Internacional

A lógica americana no Irã: interesses, cálculos e o horizonte pós-guerra

Presidente Donald Trump supervisiona a Operação Epic Fury em Mar-a-Lago, Palm Beach, Flórida, em 28 fev. 2026 (Crédito: Casa Branca/Daniel Torok. Fonte: Wikimedia Commons/Flickr)

Por Lucas Leite* [Informe OPEU] [Guerra no Irã] 

Há uma tentação analítica recorrente quando se trata de Donald Trump: interpretar suas ações como impulsividade desconectada de racionalidade estratégica. No caso do Irã, essa leitura é inadequada. O que aconteceu em 28 de fevereiro de 2026 não foi um acidente de personalidade presidencial. Foi o resultado de uma lógica acumulada ao longo de oito anos de relação deteriorada entre Washington e Teerã, acelerada por uma conjuntura doméstica iraniana em colapso e por uma janela de oportunidade geopolítica que, da perspectiva americana, talvez nunca mais se repetisse com tanta clareza. 

Para entender a decisão de atacar, é preciso voltar ao ponto de partida do próprio Trump com o Irã. Em 2018, ao retirar os Estados Unidos do JCPOA, Trump declarou que o acordo falhava em três dimensões fundamentais: não impunha restrições ao programa de mísseis balísticos iranianos, não cortava o financiamento de grupos proxies e não incluía mecanismos de verificação suficientemente robustos. O Instituto Baker, em análise contemporânea à decisão, identificou que a saída americana criava o risco exato que pretendia evitar: sem o acordo, o Irã poderia avançar em seu programa nuclear sem as restrições verificáveis que o JCPOA impunha. O Centro de Controle de Armas e Não Proliferação foi mais direto: ao retirar os EUA do acordo, Trump obteve como resultado o aumento do enriquecimento de urânio pelo Irã, escalada de sanções e rompimento com aliados europeus, sem qualquer conquista concreta na direção de um acordo melhor. A “política de pressão máxima” havia, paradoxalmente, aproximado o Irã de exatamente o limite que pretendia impedir. 

O que motivou Trump, então, a atacar no momento em que o mediador omani dizia haver “progresso significativo” nas negociações de Genebra? A resposta está em uma combinação de fatores que raramente aparecem juntos com tamanha intensidade. O primeiro é doméstico ao Irã, não aos EUA: os protestos que eclodiram em 28 de dezembro de 2025 no Grande Bazar de Teerã, alimentados pelo colapso do rial — que passou de 700 mil para mais de 1,4 milhão por dólar em apenas um ano —, espalharam-se rapidamente por todas as 31 províncias do país. A Anistia Internacional documentou que as autoridades iranianas realizaram massacres de manifestantes em 8 e 9 de janeiro, marcando o período mais letal de repressão em décadas. O regime estava internamente fragilizado de uma forma que analistas da Brookings Institution e do Council on Foreign Relations vinham classificando como historicamente rara. Trump leu essa fragilidade de outra forma: como janela de ação, não de negociação. 

O segundo fator é estratégico-econômico. Em discurso em Corpus Christi, no dia 27 de fevereiro, promovendo sua agenda energética, Trump declarou que o Irã “não precisa enriquecer porque tem muito petróleo” como argumento contra o programa nuclear. A frase é reveladora de uma visão de mundo em que o petróleo e a geopolítica são inseparavelmente entrelaçados. Um Irã pós-regime, aberto ao capital americano e reintegrado ao mercado global de energia, representaria uma transformação radical nos termos do jogo energético do Golfo Pérsico. O Estreito de Ormuz, corredor pelo qual transita aproximadamente 20% do consumo global diário de petróleo, ficaria sob influência de um ator potencialmente favorável a Washington em vez de hostil, alterando a arquitetura energética global de forma dificilmente reversível. 

O terceiro fator é a narrativa de legado. O Chicago Council on Global Affairs observou que Trump, ao lançar os ataques, “abandonou qualquer pretensão a um objetivo limitado” ao clamar abertamente pela mudança de regime. A Arms Control Association, em análise publicada em 26 de fevereiro, classificou qualquer operação militar ampla contra o Irã como “contraproducente, irresponsável e injustificada do ponto de vista da não proliferação”, apontando que os ataques de junho de 2025 haviam danificado severamente as instalações nucleares sem eliminar o conhecimento técnico acumulado. Mesmo assim, a lógica da administração era outra: danificar o suficiente para que o custo da reconstrução superasse a capacidade política e econômica de qualquer governo sucessor. 

O quarto elemento é Israel. O próprio Marco Rubio havia declarado ao Congresso, em janeiro de 2026, que a relutância iraniana em discutir seu programa de mísseis balísticos era “um grande, grande problema”, evidenciando que Washington e Jerusalém compartilhavam a visão de que qualquer acordo nuclear sem incluir os mísseis era insuficiente. Netanyahu tinha interesse óbvio em eliminar a ameaça de forma permanente e em capitalizar politicamente em um ano eleitoral. A convergência entre os objetivos israelenses de segurança e a disposição americana para a mudança de regime criou as condições para uma operação que dificilmente teria acontecido sem ambos os atores. 

Esse quadro de motivações importa diretamente para a pergunta mais urgente agora: o que esperar do pós-guerra, e como o próximo Líder Supremo iraniano se relacionará com os Estados Unidos? 

A resposta mais imediata, e mais perturbadora, foi oferecida pelo Council on Foreign Relations: qualquer mudança de liderança no Irã que resulte de um novo líder extraído do círculo de Khamenei ou de uma transferência de poder para os militares “provavelmente estenderia as políticas mais desestabilizadoras do regime, incluindo o imenso investimento em milícias proxies e seu programa nuclear”. O Soufan Center foi preciso ao afirmar, em análise de 1º de março, que “as negociações com os EUA e Israel serão muito provavelmente posicionamento tático para cobrir o período entre Líderes Supremos, e não uma mudança estratégica de Teerã”. Isso significa que qualquer abertura iraniana nas próximas semanas deve ser lida como manobra de sobrevivência do regime, não como sinal de transformação sistêmica. O centro aponta ainda que Ali Larijani, que atualmente gere a crise como chefe do Conselho de Segurança Nacional, provavelmente buscará continuar uma estratégia de atrito, elevando os custos políticos e militares para os EUA até forçar alguma forma de desescalada que possa ser apresentada internamente como vitória. A mesma análise é direta: a autoridade operacional sobre o aparato de segurança e militar está cada vez mais concentrada em figuras alinhadas à IRGC, e “governança se afastou das instituições políticas visíveis em direção a atores de segurança entrincheirados com origem na Guarda Revolucionária”. 

O perfil do próximo Líder Supremo determinará muito da relação com Washington. O professor Amin Saikal, da Universidade da Austrália Ocidental, disse à CNBC que “haverá muito barganha de bastidores” e que “quem emergir provavelmente será um compromisso”, adicionando que um sucessor linha-dura provavelmente continuará a postura confrontacional de Khamenei, enquanto uma figura mais moderada poderia buscar reformas limitadas para aliviar pressões externas. Já Marko Papic, estrategista-chefe da Clocktower Group, foi mais cru: “A economia iraniana em breve será um estacionamento a menos que o próximo Líder Supremo seja mais disposto a negociar com os EUA”. 

O ponto nevrálgico é exatamente esse. Como o Council on Foreign Relations concluiu logo após a morte de Khamenei, “eliminar o Líder Supremo não é o mesmo que mudar o regime; a IRGC é o regime”. Enquanto a Guarda Revolucionária mantiver sua coesão institucional, seu controle sobre as forças armadas, sua rede econômica e sua capacidade de determinar quem tem legitimidade dentro do sistema, nenhum Líder Supremo poderá se relacionar com os EUA de forma transformadora sem o aval da própria IRGC. E a IRGC não tem nenhum interesse em uma normalização que a transforme em irrelevante. 

Para Trump, o horizonte desejado é claro: um Irã sem programa nuclear, sem milícias regionais e aberto ao capital americano. O horizonte provável, segundo a quase unanimidade dos analistas, é um Irã traumatizado, institucionalmente tenso, internamente disputado entre clérigos e militares, externamente apoiado por China e Rússia, e profundamente hostil a qualquer líder que apareça como colaboracionista com Washington. O próprio Michael McFaul, ex-embaixador americano na Rússia e professor em Stanford, observou que “historicamente campanhas aéreas raramente levam à derrubada de regimes”, questionando como os objetivos americanos se traduzirão em resultados concretos no chão iraniano. 

A história das intervenções americanas no Oriente Médio é, em última análise, a história de lacunas entre objetivos declarados e resultados reais. O Iraque pós-Saddam Hussein gerou anos de guerra civil, a ascensão do Estado Islâmico e o eventual fortalecimento da influência iraniana na região. A Líbia pós-Gaddafi nunca se consolidou como Estado funcional. O Afeganistão durou 20 anos e terminou exatamente onde começou. O Irã de 2026, com noventa e dois milhões de pessoas, identidade nacional forjada em séculos de resistência a potências externas e um Estado profundo com décadas de enraizamento institucional, é um projeto de mudança de regime de complexidade sem precedente na história recente americana. A diferença desta vez é que a operação foi executada com precisão cirúrgica. O que ninguém sabe ainda é se a cirurgia salvará o paciente, ou se o deixará em um estado que torna toda a recuperação mais difícil do que a doença original.

 

Lucas Leite é professor adjunto de Relações Internacionais da FAAP, com pós-doutorado pela UFU e doutorado pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP), com estágio na Georgetown University. Coordena programas de pós-graduação e pesquisa na FAAP e integra grupos de pesquisa como INCT-INEU, NUGRAD/UFU e GEDES/UNESP. Contato: LinkedIn.

** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU

*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mailprofessoratatianateixeira@outlook.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mailtcarlotti@gmail.com.

 

Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.

Siga o OPEU no InstagramTwitter Linkedin e Facebook e acompanhe nossas postagens diárias.

Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.

Somos um observatório de pesquisa sobre os Estados Unidos,

com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.

Realização:
Apoio:

Conheça o projeto OPEU

O OPEU é um portal de notícias e um banco de dados dedicado ao acompanhamento da política doméstica e internacional dos EUA.

Ler mais