O Quadrilátero desfeito. Os EUA de Trump e a Europa: Relações perigosas (III)
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em dura reunião na Casa Branca, em Washington, D.C., em 28 fev. 2025 (Fonte: Wikimedia Commons)
Dossiê “Os Estados Unidos de Trump e a Europa”
Por Sebastião C. Velasco e Cruz* [Trump 2.0] [Europa] [Relações transatlânticas] [Política Externa]
Apesar das convergências ideológicas, as rel ções entre a Europa e os Estados Unidos ao longo do governo Biden estiveram muito aquém da serena harmonia. É cedo para dizer como estarão ao final do segundo mandato de Trump, e não é descartável a possibilidade de que terminem menos conflitivas do que têm sido nesses primeiros momentos. Mas este é um tema desafiante para a futurologia. Para os propósitos deste ensaio importa é ressaltar que ao retomar o posto de mando Trump se propõe a alterar radicalmente o padrão de relacionamento transatlântico, e para tanto ataca a Europa em várias frentes – do comércio à defesa; das pretensões territoriais (Groenlândia) à contestação ideológica e política. Sem desconsiderar a importância das últimas, pelo contrário, por razões de espaço vou me concentrar aqui nas duas primeiras frentes.
O poder fungível da tarifa
No estilo peculiar que é o seu, Trump repetiu muitas vezes que “tarifa” era a palavra mais bela no dicionário. É verdade, de acordo com a sensibilidade do auditório ele podia admitir a existência de outras (raras) de maior beleza, ou importância, mas a tarifa estaria sempre, a seu ver entre as três mais.
Encantamento antigo, do tempo em que era um jovem investidor com lugar garantido no rol das celebridades, a tarifa se converteu em ferramenta de política econômica privilegiada quando assumiu, em 2017, a Presidência dos Estados Unidos. Com efeito, Trump invocou a cláusula dos estatutos da OMC que resguardava a liberdade dos Estados para usar discricionariamente o seu poder de intervenção no mercado quando movido por razões de segurança nacional para taxar as importações de aço e alumínio de qualquer proveniência, e impôs tarifas elevadas às importações chinesas.
Vencidos os obstáculos legais, candidato mais uma vez à Presidência dos Estados Unidos, em seus discursos de campanha Trump atribuía à tarifa, além daquelas tradicionalmente reconhecidas, um sem-número de virtualidades, entre as quais a de reduzir o déficit comercial, melhorar a segurança de fronteiras, contribuir para a paz internacional, e financiar o gasto público – dispensando até a cobrança do imposto de renda. Entre as suas promessas estava o compromisso de criar um piso tarifário de 20% e de taxar em 60% as importações da China.
Sistematicamente castigada na oratória de Trump, a União Europeia tinha experiência suficiente com o personagem para levar a sério a ameaça. A questão de como reagir à sua efetivação era mais complicada. Aliados históricos dos Estados Unidos, principais parceiros econômicos (a corrente de comércio de bens e serviços entre eles chegou a 1,8 trilhão de dólares em 2024; 2 trilhões, computado o comércio com o Reino Unido), os países europeus deviam se equilibrar entre exigências contraditórias, internas e externas, o que requeria de seus dirigentes extremo cuidado na escolha de meios e na dosagem das medidas. Podemos imaginar a gama de posições que o problema suscitava pelas diferenças não tão sutis entre os pronunciamentos, feitos ainda em 2024, por Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, e Pascal Lamy, ex-comissário de Comércio da U.E. e ex-diretor-geral da OMC. Enquanto a primeira defendia uma “estratégia de talão de cheque” – o aumento expressivo das compras europeias de armas e gás natural liquefeito americano para evitar uma guerra comercial com os Estados Unidos1 –, o segundo recomendava aos negociadores europeus que buscassem o acordo, mas preparados para contra-atacar, caso ele não se produzisse.2 A U.E. não foi apanhada de surpresa, portanto, quando entrou em vigor, em 12 de março, a tarifa de 25% sobre a importação de produtos de aço e alumínio, a primeira medida do governo Trump na área comercial que a atingia diretamente – no mês anterior ele a havia ameaçado com a adoção breve de tarifa equivalente sobre a importação de automóveis, produtos farmacêuticos e chips, queixando-se de que a Europa era muito injusta com os Estados Unidos.3
Ninguém esperava, contudo, o espetáculo bizarro com que o presidente americano brindou o mundo em 2 de abril de 2025, quando apresentou a lista de países sancionados com tarifas superiores ao piso de 10%. Muito menos a escalada vertiginosa que se seguiu ao anúncio das contramedidas adotadas pela China, alvo principal da operação.
No quadro desajeitamente exibido por Trump no jardim da Casa Branca, a Europa era aquinhoada com a tarifa “modesta” de 20%. Mas não ficou nesta faixa por muito tempo. Uma semana depois de declarada a guerra comercial entre os dois gigantes, face à ansiedade descontrolada dos investidores, que já afetava o preço dos títulos da dívida pública americana, Trump suspendeu a aplicação das novas tarifas, dando um prazo de 90 dias para a negociação, caso a caso, das relações comerciais com todos os seus parceiros, exceto a China para a qual continuava valendo a última tarifa anunciada.
Presidente Donald Trump assina ordem executiva sobre os planos tarifários do governo em um evento intitulado “Make America Wealthy Again” (Tornar os Estados Unidos ricos novamente), em 2 abr. 2025, nos jardins da Casa Branca, em Washington, D.C. (Crédito: Daniel Torok/Casa Branca. Fonte: Wikimedia Commons)
Aberta a temporada, os representantes das duas partes se apressam em dar início às tratativas. Mas elas não avançaram na celeridade esperada. Os negociadores europeus queixavam-se da parca objetividade de seus interlocutores, que não explicitavam os seus objetivos na barganha – eles variavam das alíquotas tarifárias à regulação da atividade das Big Techs, passando pelo sistema de imposto sobre o valor agregado adotado na Europa, que os negociadores americanos definiam como forma disfarçada de tarifa. Do outro lado da mesa, Trump dava o troco: “A União Europeia é, em muitos sentidos, pior do que a China, certo?” … Eles nos tratam de forma muito injusta.“4
Com impaciência crescente, em 23 de maio Trump anunciou que a partir de 1º de junho os produtos europeus passariam a ser taxados com uma tarifa de 50%, mas logo adiou esse prazo para 9 de julho, depois de um telefonema dominical da presidente da UE, Ursula von der Leyen – mas dias depois dobrou a tarifa aplicada a produtos de aço e alumínio, elevando-a para o proibitivo patamar de 50%. No momento em que escrevo, as conversas continuam, sem resultado previsível.
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A sequência de idas e vindas não parece muito racional, e a narrativa aqui esboçada não procura passar outra impressão. Alguém já disse que a tarifa para Trump não é uma estratégia, mas uma mania. A caracterização é irônica, mas nem por isso falsa. O detalhe é que Trump não age sozinho, ele se cerca de pessoas bem mais preparadas intelectualmente do que ele, algumas das quais se esmeram em dotar a política comercial de seu governo de fundamentos racionais que os movimentos erráticos do seu chefe ocultam.
Em seu entender, o problema do déficit comercial persistente dos Estados Unidos é agravado pelas práticas desleais de muitos países, mas sua causa profunda é o desequilíbrio no sistema econômico-financeiro global expresso na sobrevalorização do dólar. Resultado da demanda sempre confirmada de títulos da dívida americana, a cotação excessiva do dólar trava os mecanismos clássicos de ajuste do comércio internacional (valorização cambial em situações de superavit comercial; depreciação em caso de déficit), abarrotando o mercado americano com artigos artificialmente baratos ao passo que penaliza o exportador americano ao encarecer o seu produto.
Confirmada a eleição de Trump, essa visão do problema foi exposta em detalhes, repetidamente, por seus formuladores, com as devidas prescrições sobre como resolvê-lo. Eles foram – e continuam sendo – intensamente criticados pela maioria dos economistas reputados, mas não precisamos entrar nesse debate. O que importa para a análise desenvolvida aqui é salientar a ambição grandiosa do projeto em causa – nada menos que reconfigurar a economia global para resolver as dificuldades reais ou imaginadas da economia americana – e a conexão interna nele estabelecida entre economia e segurança, como se vê na passagem abaixo extraída de um artigo de Scott Bessent, então assessor de Trump, hoje Secretário do Tesouro dos Estados Unidos.
“the United States must link its security and economic relations more closely. Security allies are much more likely to have economies with which trade will benefit America’s own welfare… Such a linked system of security and economic alliances should be dynamic to incentivize behavior that aligns with American interests.”5
Na viabilização desse projeto, caberia às tarifas um papel decisivo. “O acesso ao mercado americano é um favor, não um direito”, palavras de Trump. Em artigo de grande impacto, Stephen Miran, financista escolhido para chefiar o seu Conselho de Assessores Econômicos, explicava didaticamente os critérios a serem empregados em sua aplicação aos diferentes países. Abaixo, alguns exemplos:
“Does the nation have a history of suppressing its currency, for instance via the accumulation of excessive quantities of foreign exchange reserves?
Does the nation respect American intellectual property rights?
Does the nation help China evade tariffs via re-export?
Does the nation pay its NATO obligations in full?
Does the nation side with China, Russia, and Iran in key international disputes, for instance at the United Nations?
Does the nation support or oppose U.S. security efforts in various theaters? Do the nation’s leaders grandstand against the United States in the international theater?”6
Observando de passagem a incompatibilidade de tais critérios com os princípios e normas do sistema multilateral de comércio construído, desde meados do século passado, sob liderança dos Estados Unidos, a lista de Miran evoca o comentário mordaz de Pascal Lamy. Os EUA respondem apenas por 15% das importações mundiais. “The rest of the international trading system – 85 percent of global imports, involving trade between countries like China, India, Mexico, and Canada – can remain largely unaffected,”7
O que sugere a observação com a qual encerro este tópico. O projeto de Trump encerra uma contradição insanável. Com base em juízo hiper pessimista sobre situação vigente nos Estados Unidos ele preconiza um programa de reformas radicais – não apenas no país, mas no mundo – para trazer de volta a grandeza perdida. Mas a imposição das mudanças que julga necessárias requer um poder de que ele não dispõe, a se acreditar no seu diagnóstico.
O tópico a seguir discutirá os limites desse poder no outro termo da equação: a esfera da segurança internacional.
Guerra e paz na Europa
Mesmo entre seus adeptos mais fervorosos, é pouco provável que alguém tenha levado a sério a promessa de Trump de terminar a guerra da Ucrânia em 24 horas. Por outro lado, exagero à parte, ninguém poderia duvidar de sua intenção de pôr um fim ao conflito no prazo mais breve possível.
Ponto saliente de sua plataforma de campanha, o compromisso de restabelecer a paz na região apoiava-se na crítica cerrada à conduta do governo Biden, que Trump verbalizou desde o início das hostilidades. E não só ele, a caracterização da guerra como uma tragédia humanitária que abria as portas para uma conflagração mundial, e a denúncia do governo Biden por sua postura diante do conflito foi, desde o início, um leitmotiv no discurso de figuras representativas do movimento Make America Great Again. De Bannon a Tucker Carlson, passando por Tulsi Gabbard – ex-combatente no Afeganistão, ex-deputada pelo Partido Democrático, do qual se afastou por suas posições críticas à ação militar americana no Oriente Médio, hoje no posto de Diretora da Inteligência Nacional – a voz desses personagens soava como uma nota dissonante no coro belicista que tomou conta da mídia Ocidental desde a eclosão do conflito.
As razões em que se apoiava a crítica dessa corrente de opinião estão sintetizadas no capítulo dedicado ao tema no livro já citado An America First Approach to US National Security. Guerra evitável – Biden ignorou a diplomacia e não armou a Ucrânia previamente com os meios requeridos para dissuadir o ataque –, o envolvimento americano no conflito é indesejável porque ele não põe em jogo os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Pelo contrário, o interesse nacional bem entendido recomenda o estabelecimento de relações pacíficas com a Rússia, em vez de uma guerra por procuração com ela, que pode escalar para um conflito nuclear. E é preciso computar o custo do apoio à Ucrânia. Os valores são muito elevados e seriam melhor aplicados na solução de problemas nacionais como a imigração ilegal e a crise do Fentanil, desgraça que tira a vida de milhares de pessoas no País, a cada ano, e cria problemas para o recrutamento de suas Forças Armadas. O mais importante, porém, são as implicações da assistência militar para a política de defesa dos Estados Unidos.
“The vast sum of support depleted U.S. military stockpiles, strained our defense industrial base, and jeopardized America’s military readiness. … Pentagon officials announced in December 2023 that U.S. aid to Ukraine has drained the Department of Defense’s draw-down account to the extent that the U.S. will have to make ‘tough choices,’ either supporting America’s own military readiness or continuing to ‘support Ukraine in the way they need to be supported on the battlefield’.”8
A guerra da Ucrânia está esgotando o estoque americano de armamento avançados que podem ser necessários em caso de outros conflitos, como a invasão de Taiwan pela China. E tem o efeito nefasto de aprofundar a aliança entre a Rússia, a China, a Coreia do Norte e o Irã.
Abertas as negociações de paz, uma combinação sábia de realismo e força pode conduzir a uma solução que contemple os interesses dos Estados Unidos e da Ucrânia. Não há tempo a perder. Como disse Donald Trump em programa da CNN em 2023, “I want everyone to stop dying.”9
Uma vez investido no cargo de presidente, Trump não demorou a dar consequência a esse propósito. Em 12 de fevereiro, entre outros temas importantes da agenda internacional, discutiu com Putin a questão da Ucrânia em conversa telefônica cordial, ferindo a suscetibilidade dos governantes europeus, que tinham cortado as linhas de comunicação com o líder russo, tratado como um autocrata repulsivo culpado de crimes de guerra os mais atrozes.
A essa altura, estava claro que Trump não pretendia coordenar os seus movimentos com os aliados históricos, que tinham sido maltratados por ele durante a campanha eleitoral, e continuavam a sê-lo agora. Em suas palavras e na de seus representantes – como o vice-presidente J.D. Vance, que além de agredir a audiência europeia com um discurso de contundência inaudita na Conferência de Segurança de Munique, mostrou que o novo governo dos Estados Unidos tomava partido nas disputas políticas do país, ao entrevistar-se com Alice Weidel, cabeça de chapa do partido de ultradireita AFD nas eleições para o parlamento alemão.

O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance (em segundo plano, à dir.), reúne-se com o secretário britânico de Relações Exteriores, David Lammy, na Conferência de Segurança de Munique, Alemanha, em 14 fev. 2025 (Crédito: Elliot Vick/Foreign, Commonwealth and Development Office/Flickr)
Negociação de paz orquestrada unilateralmente pelos Estados Unidos. Este traço da diplomacia trumpista não se restringia à Ucrânia. O mesmo padrão tem sido seguido nas negociações com o Irã, e em outras situações, mas a Ucrânia é de longe o caso mais significativo, porque envolve diretamente a Europa.
Quatro meses decorridos desde a primeira conversa com Putin, os resultados obtidos por Trump nessa empreitada são decepcionantes. Com marchas e contramarchas, lances dramáticos, um anúncio grandiloquente (o que apresentou o acordo de minerais críticos entre os Estados Unidos e a Ucrânia como um divisor de águas), o caminho seguido até aqui levou à abertura negociações de um cessar fogo – que não avançam porque as partes envolvidas formulam exigências mutuamente inaceitáveis – e à escalada no campo de batalha.
Diante desse quadro melancólico, a atitude de Trump oscila entre admoestações duras a Putin e demonstrações de desprezo por Zelensky, para culminar num distanciamento indiferente que mal disfarça a sensação de derrota.
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Quais as razões desse fracasso?
A intransigência maximalista dos contendores não é resposta, porque era um dos dados conhecidos do problema que se julgava possível resolver com alguma facilidade.
O compromisso dos governos europeus – uns mais do que outros, naturalmente – com as posições maximalistas da Ucrânia, tampouco, pelo mesmo motivo – no instante em que o retorno de Trump surgiu como uma possibilidade real, deslanchou-se nos círculos dirigentes europeus o debate sobre como assegurar à Ucrânia as condições necessárias para seguir na guerra.
A evolução dos acontecimentos no terreno traz alguma luz, mas as mudanças verificadas nesse plano ao longo do período considerado foram graduais e não modificaram significativamente as relações de força presentes em seu início. De resto, este fator não é independente das escolhas políticas que buscamos entender. Fruto de 18 meses de planejamento, segundo as autoridades ucranianas, a ação militar mais significativa no período – senão por seus resultados materiais, pelas virtualidades que encerra –, o ataque de drones ucranianos a bases aéreas russas, atingindo dezenas de bombardeiros estratégicos – seria impossível sem o concurso ou a chancela da inteligência americana no país, com seu sistema de vigilância, reconhecimento e seleção de alvos. Mas a produção desse fato admite apenas duas possibilidades: ou Trump tinha conhecimento da operação e a aprovou, consentindo com um lance temerário, que escalava o conflito, com os riscos implicados; ou não foi informado a seu respeito, como alegou, indício de que não tem pleno controle do emprego da força, prerrogativa constitucional sua, o que é ainda mais grave. Seja como for, estamos de volta ao ponto de partida.
“Todo presidente tem uma política exterior, Trump tem várias.” O título do artigo que Hal Brands publicou em fevereiro de 2025 de aponta para uma hipótese mais fértil.10 O argumento não é de todo original, e exagera na excepcionalidade do caso – é difícil encontrar um governo que não tenha algum grau de incoerência em suas políticas como resultado do embate em seu seio de interesses e ideias. Mas a razão de fundo do fracasso de Trump na questão da Ucrânia reside neste lugar.
Mais exatamente, no peso relativo, em diferentes esferas de ação governamental, das orientações de política internacional concorrentes, cristalizadas há algum tempo no campo republicano. Com base em trabalho publicado recentemente por pesquisadores do European Council on Foreign Policy11, creio poder caracterizá-las como se segue:
– Contecionistas (Restrainers) – críticos do uso da rotineiro da força militar no exterior e dos compromissos internacionais evitáveis, chegando ao questionamento do sistema de alianças dos Estados Unidos, a OTAN entre elas. Nomes representativos: Senadores Rand Paul e Mike Lee; Steve Bannon e Richard Grenell, ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha durante o primeiro governo Trump.
– Priorizadores (Prioritisers): defendem a presença global dos Estados Unidos, mas reconhecem seu declínio relativo, advogando a concentração de meios e energia no relacionamento com a China, vista como um desafio existencial. Nomes representativos: Senador Josh Hawley e Elbridge Colby, ex-subsecretário adjunto do Departamento de Defesa, principal responsável pela elaboração da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, de 2018, no primeiro governo Trump.
Primacistas (Primacists): rejeitando a tese da perda relativa de poder, sustentam que os Estados Unidos podem e devem afirmar sua liderança e presença militar em escala global, preparando-se para a eventualidade de conflitos simultâneos em vários teatros. Nomes representativos, Nikki Haley, Mike Pompeo, John Bolton, o ex-vice-presidente Mike Pence, o Senador Lindsey Graham e seu colega Marco Rubio, que hoje acumula os cargos de Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump. Mais discretos, mas ainda assim influentes, Mathew Kroenig, acadêmico, especialista em estratégia nuclear, ora no cargo de vice-presidente do Atlantic Council, think tank suprapartidário importante, com foco na promoção das relações transatlânticas; Victoria Nulland, alta funcionária do Departamento de Estado em governos republicanos e democratas, com atuação decisiva na questão da Ucrânia; seu marido, o renomado publicista Robert Kagan, e o irmão deste, Frederick Kagan, especialista em história e estratégia militar, pesquisador do American Enterprise Institute, decano dos think tanks conservadores nos Estados Unidos, inspirador e líder intelectual do ISW (Institute for the Study of War), uma das principais fontes de informação sobre a guerra da Ucrânia para a imprensa ocidental.
A classificação acima pretende apresentar esquematicamente as principais correntes de opinião que coexistem no universo republicano. Com foco mais amplo – o debate sobre a grande estratégia dos Estados Unidos –, o estudo assinado por outros pesquisadores europeus apresenta uma classificação um pouco diferente. Não vou comentá-lo, basta dizer que ele subdivide a categoria “contencionistas” em “libertários” e “progressivos” e introduz uma categoria nova, “MAGA” (Make America Great Again), que se distinguiria das demais pela concepção da política internacional como um jogo de soma zero (o que um ganha, o outro perde) e pelo padrão transacional de comportamento (busca de vantagens em processos negociais isolados, em detrimento de compromissos amplos e duradouros).
Contudo, o mais importante no artigo, para a análise que venho fazendo aqui, é que os autores tratam a primazia global dos Estados Unidos como uma questão transversal, o pano de fundo consensual que balizou o debate estratégico nos Estados Unidos desde o final da Guerra Fria, apesar do protesto de atores periféricos, que nunca deixaram de existir. Nesse sentido, apesar das diferenças de ênfase e estilo, eles reúnem democratas e republicanos, liberais e neoconservadores – igualmente primacistas – na categoria “liberais internacionalistas”.12
Salientar esse componente consensual na relação entre os dois grandes partidos é preciso porque ele esclarece aspectos cruciais do problema da guerra da Ucrânia no governo Trump, o que podemos entrever quando levamos em conta a votação do último pacote de assistência militar ao país proposto por Biden já no final de seu mandato. O referido projeto foi aprovado na Câmara e no Senado, com apoio praticamente unânime dos membros de seu partido, mas também com o voto amplamente majoritário dos senadores republicanos (31 X 15, entre eles o vice-presidente J. D. Vance e o Secretário de Estado Marco Rubio)13 e o voto dividido dos deputados (101 a favor X 112 contra a proposta).14
Conhecida a postura histórica do Partido Republicano face à questão, a presença de forte apoio em seu seio à continuidade da assistência militar à Ucrânia não surpreende. Como as demais condições antes referidas, era um dado do problema enfrentado por Trump ao assumir pela segunda vez a Presidência dos Estados Unidos, não podendo, portanto, explicar o insucesso de sua política. Mas aqui não estamos a lidar com um “fator”, uma condição prévia, que determina diretamente os resultados observados, mas com uma relação estratégica cujos efeitos decorrem da ação interdependente dos atores nela envolvidos, o que fazem ou deixam de fazer, seus movimentos táticos e seus horizontes estratégicos.
Encarado nessa perspectiva, o acordo de minerais críticos celebrado entre os Estados Unidos e a Ucrânia em 30 de abril ganha um novo significado. Sabemos que as discordâncias em torno da questão foram o elemento detonador do bate-boca, dois meses antes, entre Trump e Zelensky no Salão Oval da Casa Branca. Sabemos também que ambas as partes cuidaram de aplacar as divergências e continuaram buscando uma solução mutuamente satisfatória, que ao ser anunciada foi considerada um verdadeiro divisor de águas.
Esta solução previa a definição da ajuda recebida pela Ucrânia como assistência voluntária, não como empréstimo, gerador de débito a ser quitado oportunamente; reconhecimento da soberania ucraniana sobre os recursos minerais em causa; criação de um fundo administrado em comum com a renda gerada pela exploração econômica de tais recursos; acesso privilegiado garantido às empresas americanas. O significado geopolítico desse acordo foi definido nestes termos por Bhadrakumar, ex-diplomata indiano experiente, analista internacional dos mais argutos e bem-informados.
“Moscow and Kiev have been vying with each other to curry favour with the new US administration. Just as Russian diplomacy appeared to be outstripping Kiev, things changed dramatically on April 30 with the signing of the so-called minerals deal between the US and Ukraine in Washington.
Russia anticipates that the US (and the European allies) will continue to support the (hostile) Ukrainian regime’s military capability… the minerals deal shatters the Russian dream of a neutral Ukraine.
Russia may have to learn to live with an unfriendly regime in Ukraine which is under Western protection. Will Moscow accept such an outcome of the war, which amounts to a colossal failure to achieve any of the major objectives of the special military operations?”15
O artigo deixa em aberto a indagação sobre as escolhas da Rússia, como convém a uma análise estratégica. O que não indica é o significado do desfecho indicado do ponto de vista do projeto inicial do governo Trump, que previa o desengajamento dos Estados Unidos do conflito, a normalização das relações com a Rússia e criação de uma cunha no relacionamento desta com a China – a chamada estratégia Kissinger invertida.16
O problema é que a intenção de explorar os recursos minerais críticos ucranianos era um dos móveis centrais da política de Trump desde o início, o que levanta sérias dúvidas sobre a coerência interna do referido projeto. Ao que parece, ao abordar a questão da guerra na Ucrânia Trump é guiado por objetivos excludentes.
Esta observação nos remete ao tema do choque de correntes de opinião no governo Trump. O dado importante aqui é a origem do tema dos minerais críticos ucranianos no debate político americano. A proposta de dar acesso preferencial às empresas americanas aos minerais críticos – lítio, titânio, urânio e grafite – constava do “Plano da Vitória” apresentado por Zelensky em outubro de 2024, mas o tema já fora suscitado meses antes pelo Senador Lindsey Graham, da Carolina do Norte, neoconservador russofóbico, aliado próximo de Trump.
(Arquivo) Presidente Volodymyr Zelensky apresentou Plano da Vitória em outubro de 2024 (Crédito: Gabinete presidencial da Ucrânia. Fonte: Wikimedia Commons)
Graham passou a bater nessa tecla desde fevereiro de 2024, quando sugeriu que a ajuda concedida por Washington à Ucrânia fosse convertida em crédito compensado pela exploração de minerais críticos17. Desde então, em linguagem que soava como música aos ouvidos de Trump, ele proclamava que a guerra na Ucrânia não era apenas pela democracia, mas por dinheiro, lembrando que a Ucrânia estava sentada em cima de um tesouro de trilhões de dólares.18
Na entrevista de fevereiro, o senador Graham atribuiu a ideia a Donald Trump, que a teria sugerido em conversa telefônica dias antes. Não há como aferir a fidedignidade do relato, mas a questão da paternidade é irrelevante. O que importa é a defesa pública que o senador passou a fazer dela, como parte de um plano que ia na contramão do discurso de Trump sobre a guerra na Ucrânia.
De fato, com o seu colega democrata Richard Blumenthal Lindsey Graham estava à testa do movimento no Senado para levantar as restrições estabelecidas por Biden ao emprego de mísseis de longo alcance pela Ucrânia, assegurar o seu ingresso na OTAN, e codificar a legislação existente sobre o apoio ao país para torná-la vinculante.
A declaração conjunta que fizeram ao retornar de uma viagem de solidariedade à Zelensky, em agosto de 2024, deixa claro o sentido de sua proposta.
“Now is the time to form a strategic partnership with Ukraine that can have tremendous economic benefits to the United States and lead to stability in Europe. … We must not abandon them in their hour of need. We should accelerate the gains that have been achieved through dogged determination and courage.”19
Não surpreende, pois, que seu autor fosse criticado acerbamente por seus adversários nacionalistas no interior do movimento.20
O resultado da votação antes evocada sobre o último pacote de ajuda à Ucrânia no governo Biden mostrou como o tema dividia o campo republicano. A declaração recente de Steve Bannon pedindo a prisão de Lindsey Graham por sabotar a diplomacia do governo Trump, tentando envolver os Estados Unidos em uma guerra direta com a Rússia, com sua proposta de sancionar com tarifas de 500% os países que mantivessem relações comerciais com esse país, atesta o caráter duradouro e a intensidade da clivagem.
O comportamento errático de Trump, mesmo depois de assinado o acordo de minerais com a Ucrânia, mostra que ele oscila entre os dois lados da disputa de posições em sua casa, como se pode perceber pelo contraste entre o tom agressivo de algumas declarações e a cordialidade da comunicação direta com Trump – que nunca foi interrompida, e que se renova agora, quando o ataque israelense ao Irã abre uma nova crise perigosa, que requer a coordenação entre as duas potências para tentar evitar (não garantir) um resultado catastrófico.
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Transformada em projeto de lei, com amplo apoio bipartidário no Senado, a ideia de sanções secundárias estratosféricas foi apresentada por Graham a Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, em reunião realizada em Berlim, em 2 de junho21, movimento provocativo que explica o radicalismo de Steven Bannon ao pedir a cassação do passaporte do senador e sua prisão imediata. Mas sobre Graham e as tensões no partido republicano já falamos o bastante. Cabe agora dizer uma palavra sobre as relações transatlânticas do ponto de vista da Europa. (continua…) ![]()
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Notas explicativas e referências
1 Khalaf, Roula; Jenkins, Patrick; Storbeck, Olaf, “Buy American to avoid Trump trade war, says Christine Lagarde”, Financial Times, 28.11.2024.
2 Martelli, Lara, “Pascal Lamy shares some tips on how the EU should fight Donald Trump’s “stupid” trade war.” Europa, Medias, Trade, 20.11.2024; “EU should negotiate with US, China with a ‘gun in pocket, says Pascal Lamy”, Euronews, 27.01.2025.
3 Blackburn, Gavin, “Trump says ‘EU has been very unfair to us’ as he announces 25% tariffs” Euro News, 19.02.2025.
4 Gijs, Camille, “Trump: The EU is ‘nastier than China’” Politico Europa, 12.05.2025.
5 Bessent, Scott, “A Trump adviser on how the international economic system should change”, The Economist, 23.10.2024.
6 Miran, Stephen, A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System, Hudson Bay Capital, 11.2024, p. 23.
7 Tong, Ma, “US tariffs based on flawed logic, will backfire with the US suffering most: former WTO chief Pascal Lamy”, Global Times, 2.04.2025.
8 America First, Russia, and Ukraine By Lt. General (Ret.) Keith Kellogg and Fred Fleitz, in Fleitz, Fred, op. cit. pp-99-128.
9 Id. Ibid., p. 128.
10 Brands, Hal “Every President Has a Foreign Policy. Trump Has Five” Bloomberg, 3.02.2025.
11 Rudge, Majda; Shapiro, Jeremy, “Polarised power: The three Republican ‘tribes’ that could define America’s relationship with the world”, European Council on Foreign Relations, 11.2022
12 Ellison, Davis; Hooft, Paul van, “Twilight of Atlanticism. America’s Shifting Approaches to Europe”, The Hague Center for Strategic Studies, 11.2024.
13 Senate Daily Press, 23.04.2024
14 Cowan, Richard; Warburton, Moira; Zengerle, Patricia, “US House passes $95 billion Ukraine, Israel aid package, sends to Senate”, Reuters, 21.04.2024.
15 Bhadrakumar, M. K, “Mineral Deal Resets Geopolitics of Ukraine”. Indian Punchiline, 4.05.2025.
16 Cf. Brands, Hal, “A ‘Reverse Kissinger’? Not While Xi and Putin are Around”, Bloomberg Opinion, 9.05.2025.
17 CBS NEWS Transcript: Sen. Lindsey Graham on “Face the Nation,” Feb. 18, 2024
18 CBS NEWS, Transcript: Sen. Lindsey Graham on “Face the Nation,”9.06.2024. Norton, “US Senator says Ukraine is ‘Gold Mine’ with $ 12 trillion of minerals ‘we can’t afford to lose’”, Geopolitical Economic Report, 13.06.2024; Pabst, Stavroula, “Gleeful Grahan: Ukraine War all ‘about money”. Responsible Statecraft, 25.11.2024.
19 Richard Blumenthal. U.S. Senator for Connecticut, Graham, Blumenthal Statement on Visit to Ukraine, News Room Press Releases, 12.08.2024.
20 Palmer, Ewan, “Steve Bannon Says Lindsey Graham Is ‘Slimiest’ Member of the GOP”. Newsweek, 12.06.2024.
21 European Commission – Press release, Read-out of the meeting between President von der Leyen and US Senator Lindsey Graham, 2.06.2025.
* Sebastião Velasco e Cruz é ex-coordenador do INCT-INEU e coordenador do OPEU, Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP).
** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
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(Arquivo) Presidente Volodymyr Zelensky apresentou Plano da Vitória em outubro de 2024 (Crédito: Gabinete presidencial da Ucrânia.