Internacional

A relação do Conselho da Paz de Trump e o Banco Mundial 

Presidente Donald Trump participa da cerimônia de anúncio e assinatura do Board of Peace, durante o Fórum Econômico Mundial, em 22 jan. 2026, no Centro de Congressos de Davos, Suíça (Crédito: Casa Branca/Daniel Torok/Flickr)

Por Rúbia Marcussi Pontes* [Informe OPEU] [Conselho da Paz] [Banco Mundial]

Donald Trump mirou as organizações internacionais desde o primeiro dia de seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. No dia de sua posse, Trump retirou os EUA da Organização Mundial da Saúde (OMS), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), e do Acordo de Paris.  

Em fevereiro de 2025, o ataque do presidente Trump às organizações internacionais continuou com a Ordem Executiva 14199, que visava a revisar, em até 180 dias, todas as organizações internacionais e os tratados, dos quais os EUA faziam parte e contribuíam financeiramente, para que decisões sobre permanência ou saída fossem tomadas com base no alinhamento dessas entidades e nos renovados interesses estadunidenses no segundo governo Trump.  

Essa revisão excedeu o prazo inicialmente previsto, mas, em janeiro de 2026, a promessa se cumpriu com a retirada do país de 35 organizações não pertencentes à ONU e de 31 agências e organizações especializadas da ONU, totalizando a saída, sem precedentes, de uma nação de exatamente 66 organizações intergovernamentais simultaneamente. 

Alguns analistas – inclusive do Projeto 2025, manual de políticas desenvolvido pela conservadora Heritage Foundation para o segundo governo Trump – defendiam a revisão da participação dos EUA em todas as organizações internacionais. Isso incluía o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, mais conhecido como Banco Mundial) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas a saída das organizações tradicionais de Bretton Woods, nas quais os EUA detêm uma posição de poder privilegiada, não foi de fato cogitada pelo alto escalão do governo e não ocorreu. E, apesar de terem abandonado uma série de entidades do Sistema ONU, os EUA não se retiraram completamente da organização e continuam a marcar presença em sua Assembleia Geral e em seu Conselho de Segurança, onde detêm – e continuam a exercer – o poder de veto.  

Assim, nota-se a complexidade entre o discurso e a prática dos EUA de Trump e sua relação com as organizações internacionais centrais da ordem internacional. Contudo, ao mesmo tempo em que não as abandonou por completo, o país se destacou pela criação de outras instâncias, com destaque para o Conselho da Paz (Board of Peace). 

O Conselho da Paz de Trump 

O Conselho da Paz foi uma proposta de Donald Trump, de setembro de 2025, aprovada por resolução do próprio Conselho de Segurança da ONU em novembro do mesmo ano. Estabelecido de fato em janeiro de 2026, seu objetivo declarado é facilitar a negociação da paz entre Israel e Palestina e, posteriormente, coordenar os fundos destinados à reconstrução da Faixa de Gaza.  

Diversos países foram convidados a participar do Conselho, dentre os quais o Brasil, mas apenas 20 aceitaram, entre eles, Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito. Sua primeira reunião ocorreu ainda em janeiro de 2026, com diversas outras nações presentes como observadoras. Nesse contexto, vale ressaltar que a criação dessa entidade representa, na prática, mais um desafio para o já desgastado Conselho de Segurança da ONU, o principal espaço para a negociação de questões de paz e segurança internacionais. 

Trump passou a liderar o Conselho da Paz em sua capacidade individual, e não como presidente dos EUA. Logo, poderá continuar à frente da entidade mesmo após o término de seu mandato. Sete homens foram nomeados por ele para um mandato de dois anos, que pode ser prorrogado ou encerrado a seu critério, para conduzir os trabalhos do Conselho da Paz. São eles: o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio; o antigo conselheiro, genro e investidor imobiliário, Jared Kushner; seu enviado especial para o Oriente Médio dos EUA e investidor imobiliário, Steve Witkoff; o ex-primeiro-ministro inglês Tony Blair; o CEO da empresa de ativos Apollo Global Management, Marc Rowan; o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert Gabriel; e o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga. 

Cada membro desse Conselho Executivo é responsável por supervisionar uma área específica relacionada às questões da Faixa de Gaza. Nesse contexto, a presença do presidente do Grupo Banco Mundial borra os limites e o processo regular de atuação do BIRD como banco multilateral de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que escancara a perniciosidade da relação dos EUA com a instituição.  

Em anonimato, um funcionário de alto escalão do BIRD afirmou à Devex que “toda a estrutura do [Conselho da Paz] depende da credibilidade do Banco Mundial. Sem o aval do Banco, os investidores veriam isso como um esforço de reconstrução altamente politizado e sem prestação de contas independente (…). Banga concedeu essa credibilidade incondicionalmente”. 

Na prática, o papel do Banco Mundial na Faixa de Gaza ainda não está claro, mas, dada a presença de diversos profissionais do ramo imobiliário no Conselho, é evidente a busca por lucros e a parcialidade do órgão e de sua função de gestão de um território, reforçando o genocídio e a segregação da população palestina, que tem pouco ou quase nenhum poder na entidade. 

Isso parece se reforçar nas negociações para que um dos maiores bancos de investimento, o JPMorgan Chase, preste serviços bancários ao Conselho da Paz na chamada reconstrução da Faixa de Gaza. Embora funcionários do governo Trump tenham se recusado a comentar as tratativas com o banco, acrescentaram que o governo estava “explorando todas as opções que pudessem [nos] ajudar a levar assistência a Gaza da maneira mais eficiente e eficaz possível”. 

Os EUA de Trump se afastaram e se retiraram, em um ato sem precedentes, de uma série de organizações internacionais. Mas a permanência e a mobilização de outras, como discutido no caso do Banco Mundial, apontam para a sua importância persistente para a governança global e para um Estado central, mesmo em um contexto de desmonte da ordem internacional. Resta observar como e se outros Estados buscarão dar novos sentidos a elas.

 

Rúbia Marcussi Pontes é doutoranda e mestra em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), professora associada de Relações Internacionais do Centro Universitário FACAMP e pesquisadora do INCT-INEU. Contato: rubiamarcussi@gmail.com 

** A versão integral deste artigo foi publicada no site The Conversation Brasil, em 10 mar. 2026. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.  

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