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Relação Brasil-EUA em meio à reativação da Doutrina Monroe 

Crédito: Tatiana Carlotti

Por Victor Farinelli* [Informe OPEU] [Divulgação]

Encerrando a jornada de debates do Encontro Anual INEU 2025, realizada entre os dias 3 e 5 de dezembro, a professora Mônica Hirst (UERJ) trouxe uma análise sobre os desafios do Brasil em suas relações com os Estados Unidos. 

Sua apresentação, na tarde do dia 5 de dezembro, coincidiu com a divulgação da nova política de estratégia nacional norte-americana, que incluiu um capítulo específico para a América Latina. Trata-se da “reativação da Doutrina Monroe, dita em todas as suas palavras, em contexto de absoluto vazio do regionalismo latino-americano e caribenho”, apontou.

Hirst mencionou que o trabalho desenvolvido atualmente pelo INEU, que entra em nova fase institucional, coincide “com um momento de enormes carências, necessidades e estímulos a serem trabalhados, em todas as dimensões e de forma muito interdisciplinar”, para se pensar a ordem internacional.

Em sua explanação, ela analisou as relações Brasil e Estados Unidos neste contexto de “crise do liberalismo e do projeto hegemônico norte-americano; e como o Brasil está se inserindo nessa etapa”.

120 anos atrás

Para tal, Hirst propôs uma comparação diacrônica, voltando no tempo, estados 120 anos atrás. Ela lembrou que nos primeiros momentos, após a volta de Trump ao poder, havia “uma admiração histórica dele ao período do (ex-presidente) Theodore Roosevelt (1901-1909)”, o período da diplomacia do ‘big stick’ (grande porrete, em tradução livre). “De fato, se observamos o atual cenário bélico no Caribe, não há dúvida nenhuma de que é o cenário de uma diplomacia de canhoneira”, ressaltou. 

Naquele período, os Estados Unidos aderiam “ao jogo interimperialista na ordem internacional”, enquanto o Brasil adquiria “um sentido fundacional” e que o Barão do Rio Branco levava adiante, por dez anos, um conjunto de premissas e princípios da política externa que davam centralidade à relação com Washington.

Durante esse período, ressaltou Hirst, o país passou a trabalhar sua relação com os Estados Unidos nos termos da chamada “aliança não escrita”, ou seja, sem uma formalização de sua aliança estratégica. “Ao longo desses 120 anos, essas relações sempre tiveram uma centralidade sem exclusividade, do ponto de vista da construção de um projeto de inserção internacional e de buscar manter ativos outros pulmões de relacionamentos, de interesse e, obviamente, de projeção e atuação internacional”, salientou. 

Uma das características dessa relação é a inexistência de “projetos de inserção e de construção na política externa brasileira que sejam conflitantes. Eles se complementam ou convivem em silêncio, absorvendo as diferenças”. Para os Estados Unidos, o Brasil, que vivia a construção do ABC, era visto como “uma referência regional, de estabilidade regional, de ausência de conflito no âmbito sul-americano, que complementaria, justamente, a projeção dos Estados Unidos, não só na América Latina e no Caribe, mas no sistema internacional”.

Ao mesmo tempo, o Brasil buscava “pulmões alternativos que convivessem com esse relacionamento e gerassem uma possibilidade de diversificação e de articulações políticas, econômicas e militares alternativas”. 

Reativação da Doutrina Monroe

Dando um salto no tempo, Hirst situou os nossos desafios no tempo presente, marcado pela “redefinição das regras do jogo” e frente “a uma manifestação claramente imperial, com os Estados Unidos exacerbando seus instrumentos de poder, alterando as regras do jogo e manifestando, de forma agressiva, sua capacidade de impor vontades”.

“Projetos originais que tinham um sentido sutil, agora recuperam um sentido agressivo, como o exemplo da Doutrina Monroe e de sua hipersecuritização” Hirst mencionou como parte da política estratégica norte-americana para a América Latina a “reativação da Doutrina Monroe, dita em todas as suas palavras e com todas as suas situações”. 

E apontou o fato disso ocorrer em um “contexto de absoluto vazio do regionalismo latino-americano e caribenho”, o que é preocupante, frisou. “Esse vazio político regional encontra a reativação da Doutrina Monroe de uma maneira absolutamente pacífica e docilizada”, acrescentou.

E questionou: “até que ponto o vazio do regionalismo sul-americano não termina sendo um facilitador de uma reaproximação não escrita e não articulada com os Estados Unidos, em termos da liberação de tensões e de negociações que no contexto de uma Unasul ativa e de uma Celac unificada seriam mais difíceis?”

Ela também observou que este momento revela “um tecido construtivo e de reciprocidades entre os dois países que seis meses atrás eram praticamente invisíveis”. E propôs a identificação “de núcleos ativos dentro da nossa vida democrática que estimulam e respondem a esses estímulos que vêm dos Estados Unidos nessa direção”.

Hirst citou três pilares de sustentação dessa relação: a dimensão militar, de defesa e segurança. Na mesa de negociação, afirmou, está um trabalho conjunto de combate ao crime organizado. Neste sentido, ela destacou ser “extraordinário falarmos disso abertamente”, quando Washington bombardeia as embarcações no Caribe, sob o mesmo argumento de combater o crime organizado. “É surpreendente que estejamos normalizando essa possibilidade de entendimento”, observou.

O outro pilar, no âmbito econômico-financeiro, ainda não está absolutamente sólido, mas caminha em direção “às possibilidades e à vinculação” ao sistema financeiro. “Somos um grande território atraente para o investimento internacional”. 

A dimensão mais problemática, afirmou Hirst, está no terceiro pilar: o campo político institucional e da saúde do Estado de Direito. 

“O nível de tensão que observamos na convivência entre os Três Poderes mostra o quanto temos de nos articular para construir pulmões alternativos em termos de política externa”, afirmou, ao citar o papel dos BRICS e da China.

Em sua avalição, as agendas estão abertas e não há respostas frente às “normatividades, hoje traduzidas em abuso de poder, que estão sendo normalizadas”. Ao mesmo tempo, salientou, o vínculo do Brasil com os Estados Unidos não é mais o “de uma economia exportadora de café que precisava assegurar um mercado em expansão” e “que não tinha a complexidade de uma interdependência assimétrica tão posta sobre a mesa”.

Confira a íntegra da apresentação da professora Mônica Hirst

 

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