‘America 250’, Quatro de Julho e ‘ser americano’
Aviso da Parada de Quatro de Julho, em Chesterfield, MA, EUA (Crédito: Tatiana Teixeira/Arquivo pessoal)
Por Tatiana Teixeira* [Informe OPEU] [Crônica] [SUSI 2025] [Política Doméstica] [America 250]
Este texto começou a ser pensado, em Amherst, no estado de Massachussetts, nos Estados Unidos. Ao longo de exatas seis semanas, de junho a julho, eu e mais 13 scholars de diferentes países participamos do Study of the U.S. Institute (SUSI 2025) de Política Americana e Pensamento Político, na Universidade de Massachusetts Amherst (UMass). O programa foi patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA e administrado pela Universidade de Montana (UM). Nesse período, fomos imersos, intensamente, na cultura, na política e na sociedade americanas. E essa experiência incluiu presenciar como os americanos celebram o Quatro de Julho, o feriado nacional mais importante e mais reverenciado do país.
Não foi a minha primeira vez.
Em 2012, morei por quase um ano nos EUA, para fazer a investigação empírica da minha pesquisa doutoral, graças a uma bolsa de “Doutorado-Sanduíche” da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). A maior parte dessa estada foi na Filadélfia, no estado da Pensilvânia. Capital provisória dos EUA de 1790 a 1800, a cidade foi palco da Revolução Americana, que levou à assinatura da Declaração de Independência (1776) e da Constituição. Trata-se, portanto, de visita basilar para os americanistas, especialmente aqueles interessados na história e na política doméstica americanas. Hoje, Philly é uma das principais cidades do país (6ª), com uma população em torno de 1,6 milhão de habitantes.
Embora os símbolos e os rituais estejam sempre presentes na cultura autocelebratória nacional, a qualquer tempo, em qualquer lugar, as duas experiências estão longe de serem comparáveis.
Passar o Quatro de Julho em uma pequena cidade americana – e, especialmente, na região da Nova Inglaterra, de forte herança histórica puritana e considerada berço da América –, é muito diferente de estar em uma grande capital do Médio-Atlântico. É diferente do que se vê nos filmes e documentários, do que ouvimos nas canções e lemos nos livros. Porque, ao vivo, é muito mais sedutor. Nos incautos e mais despreparados, o exercício do poder de atração é quase irresistível.
Ali, no microcosmo de Chesterfield, MA, todos os elementos que dão materialidade à compartilhada ideia de excepcionalismo estão reunidos de um modo peculiar. Tentando instilar assombro e encantamento, destacam-se, sobremodo, aos olhos da pesquisadora brasileira. Além disso, estar inserida em um contexto institucional acompanhado, com orientação e recursos logísticos disponíveis – caso desta segunda visita, na esfera do SUSI – foi, inegavelmente, um facilitador.
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Esse conjunto ímpar de condições deu à experiência um caráter mais genuíno, e não turístico ou artificial. Também proporcionou o tempo necessário para a observação e a interação direta com a população local. Esses dois aspectos foram fundamentais para uma leitura mais fidedigna do significado que a data mantém nos Estados Unidos, e que ainda dialoga bastante com as observações feitas por Tocqueville, no século XIX, sobre comunidade e individualismo. Descortinar a relação dos americanos com o Quatro de Julho é, também, um dos caminhos para melhor entender a ideia que os americanos têm de si mesmos. Porque, em última análise, seu significado está diretamente relacionado com a maneira como enxergam o que é “ser americano” (e, consequentemente, o que não é), quais elementos compõem essa identidade e como veem o país.
Por que tudo isso importa?
Porque, apesar dos tempos tão duros e da aguda polarização política sem sinais de arrefecimento, a data e seus simbolismos ainda ressoam fortemente nos corações e mentes. Porque seus rituais cívicos e patrióticos continuam forjando senso de pertencimento e de coesão nacional. Porque “ser americano” é uma conversa inacabada que passa, nos EUA, por debates reiteradamente descontinuados e invisibilizados sobre raça e racismo estrutural, imigração, religião e desigualdade social. Neste 250º aniversário da Independência, as bandeiras, o hino e os fogos de artifício estarão, como de costume, por toda a parte. O debate, provavelmente, não.
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Escrevo esta breve introdução, no âmbito das atividades sobre “America 250”, em desenvolvimento com a professora e pesquisadora Camila Vidal (UFSC/INCT-INEU). Os próximos textos desta temática serão publicados perto da comemoração da efeméride. ![]()
* Tatiana Teixeira é editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), pesquisadora de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025).
** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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