América Latina

Poder e dever-ser: a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos 

Primeira foto de Maduro sendo levado por militares dos EUA, em localização não determinada. Autenticidade não confirmada (Crédito: X/@gustav0cardenas)

Dossiê “Trump 2.0 e o golpe na Venezuela

Por Leonardo Fernandes* [Informe OPEU] [Venezuela] [Trump 2.0]

O bloqueio econômico imposto à Venezuela nos últimos anos funcionou como prólogo de um desfecho anunciado. Sanções financeiras crescentes, isolamento diplomático seletivo e a asfixia da capacidade de exportação de petróleo prepararam o terreno para uma escalada que deixou de ser apenas econômica. O deslocamento de porta-aviões e navios de guerra norte-americanos para o Mar do Caribe, sob os argumentos de “combate ao narcotráfico” e “proteção da democracia”, sinalizava de forma quase transparente que algo maior estava em gestação. Na lógica da coerção interestatal, dificilmente se mobiliza poder naval dessa magnitude apenas para fins simbólicos: a presença militar maciça é mensagem, pressão e, em última instância, prontuário operacional para intervenção. 

A Venezuela, sob o regime autoritário de Nicolás Maduro, converteu-se em um espaço de convergência entre colapso institucional interno e disputas geopolíticas externas. A prisão de Maduro e sua remoção forçada do poder em 2026 não podem ser compreendidas apenas como resposta a violações democráticas ou humanitárias, mas como o ponto culminante de uma estratégia gradual de coerção econômica, diplomática e militar conduzida pelos Estados Unidos. 

Guardadas as diferenças históricas, regionais e contextuais, o paralelo com a invasão do Iraque em 2003 é inevitável. Também ali se observou a construção de uma narrativa moral e securitária — armas de destruição em massa, libertação do povo iraquiano, combate ao terrorismo — sem a devida autorização do Conselho de Segurança da ONU. A intervenção contra o governo de Maduro repete esse padrão: uma potência que se arroga o direito de interpretar, à margem da legalidade internacional estrita, o que seria a “ordem justa” ou a “responsabilidade de proteger”. Em ambos os casos, o discurso de legitimidade moral busca compensar a ausência de legalidade formal, deslocando o centro de gravidade da ONU para uma forma de unilateralismo justificatório conduzido por Washington. 

Esse unilateralismo justificatório consiste na substituição da legalidade internacional por narrativas morais produzidas pela própria potência interventora, que passa a atuar simultaneamente como acusadora, juíza e executora da ordem internacional. A legalidade cede lugar à legitimidade autoproclamada, e a exceção se transforma em método recorrente da política de grande potência. 

(Arquivo) Fuzileiros navais dos EUA do 2º Batalhão, 1º Regimento de Fuzileiros Navais, escoltam prisioneiros de guerra inimigos capturados até uma área de detenção no deserto do Iraque, em 21 mar. 2003, durante a Operação Liberdade do Iraque (Crédito: Fuzileiros Navais dos EUA/ Wikimedia Commons)

O velho adágio romano si vis pacem, para bellum — se queres a paz, prepara-te para a guerra — paira como pano de fundo dessa dinâmica. Ele revela, sem rodeios, o núcleo duro da lógica da segurança no sistema internacional: a paz, quando existe, costuma ser o resultado provisório de um equilíbrio de forças, e não de um consenso ético compartilhado. A intervenção na Venezuela e a captura de Maduro explicitam uma lição incômoda para os países latino-americanos: a soberania, no sistema internacional, só se sustenta de forma efetiva quando respaldada por capacidade material de dissuasão. Sem esse sustentáculo, a soberania tende a se converter em flatus vocis, um enunciado jurídico dissociado da correlação de forças que lhe daria substância. 

A mensagem para a América Latina é clara: Estados desarmados, fragmentados e estruturalmente dependentes permanecem vulneráveis a imposições externas, ainda que recobertas por retórica humanitária ou democrática. A defesa da democracia, nesses casos, opera menos como princípio universal e mais como instrumento contingente da política de poder. 

Nesse cenário, a Venezuela não é apenas um regime autoritário em crise, mas um verdadeiro hub de disputas entre grandes potências. Rússia e China consolidaram, na última década, laços econômicos, militares e políticos com Caracas. Moscou forneceu armas, assessoria militar e apoio diplomático, enxergando na Venezuela uma plataforma para projetar influência no chamado Hemisfério Ocidental e demonstrar que ainda detém capacidade de desafiar a ordem liderada pelos Estados Unidos. Pequim, por sua vez, investiu em infraestrutura, firmou acordos de fornecimento de petróleo de longo prazo e utilizou a relação com Caracas como peça de um tabuleiro energético e geopolítico mais amplo. 

Para Moscou e Pequim, esse apoio jamais foi altruísta ou ideológico em sentido estrito, mas instrumental, orientado por cálculos de poder, acesso a recursos estratégicos e sinalização geopolítica. Ao apoiar o governo venezuelano, ambos buscavam ampliar sua margem de manobra no Sul Global e reduzir a capacidade dos Estados Unidos de manter uma hegemonia inconteste em seu “quintal” histórico. 

Se, em investigações criminais, recomenda-se “follow the money”, no caso venezuelano, a máxima mais adequada talvez seja “follow the resources”. A Venezuela detém uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ainda exploradas muito aquém de seu potencial, devido a sanções, má gestão e colapso infraestrutural. Em um contexto de transição energética lenta, no qual o petróleo continua central para a segurança energética global, dominar um locus como a Venezuela permanece altamente estratégico para Washington. 

Sob essa ótica, a prisão de Maduro não representa apenas o fim de um sistema autoritário, mas um movimento clássico de contenção geopolítica: desloca-se um aliado de Moscou e Pequim, reconfigura-se a arquitetura energética regional e se envia um sinal inequívoco para outros governos latino-americanos inclinados a se afastarem da órbita estadunidense. 

É nesse ponto que as lentes teóricas das Relações Internacionais se mostram indispensáveis. A retórica liberal, inspirada na promessa kantiana de uma paz perpétua fundada em instituições, comércio e regimes republicanos, volta a colidir com a realidade da política de grande potência. A intervenção na Venezuela demonstra que a “paz” perseguida por potências hegemônicas tende a ser condicional, hierárquica e frequentemente imposta pela força ou pela ameaça de seu uso, mais do que construída por consenso normativo. 

Teóricos como John Mearsheimer, no campo do realismo ofensivo, ajudam a decifrar esse movimento: grandes potências buscam maximizar seu poder relativo e impedir a ascensão de competidores em regiões consideradas vitais. Sob essa lente, a Venezuela se converte em ponto de fricção inevitável entre o poder estabelecido — os Estados Unidos — e potências revisionistas como China e Rússia. A prisão de Maduro deixa, assim, de ser um gesto moral isolado e passa a ser compreendida como parte de uma estratégia mais ampla de manutenção da primazia norte-americana no “hemisfério ocidental”. 

Henry Kissinger, com sua ênfase no equilíbrio de poder e na RealPolitik, provavelmente veria esse episódio como mais um capítulo previsível da política internacional: não é a justiça abstrata que organiza o sistema, mas a busca incessante por vantagem relativa, moderada, quando muito, por compromissos pragmáticos e arranjos de conveniência. 

O desfecho venezuelano recoloca, portanto, um dilema antigo na agenda latino-americana: entre a crença kantiana em uma ordem internacional juridicamente regulada e a leitura realista de um mundo em que o poder continua a definir os limites do possível. A prisão de Maduro pelos Estados Unidos materializa o hiato entre o dever-ser normativo e o ser efetivo da política global. Para os países da região, o episódio funciona simultaneamente como advertência e convite à reflexão: advertência de que soberania sem capacidade material é precária, e convite a repensar projetos de integração, defesa e autonomia estratégica capazes de transformar a América Latina de mera zona de influência em sujeito político mais coeso em um sistema internacional ainda mais próximo de Tucídides do que de Kant.

 

Leonardo Fernandes é graduado em História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Membro do Grupo de Trabalho de História Militar da ANPUH-PI, tem pesquisas publicadas pela Universidade de Yale. Atua como colunista de Relações Internacionais no jornal O Povo, do Ceará. Contato: leonardofernandes08@yahoo.com. 

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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