América Latina

Seminários RELEU 2026: a intervenção dos EUA na Venezuela e os impactos para a América Latina 

Delcy Rodríguez toma posse como presidente da Venezuela, em 5 jan. 2026 (Crédito: Prensa Presidencial)

Por Victor Simões Bernardo* [Informe OPEU] [Venezuela] [Trump 2.0] [RELEU]

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos da América realizaram uma incursão militar sobre o território da Venezuela, que resultou no bombardeio de Caracas e no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores. Ambos se encontram detidos na cidade de Nova York, onde o chefe do Executivo será julgado por um tribunal norte-americano. As acusações contra Maduro são de: conspiração para o narcoterrorismo, conspiração para o tráfico de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos e, por fim, conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos. A invasão marca um evento inédito para a América do Sul, que nunca havia sofrido uma invasão direta dos Estados Unidos. 

As repercussões deste evento foram objeto do primeiro Seminário RELEU deste ano. Realizado em 3 de fevereiro de 2026, exatamente um mês após a invasão, o painel reuniu especialistas da região para discutir a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e seus impactos para a América Latina. O evento contou com a presença dos professores Matheus Oliveira (UFU) e Leandro Morgenfeld (UBA), como mediadores, e dos professores Gabriel Merino (Universidad Nacional de La Plata) e Carolina Silva Pedroso (UNIFESP) como palestrantes e debatedores da temática. 

Na visão de Merino, presencia-se um momento de transição de poder mundial, ou de “desordem multipolar”, que estaria marcado pela queda da hegemonia dos EUA. Para ele, três fatos demarcam esse processo: o surgimento da DeepSeek (Inteligência Artificial chinesa), que representa o grande salto tecnológico do país; a venda de carros elétricos da BYD, superando a marca estadunidense Tesla (de propriedade de Elon Musk); e, por fim, a expansão do BRICS/BRICS+, que indicaria o crescimento do multilateralismo.  

Ao analisar a invasão da Venezuela, Merino aponta para a figura do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, como elemento central para o entendimento do interesse estratégico sobre o Hemisfério Ocidental. Destaca, ainda, a construção da narrativa de que Maduro era um narcoterrorista, o que permitiria ao EUA, em nome da democracia, lançar uma invasão. Após a captura do presidente, essa narrativa será alterada para a questão da extração dos recursos naturais, especialmente, o petróleo. 

Para Carolina Pedroso, o petróleo é um elemento estruturante para entender as relações bilaterais entre Venezuela e EUA, haja visto que o recurso natural foi essencial para a máquina de guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, o ataque à Venezuela tem uma forte influência da retórica norte-americana de impedir a influência externa de outras potências, como China e Rússia. Por meio de uma digressão histórica, Carolina expõe os desdobramentos da Revolução Bolivariana com Hugo Chávez e Nicolás Maduro.  

Ao tratar do governo de Chávez, é importante ressaltar que, mesmo com a nacionalização do petróleo, ainda se manteve o comércio do recurso com os norte-americanos. Ao mesmo tempo, buscou-se novas parcerias, principalmente, Cuba. Já no governo de Maduro, em 2015, os EUA decretam uma ordem executiva que classifica a Venezuela como uma ameaça para a segurança norte-americana. Com isso, é instituída uma política sistemática de sanções contra o país sul-americano. Ela começa de maneira tímida, mas, com o governo Trump 1 (2017-2021), essas medidas de pressão foram ampliadas, chegando a acumular 900 sanções. Por fim, Pedroso aborda o caso da empresa Citgo (subsidiária da Petróleos de Venezuela S.A, PDVSA, nos EUA), que foi confiscada e usada como ativo político. Somado a isso, a Nova Lei de Hidrocarbonetos diminui a participação do Estado venezuelano na exploração de petróleo e flexibiliza os royalties para favorecer empresas estrangeiras. 

Com as exposições de ambos os palestrantes, é possível entender, de maneira profunda, as minúcias da invasão estadunidense sobre a Venezuela, compreendendo seu contexto histórico e as possíveis consequências para a América do Sul. A partir disso, Leandro Morgenfeld afirma que o momento atual é de uma volta do imperialismo, mas não em sua forma clássica. O segundo governo de Trump se insere em uma lógica mais territorialista, retomando os preceitos da Doutrina Monroe em uma versão reformulada. O chamado Corolário Trump aparece, claramente, no documento Estratégia de Segurança Nacional, divulgado no final de 2025. Em razão disso, questiona Merino se o cenário de Venezuela, Cuba e em toda América Latina seria um sintoma da transição de poder mencionada por ele. Morgenfeld menciona as parcerias chinesa e russa, indagando qual a posição de ambos os países ante a ofensiva, e, por fim, qual seria a repercussão nos EUA sobre a Venezuela.  

A resposta fornecida por Merino para a primeira pergunta é que o controle dos recursos naturais é um elemento fundamental para entender as dimensões do poder mundial. Nesse sentido, ele avalia que os Estados Unidos perderam, progressivamente, essa capacidade – seja pelos movimentos de nacionalização de recursos, seja pela expansão do comércio –, o que possibilitou a conquista desse espaço por outros países. É o caso da China, que importa 11 milhões de barris de petróleo diariamente. Merino comenta, ainda, a notícia de que os EUA passariam a negociar o petróleo venezuelano com a Índia, o que levaria o país asiático a deixar de comprar a commodity russa. Na visão do especialista, isso seria algo difícil de ser concretizado, devido à parceria histórica entre Índia e Rússia, fora a presença da China. Esses três países têm uma grande participação em instituições multilaterais emergentes, como o BRICS/BRICS+ e a Organização para Cooperação de Xangai. Já em relação à repercussão nos EUA, Gabriel explica que Trump busca o controle do petróleo venezuelano para garantir sua posição nas eleições do meio de mandato. Afinal, garantir o recurso natural conseguiria diminuir um pouco da pressão inflacionária existente nos EUA. 

Matheus Oliveira complementa a pergunta de Morgenfeld e questiona Pedroso sobre a percepção das comunidades latinas da Flórida, um setor de pressão ao governo, em relação a invasão à Venezuela. Nessa mesma chave, pergunta, ainda, se há indícios de que a invasão a Caracas seria o ponto de partida para uma invasão futura a Cuba.  

A professora Carol Pedroso inicia seu comentário, retomando o ponto sobre a ação de China e Rússia em relação à Venezuela, no contexto atual. Para ela, o país sul-americano não é prioridade para nenhum dos dois, visto que a Rússia está concentrada nos esforços de guerra contra a Ucrânia, e a China tem uma postura mais cautelosa nesse quesito. Em seguida, tratando do impacto no plano doméstico dos Estados Unidos, ela destaca que a figura de Nicolás Maduro é caracterizada como amplamente controversa na opinião pública de todo o continente americano. Assim, para a narrativa de Trump, a retirada de um tirano do poder seria considerada uma vitória diplomática e alvo de celebração, sobretudo, pela forma como a incursão militar ocorreu: sem baixas de norte-americano e sem danos aos ativos militares. Sobre a comunidade latina, em especial a venezuelana, Carol observa que há uma organização interna para que os Estados Unidos façam ingerências diretas no território venezuelano. Isso significa que o bombardeio lançado contra Caracas não foi recebido como negativo. Ela ressalta, contudo, que essa comunidade é crítica da manutenção de Delcy Rodríguez no poder, assim como de toda a cúpula sucessória. 

A invasão traz, portanto, questionamentos sobre a segurança dos demais territórios da América do Sul e sobre como Delcy Rodríguez conduzirá o novo governo, em meio às pressões dos Estados Unidos.

 


Conheça o RELEU

RELEU surgiu durante a Conferência FLACSO-ISA em Quito, em 26 de julho de 2018, ante a observação do contraste entre a enorme influência dos Estados Unidos em todos os aspectos da América Latina, por um lado, e, por outro, a natureza dispersa e fragmentada da pesquisa sobre esse país na região. A Rede é composta por aproximadamente 70 pesquisadores de diversos países latino-americanos que recebem um boletim informativo mensal, promovendo maior integração dentro do grupo e aumentando sua visibilidade em diferentes fóruns acadêmicos. A Rede é coordenada pelo INCT-INEU.

Sobre os participantes

Carolina Pedroso é professora do Departamento de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, da Universidade Federal de São Paulo (EPPEN-Unifesp). Mestra e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP), é pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI-UNESP) e do INCT-INEU. Foi pesquisadora-visitante no Institute for the Study of Latin America and the Caribbean, da University of South Florida (ISLAC-USF), em 2017. Tem ampla experiência e pesquisa sobre a Venezuela, país que acompanha há quase 15 anos.

Gabriel Merino é pesquisador associado do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET-Argentina) e professor da Universidade Nacional de La Plata (UNLP) e da Universidade Nacional de Mar del Plata (UNMdP). É coordenador do Grupo de Trabalho (GT) do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) denominado “A China e o mapa do poder mundial”, e membro do GT de “Estudos sobre os Estados Unidos”. Também é membro do Instituto de Relações Internacionais (IRI-UNLP).

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Matheus Pereira é professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Doutor em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (PUC-SP, UNESP, UNICAMP), foi pesquisado visitante no Center for Latin American and Latino Studies, da American University/EUA (2019-2020), e na Universidade de Buenos Aires/Argentina (2015). Realizou Pós-Doutorado no INCT-INEU e é pesquisador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES – UNESP) e do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais (IEEI-UNESP). É autor do livro Dever e Poder: Dívida externa e autonomia na Argentina de Alfonsín a Kirchner (1983-2007), publicado pela Editora Unesp. 

Leandro Morgenfeld é pesquisador independente do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET), vinculado ao Instituto de Estudos Históricos, Econômicos, Sociais e Internacionais (IDEHESI). Doutor em História pela Universidad de Buenos Aires, participa de diversos grupos de pesquisa, incluindo o Grupo de Trabalho da CLACSO sobre “Estudos sobre os Estados Unidos”, do qual é um dos coordenadores, desde 2016. Em 2017, recebeu o Prêmio Haydée Santamaría de Ensaio (Casa de las Américas-CLACSO) em Havana.

 

Victor Simões Bernardo é graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), membro do Núcleo de Pesquisas em Paz, Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Contato: victor.bernardo@ufu.br. 

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora-chefe do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mailtatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mailtcarlotti@gmail.com. 

 

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