito: Casa Branca/Flickr)

Dossiê “Trump vs. O Mundo 

Por Sara Toledo* [Informe OPEU] [Dossiê] [Trump 2.0] [Tarifas] [Comércio] [Brics] [Brasil] 

A guerra tarifária entre os Estados Unidos e o Brasil, iniciada em 9 de julho de 2025 com a imposição de uma sobretaxa de 50% sobre todas as exportações brasileiras, vai muito além de uma simples disputa comercial. Trata-se de uma estratégia autoritária de alcance internacional, materializada pelo governo Trump — que publicamente apoia Jair Bolsonaro e critica o Supremo Tribunal Federal brasileiro —, como parte de um projeto para restaurar uma ordem antidemocrática.  

Esta ação representa a consolidação, mediante instrumentos econômicos, de uma aliança estratégica entre dois movimentos políticos que compartilham origens comuns, objetivos autoritários e métodos antidemocráticos: o trumpismo e o bolsonarismo. Longe de serem apenas versões locais de uma direita conservadora, essas forças constituem os principais articuladores de um novo autoritarismo globalizado, que utiliza o aparato estatal — incluindo suas funções diplomáticas e comerciais — para enfraquecer os fundamentos da democracia constitucional. 

Bolsonarismo como extensão do projeto trumpista 

Nesse contexto, o bolsonarismo funciona, simultaneamente, como braço periférico e laboratório político do trumpismo hemisférico. Sua retórica antiestablishment, sua lógica de mobilização popular direta e sua sistemática deslegitimação das instituições de controle — especialmente o Judiciário — fazem dele um instrumento eficaz para expandir a agenda trumpista no Sul Global. 

O plano bolsonarista ganhou fôlego, graças ao caráter transnacional da ultradireita populista radical, cristalizada na simbiose entre trumpismo e bolsonarismo. Essa engrenagem política não apenas violou a soberania nacional, mas buscou instrumentalizar a maior potência econômica e militar do planeta — historicamente parceira estratégica do Brasil no eixo americano–sul-americano — como vetor de pressão contra as instituições democráticas brasileiras. 

Entenda o funcionamento dessa rede transnacional: Promovendo a ‘democracia’ por meio do livre-mercado: o papel do CIPE na América Latina

A retaliação tarifária contra o governo Lula deve ser interpretada como uma operação de sabotagem institucional, destinada a criar pressão geopolítica sobre o Brasil, justamente quando suas instituições buscam finalizar a responsabilização penal do ex-presidente Jair Bolsonaro — figura central da insurgência antidemocrática contemporânea. A inclusão do ministro do STF Alexandre de Moraes, responsável pelos processos relacionados aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, em uma lista de sanções unilaterais emitida sob a Lei Magnitsky, torna explícita a tentativa de reverter, por meio de pressão externa, o curso da legalidade constitucional brasileira. 

Não se trata, como alegado, de defesa das “liberdades civis”, mas da projeção de um campo autoritário comum, onde a proteção dos aliados políticos transcende os limites da soberania nacional. Não se trata de mero desvio institucional, mas de um ataque estrutural, calculado para corroer a democracia por dentro, degradando-a a partir da captura das engrenagens que garantem sua vitalidade. Além de afrontar o pacto constitucional de 1988, esse processo revela uma estratégia de subversão política que opera pela infiltração e pelo desgaste sistemático dos pilares republicanos. 

Resistência institucional brasileira: o STF e o Itamaraty 

Neste cenário, a postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — ao rechaçar qualquer tentativa de interferência no sistema de justiça brasileiro — consolida-se como um gesto inequívoco de resistência institucional e de reconfiguração estratégica da inserção internacional do Brasil. Ao se recusar a negociar sob chantagem econômica, Lula não apenas defende princípios normativos abstratos, mas afirma, de forma prática e contundente, que a soberania jurídica e política do Estado brasileiro não é passível de barganha. Trata-se de um posicionamento que coloca o Brasil fora do tabuleiro de subserviências, reforçando o papel do país como ator autônomo em um sistema internacional tensionado por disputas ideológicas e por tentativas de instrumentalização econômica.  

No campo da política externa, o assessor de Política Internacional de Lula, o chanceler Celso Amorim, ao classificar o tarifaço trumpista como um “tiro no pé” e compará-lo a ingerências de regimes autoritários, reafirma o ethos histórico da diplomacia brasileira: autonomia decisória, compromisso com o multilateralismo e recusa à subserviência. Sua leitura geopolítica aponta que o Brasil não se curva à chantagem comercial e, ao contrário, fortalece vínculos estratégicos com parceiros como os BRICS, ampliando sua capacidade de enfrentar imposições unilaterais travestidas de política econômica.  

Ao lado de Alexandre de Moraes — cuja resposta pública qualificou as sanções americanas como parte de um “plano covarde e traiçoeiro” —, Lula compõe o núcleo da reação democrática contra um projeto autoritário que busca ultrapassar as fronteiras nacionais por meio de pressões econômicas dirigidas e de alinhamentos ideológicos. Essa reação coordenada, amparada por instituições republicanas sólidas, recusa a erosão da legalidade e se opõe a uma geopolítica baseada em lealdades políticas circunstanciais. Nesse eixo Executivo-Judiciário, a defesa da Constituição e da soberania nacional se torna um ato de política externa e de segurança institucional. 

As últimas semanas revelaram, em gestos e palavras, a natureza dessa resistência. Alvo de intimidações e de ataques orquestrados por figuras como Eduardo Bolsonaro e pela rede do bolsonarismo radical, Alexandre de Moraes respondeu com altivez — inclusive transformando o episódio do “dedo do meio” em um símbolo de irreverente coragem cívica diante das pressões. Nesse sentido, o alinhamento do STF com o Executivo, a atuação assertiva da Chancelaria sob Celso Amorim e o Itamaraty projetam internacionalmente a mensagem de que o Brasil não tolerará tentativas de intimidação — sejam elas de origem externa, sejam de grupos internos que pretendem subverter a ordem constitucional para satisfazer projetos de poder pessoais.  

Lula e Moraes selam aliança enquanto bolsonarismo protestaMoraes, Lula e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, no Desfile de 7 de setembro (Crédito: Ricardo Stuckert. Fonte: Blog do Esmael)

Contexto geopolítico e hegemonia em declínio 

Essa disputa, contudo, está longe de ser episódica. A imposição de tarifas pelo governo Trump — em meio à consolidação do BRICS ampliado e à crescente influência sino-asiática sobre o comércio e a infraestrutura do Sul Global — revela a tentativa desesperada de recompor, por vias coercitivas, um domínio hegemônico em franca erosão. 

Ao perceber no Brasil de Lula uma ameaça sistêmica à sua reconfiguração hemisférica, o trumpismo projeta no governo brasileiro uma imagem de deslealdade estratégica que não encontra respaldo empírico. A história das relações bilaterais recentes comprova que o Brasil jamais rompeu com os Estados Unidos — mas tampouco aceitou reduzir sua inserção internacional a uma posição de subordinação. 

A narrativa de que o Brasil teria se tornado uma plataforma para a expansão da influência chinesa na América Latina — especialmente após os avanços no âmbito do BRICS e os acordos bilaterais com Pequim — serve apenas como pretexto para ocultar o verdadeiro incômodo trumpista: a impossibilidade de impor alinhamento automático a uma liderança que, desde 2003, tem defendido uma arquitetura multipolar baseada na diplomacia diversificada e no respeito à soberania. 

Mais do que uma simples afinidade ideológica, o pacto velado entre o trumpismo e o bolsonarismo expõe a arquitetura política e cultural de uma ultradireita radical que se consolidou desde as convulsões sociais de 2013 e se fortaleceu no contexto da polarização política global. Alimentada pela lógica populista e por estratégias de deslegitimação sistemática das instituições, essa aliança revela semelhanças antidemocráticas evidentes: a recusa em reconhecer a autoridade de processos eleitorais legítimos; o ataque frontal aos mecanismos de freios e contrapesos; e a promoção de narrativas conspiratórias para justificar rupturas institucionais.  

É revelador que as tarifas tenham sido impostas, apesar de os Estados Unidos apresentarem superávit comercial com o Brasil desde 2021. Os dados — amplamente disponíveis — desmentem a alegação de que as tarifas seriam reação a um “desequilíbrio comercial injusto”. Ao contrário, trata-se de sanções com motivação claramente política, em defesa de um aliado autoritário e em ataque direto à institucionalidade democrática brasileira. O argumento econômico é apenas a linguagem visível de um projeto subjacente: a tentativa de submeter o Brasil à lógica autoritária que hoje caracteriza o trumpismo globalizado. 

A resposta estratégica brasileira 

Neste contexto, a resposta brasileira — que inclui o acionamento da Organização Mundial do Comércio (OMC), a rearticulação com a União Europeia, o fortalecimento do Mercosul e a intensificação das relações com os demais países do Sul Global — deve ser compreendida como reposicionamento estratégico. Trata-se de afirmar que o Brasil não aceitará que sua política externa seja tutelada nem pelo poder do dólar nem pela lógica do ressentimento populista. 

A crise tarifária não é, portanto, apenas um episódio no comércio bilateral: é o sintoma de um conflito muito mais profundo sobre os rumos da ordem mundial. A firmeza com que Lula e Moraes têm conduzido essa resposta revela que o Brasil não pretende ser o elo frágil de um projeto antidemocrático de escopo transnacional. 

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Frente ao recrudescimento da ultradireita populista norte-americana, deflagrada na retórica beligerante e antidemocrática de Donald Trump, o Estado brasileiro tem respondido com uma coesão institucional exemplar, erguendo um dique contra a erosão da soberania nacional e da legalidade democrática. A contundência de Alexandre de Moraes — ao advertir que “a Constituição não é sugestão, é ordem a ser cumprida” e que “quem atenta contra a democracia será responsabilizado” — alinha-se com a firmeza de Lula. Ao proclamar que “não há anistia para golpistas” e que “o Brasil não se curvará ao extremismo”, projeta um eixo de resistência sólido entre o STF e o Executivo. Essa aliança, ancorada na defesa intransigente do Estado de Direito, erige-se como baluarte contra as investidas corrosivas do trumpismo tropical e de uma ultradireita que, sob Bolsonaro, tentou relativizar a lei e subverter as instituições. 

Essa conjugação de firmeza interna e assertividade externa configura uma frente republicana capaz de enfrentar tanto as ameaças domésticas quanto as pressões transnacionais que pretendem instrumentalizar o Brasil nos delírios restauracionistas da alt-right global. Mais do que um incidente isolado de fricção diplomática, o embate em torno do tarifaço de Trump expõe uma disputa estrutural: de um lado, projetos autoritários de alcance transnacional; de outro, um Estado brasileiro que, apesar de suas vulnerabilidades, reafirma a soberania por meio de ação coordenada, legalista e impermeável à cooptação populista. Nesse contexto, Executivo, Judiciário e diplomacia convergem em um recado inequívoco: o Brasil não será cúmplice de crimes contra a democracia, nem permitirá que ambições pessoais de poder se sobreponham à Constituição e ao interesse coletivo. 

Vitalidade democrática do Brasil  

Portanto, não podemos esquecer o óbvio: a trama golpista-criminosa, cristalizada na Ação Penal (AP) 2668 — que imputa a Jair Bolsonaro crimes como tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa e danos ao patrimônio público nos eventos de 8 de janeiro de 2023 —, bem como o não reconhecimento desse crime pelo então ex-presidente, produziu uma turbulência sem precedentes nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Trata-se de um marco histórico na República brasileira, em que as instituições republicanas demonstraram notável resiliência e vigor ao resistir à articulação da ultradireita radical populista de matriz trumpista-bolsonarista. Essa resistência adquire relevo ainda maior quando se observa que, nos Estados Unidos, o assalto ao Capitólio foi politicamente relativizado e, em grande medida, poupado do rigor institucional que a gravidade do ato exigia. É, portanto, motivo de celebração que o Brasil tenha preservado sua ordem constitucional, reafirmando a vitalidade democrática em um cenário global marcado por ameaças crescentes à democracia liberal.

 

* Sara Toledo é Doutora em Relações Internacionais e pesquisadora do IRI-USP Contato: sara.toledo@usp.br. 

** Revisão e edição finais: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em 8 ago. 2025. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.  

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