A lista de Obama
‘Leia, leia, leia’ (Crédito: Penguin)
Por Tatiana Teixeira* [Informe OPEU] [Livros] [Sugestões de leitura]
Todos os anos, quando chega o verão nos Estados Unidos (inverno no Brasil), jornais, revistas e políticos divulgam suas listas de leituras para o período. É o maior intervalo de férias escolares no decorrer do ano, o Congresso entra em recesso, e os americanos passam, em média, mais tempo em atividades ao ar livre. As summer readings de algumas personalidades e dos mais conhecidos veículos impressos do país são especialmente aguardadas pelo público, por acadêmicos e por analistas políticos.
A depender da origem das listas, elas também são muito esperadas por livrarias e editoras – sobretudo, pelas Big Five, apelido usado para as cinco maiores do mercado: HarperCollins e Simon & Schuster (EUA), Hachette (França), Penguin Random House e Macmillan (Alemanha). Como explicam Julienne Nova e Abigail White, “As cinco grandes editoras não são dominantes no número de títulos lançados a cada ano, mas são desproporcionalmente influentes na receita das vendas de livros”.
São muitos os critérios mobilizados para se criar uma lista, de um lado, e para se guiar por ela, de outro. Esses critérios dependerão, entre outros fatores, do papel social, dos interesses e dos objetivos de cada um. Em geral e salvo as situações em que se trata de atividade obrigatória (como as leituras escolares), escolhemos o livro pelo tema, estilo de escrita e narrativa e/ou pelo gênero, em consonância com nossas experiências, memórias afetivas, preferências, crenças e visão de mundo. Podemos escolher leituras que nos tragam prazer, acolhimento, conforto, explicações, sensação de pertencimento, ou mesmo, que nos desafiem. Às vezes, são os livros que nos escolhem. Também ocorre de sermos influenciados por listas outras, como a dos “mais vendidos” de algum veículo, a de clubes de leitura, ou de celebridades, subcelebridades e influencers. Esta última categoria é cada vez mais comum, em função das redes sociais, principalmente, o TikTok.
No caso dessas figuras amplamente conhecidas do público, buscamos e aderimos às suas sugestões, porque há algum nível de identificação pessoal, admiração e convergência de valores e de posicionamento político-ideológico. Isso significa que, em alguma medida, consideramos essa personalidade, sua trajetória e biografia como um atestado de qualidade em relação aos títulos propostos. Queremos a curadoria de alguém, em cuja capacidade e discernimento confiamos, ou que temos como referência para nos espelharmos e aprendermos. Queremos a sensação de que compartilhamos algo especial com esse alguém. Buscamos conexão.
Para as pessoas “famosas” que fazem e divulgam suas listas, pode haver mais motivos determinantes para suas escolhas. Pode ser uma maneira de mandar mensagens políticas para eleitores, oponentes e correligionários; de se manter presente no debate; ou de defender causas e agendas, ainda que sem cargo eletivo. Também pode haver o desejo de reforçar (ou criar) determinadas características e atributos pessoais no imaginário popular, como o de alguém com alto nível de erudição, inteligente, perspicaz, bem-informado, ou o contrário de tudo disso, expresso em uma postura de desdém pela cultura, pela educação e de profundo anti-intelectualismo. Os títulos também podem ser escolhidos para ajudar a projetar o nome de determinados autores, assim como alavancar as vendas dessa e daquela editora.
Obama, mediador das práticas literárias middlebrow
Foi em 2009, ano em que assumiu seu primeiro mandato, que Barack Obama começou a divulgar suas listas de leituras. Manteve o hábito ao longo de suas duas Presidências (salvo em 2013 e 2014) e mesmo após sua saída da Casa Branca. Suas “leituras para o verão” e suas escolhas como “melhores livros do ano” se tornaram uma tradição nos EUA. As listas são divulgadas em seu blog, na página da fundação que leva seu, nas redes sociais da instituição e em sites especializados. E viram notícia em diferentes veículos da imprensa americana, como The New York Times, The Washington Post, USA Today e POLITICO.
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Para autores e editoras, ser lido por Obama significa receber a transferência de parte do capital simbólico acumulado pelo ex-presidente e se tornar the talk of the town. Essa “validação” se traduz, na prática, em mais curiosidade sobre a obra, mais visibilidade e, consequentemente, aumento das vendas. Foi o caso, por exemplo, de Liberdade (Cia das Letras, 2012), de Jonathan Franzen; Vida vadia (Cia das Letras, 2009), de Richard Price; Terras baixas (Cia das Letras, 2009), de Joseph O’Neill; de Gilead (Vida Nova, 2022), de Marilynne Robinson; ou de John Adams (Simon & Schuster, 2001), biografia do segundo presidente dos EUA escrita por David McCullough e agraciada com o Prêmio Pulitzer (2002). Conforme variadas fontes consultadas para este breve texto, estes e outros livros indicados por Obama subiram de posição em diferentes rankings de venda, como o da Amazon e a lista de best-sellers do NYT.
Nesse sentido, Obama funciona como um mediador para a cultura literária middlebrow, um espaço acessível, de compreensão facilitada para um maior grupo de pessoas, entre as obras de alta erudição e aquelas mais superficiais, de consumo imediato e sem intenção de provocar reflexões complexas. Conforme a lógica do conceito, esse público busca e confia na seleção de “autoridades culturais”, que atestam a qualidade do livro, justificando, portanto, sua leitura. Ao mesmo tempo, consumir obras com esse “selo de aprovação” se torna um critério para valorar o próprio leitor, dando a ele, em tese, um status e capital cultural nem sempre oferecidos por outros títulos. Para Obama, esse lugar de autoridade é parte do reforço de seu legado como presidente e, do mesmo modo, da construção de sua “identidade pós-presidencial”, uma que seja perene, por estar (apenas aparentemente, como se constata em suas listas) para além da política.
Como afirma Toby Izenberg sobre a lista de Obama, em artigo para o blog The Channel,
“… não inclui uma descrição dos enredos dos livros, uma análise de seus temas ou entrevistas com seus autores. Diferentemente dos prêmios literários tradicionais, critérios explícitos para seleção são incomumente ausentes. Apesar de seu papel como ex-presidente e político, as listas de leitura de Obama não fornecem qualquer contexto social ou político para seu conteúdo. Em vez disso, uma vez por ano, a lista simplesmente chega: um conjunto de títulos e autores com um nome. É por causa dessas ausências que a lista de leitura de Obama se torna a forma mais simples possível de mediação middlebrow: na ausência de uma explicação explícita do valor de um livro, o próprio nome de Obama — e tudo o que ele representa — torna-se o motivo pelo qual você deve lê-lo”.
Ainda segundo Izenberg:
“A simplicidade da lista cumpre uma função: quanto mais autoridade estética objetiva Obama tiver, mais ele poderá projetar objetividade em questões políticas — um sumo sacerdote liberal acima da tensão do trabalho diário da política. Usando a armadura da objetividade estética, Obama torna-se confiável para um subconjunto mais amplo de pessoas como árbitro e comentarista de questões sociais”.
O termo middlebrow é carregado de polêmica, sobretudo, por sua hierarquização das obras, o que confere um traço elitista à própria natureza do conceito. Para entender melhor essa discussão, sugiro a leitura de The New Literary Middlebrow: Tastemakers and Reading in the Twenty-First Century (Palgrave Macmillan, 2015), de Beth Driscoll; do artigo “The Middlebrow Family Resemblance: Features of the Historical and Contemporary Middlebrow”, publicado pela autora no site Post45; e da resenha “Middlebrow Studies and Its Discontents”, de Jaime Harker (University of Mississippi), publicada no periódico Cultural Studies Review, em 2016.
Em geral, as recomendações de leitura de Obama incluem diferentes gêneros e temas. Alguns escritores já apareceram em mais de uma lista, como Colson Whitehead: em 2016, com The Underground Railroad: Os caminhos para a Liberdade, lançado por aqui em 2017, pela Harper Collins Brasil; e em 2021, com Trapaça no Harlem, publicado no Brasil pela mesma editora. Uma curiosidade: Whitehead esteve duas vezes no país. A primeira foi em 1994, durante um mochilão, e a segunda, em 2018, como convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Publique no OPEU
Chamada para publicação no OPEU em fluxo contínuo: Dossiê ‘Distopias e Trump 2.0’
Em 2025, o ex-presidente divulgou, até o momento, dez livros, de autores americanos e estrangeiros – todos lançados este ano. Entre ficção e não-ficção, as obras selecionadas tratam, entre outros temas, de migração; reforma de governo; questão racial; da sangrenta corrida expansionista para o Oeste que dizimou os povos nativos; da importância do funcionalismo público, que faz a máquina do Estado funcionar; ou do impacto negativo das redes sociais – tanto individual quanto coletivamente. Até quem acompanha minimamente o noticiário americano, perceberá, sem dificuldade, que vários dos assuntos citados estão na ordem do dia da política doméstica. Obama se mantém em cena, mas sem o ônus inerente à função presidencial.
Em entrevista à revista Esquire, Eric Schultz, conselheiro sênior e secretário adjunto de Imprensa no governo Obama, afirma que os livros são escolhidos (e lidos) pelo ex-presidente, sem interferências de sua equipe. O sucesso das listas, completa Schultz, explica-se por ser algo genuíno – “um reflexo dele mesmo [Obama] e de sua comunidade”, das pessoas que conheceu e dos lugares que visitou –, ou não resistiria ao teste do tempo e dos leitores.
Nos próximos textos sobre essa mesma temática, tratarei da lista de Trump e da lista anti-Trump. ![]()

Abaixo, os comentários de Obama sobre as obras:
Mark Twain, de Ron Chernow
“Uma biografia abrangente de um dos escritores e comentaristas sociais mais importantes da história americana”
** Autor da biografia Alexander Hamilton, que serviu de base para o musical na Broadway, Chernow conquistou o Prêmio Pulitzer para Biografia e o Book Prize de História Americana, ambos em 2011, pelo livro Washington: A Life, lançado em 2010. Também foi agraciado com o National Book Award de Não-Ficção, em 1990, por The House of Morgan: An American Banking Dynasty and the Rise of Modern Finance. Também é autor do best-seller Titan: The Life of John D. Rockefeller, Sr, finalista do National Book Critics Circle Award.
The Book of Records, de Madeleine Thien
“Uma bela fábula sobre migração, memória e a luta para reconhecer nossa humanidade comum”
** Entre outros prêmios por suas obras, seu romance Do Not Say We Have Nothing, ganhou o Scotiabank Giller Prize e o Governor General’s Award e foi finalista do Booker Prize, tudo em 2016.
Abundance, de Ezra Klein e Derek Thompson
“Leitura obrigatória para progressistas que buscam um projeto de reforma governamental para que ele possa beneficiar os trabalhadores”
** Em 2022, Obama já havia indicado outro livro de Klein, Why We’re Polarized
King of Ashes, de S.A. Cosby
“Um dos meus escritores de ficção policial favoritos apresenta esta história de família, ambição e corrupção em um Sul racialmente carregado e violento”
Rosarita, de Anita Desai
“Um belo e curto romance sobre a descoberta de uma mulher a respeito do passado secreto de sua mãe”
** Anita foi três vezes finalista do Booker Prize.
The Buffalo Hunter Hunter, de Stephen Graham Jones
“Uma mistura de história e terror que explora o legado brutal da conquista contra os povos nativos americanos”
A Marriage at Sea: A True Story of Love, Obsession, de Sophie Elmhirst
“História real incrível de um casal que sobrevive a uma crise em alto-mar”
Audition, de Katie Kitamura
“Um romance tranquilo sobre as maneiras como escondemos nosso verdadeiro eu dos outros — e de nós mesmos”
** É a segunda vez de Kitamura em uma lista de Obama.
Who is Government? The Untold Story of Public Service, de Michael Lewis
“Um lembrete oportuno da dedicação silenciosa e da habilidade das pessoas que trabalham todos os dias para fazer este país funcionar”
The Sirens’ Call: How Attention Became the World’s Most Endangered Resource, de Chris Hayes
“Uma introdução útil sobre como as mídias sociais e a economia da atenção distorceram nossa democracia e remodelaram nossas vidas”
* Tatiana Teixeira é editora-chefe do OPEU e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025). Esteve nos EUA em junho e julho de 2025 para participar do curso de American Politics and Political Thought, realizado no âmbito da Civic Initiative, do Donahue Institute, vinculado à Universidade de Massachusetts Amherst (UMass). O programa Study of the United States Institutes (SUSI 2025) é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA e administrado pela Universidade de Montana (UM). Trabalhos decorrentes do programa ou outros relacionados aos Estados Unidos são considerados de totais autonomia, iniciativa e responsabilidade da pesquisadora e não representam qualquer endosso ou adesão a quaisquer políticas e agendas por parte do governo americano atual, ou anteriores. Contato: tatianat19@hotmail.com.
** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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