Paulo Abraão e Lia Valls analisam tensionamento político e comercial da relação EUA-Brasil
Crédito: Tatiana Carlotti
Por Tatiana Carlotti [Informe OPEU] [Divulgação]
Ao longo de 2025, as relações centenárias entre Brasil e Estados Unidos passaram por uma crise frente à cobrança do tarifaço sobre os produtos brasileiros perpetrada pelo presidente norte-americano Donald Trump. Medidas justificadas como uma retaliação ante a suposta “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso, após ser a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, pela Corte Suprema.
Para compreender este contexto político e comercial, o Encontro Anual INEU 2025, reuniu duas autoridades no assunto: o jurista Paulo Abrão, diretor-executivo da Washington Brasil Office (WBO), que esteve à frente da Secretário Executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA). E a professora de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Lia Valls Pereira.
Ela esmiuçou a política comercial de Trump; ele, os bastidores da pressão do lobby da extrema direita em Washigton, dando um panorama de ponta e apresentando um cenário de possíveis tensionamentos. Esse debate, ocorrido na segunda mesa redonda do dia 5 de dezembro, foi mediado por outra sumidade no tema Estados Unidos, o cientista político e professor Tullo Vigevani (Unesp-SP).
A íntegra pode ser acompanhada no Canal do INEU na plataforma YouTube. Abaixo, os principais temas debatidos.
Pressão da extrema direita nos Estados Unidos

Partindo do contato com atores políticos, diplomáticos e institucionais nos Estados Unidos e da Europa, no âmbito do Washington Brasil Office (WBO); e da experiência enquanto Secretário Executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (2016-2020), Paulo Abrão (Instituto FHC) trouxe uma leitura das pressões políticas que explicam as turbulências entre as relações Brasil e Estados Unidos neste ano.
Um ponto de convergência nas avaliações dos agentes nacionais e internacionais, salienta, é que a relação bicentenária, embora não modificada estruturalmente, evoluiu “em padrões não lineares”.
“Sempre houve uma cooperação econômica e geopolítica [entre o Brasil e os Estados Unidos], com algum nível de tensão ideológica e algum grau de instrumentos de pressão”, observa. E neste contexto de tarifaço, mesmo antes da abertura formal de negociações diretas entre Lula e Trump, havia alguma clareza de que “quando esse processo começasse, ele se daria em um âmbito que não se explicaria exclusivamente a partir da política internacional”, salientou.
“Até porque ambos os governos teriam de apresentar resultados e explicações domésticas” e que “teriam de ser negociações simultâneas neste nível interno, acrescentou citando a variável eleitoral: as midterms nos Estados Unidos e as eleições presidenciais no Brasil, ambas em 2026. “Tudo isso está sendo medido, de certa maneira, nesta aproximação”, acrescentou.
No âmbito externo, pesa “a identificação de agendas comuns” em um quadro de “reafirmação dos Estados Unidos no hemisfério nesta nova investida contra a Venezuela”.
A grande novidade que as pessoas dizem, salientou, é que agora “atores transnacionais e empresariais estariam influenciando, como nunca estiveram, na construção dessas relações de forma mais direta”. Ao mesmo tempo, a sociedade civil, embora de forma muito mais inviabilizada, “vem assumindo um certo protagonismo”.
Ele apontou esses dois centros principais de causalidade política como interferências atuais nas relações Brasil-Estado Unidos: o jogo bilateral clássico que sempre existiu e as variáveis multilaterais como os BRICS e o sistema interamericano, por exemplo.
Ele destacou também a presença de muito intercâmbio parlamentar. “Nós fizemos muitas missões de parlamentares brasileiros para dialogar com parlamentares norte-americanos nos últimos três anos, e de lá para cá também”. Há outras conversas que acontecem paralelamente ao Itamaraty.
Big techs e extrema direita
Abrão apontou dois fatores que não podem ser ignorados atualmente neste relacionamento: a pressão das big techs e da extrema direita brasileira que vem atuando nos Estados Unidos. “O papel das big techs não tem como ignorar”, destacando que o interesse dessas plataformas talvez seja um dos fatores mais incertos nas eleições de 2026.
“A outra novidade é influência da extrema direita brasileira no território [norte-americano], operando e se articulando, o que antes não existia”, salienta. Abrão mencionou que um dos trabalhos da WBO é fazer o monitoramento dessa movimentação. “Depois que eles saem do escritório de um determinado lugar, no dia seguinte, nós estamos no mesmo lugar com a nossa turma para mostrar que pode ser diferente do que eles escutaram”, visando “neutralizar algumas coisas”.
Com isso, destacou Abrão, eles conseguiram derrubar “uma série de tentativas de audiências no Congresso norte-americano que dariam palco para a extrema direita defender que o Brasil vive uma ditadura judicial”. Ele contou que “já estão chegando a um nível de discurso de que o Brasil é um narcoestado; o presidente Lula seria um narcoditador”.
Ele destacou que “a gramática usada por esses grupos de extrema direita é muito próxima daquela usada em relação a países como a Venezuela, Cuba e a Nicarágua”. Até porque, salientou, isso não é feito de improviso. “Os escritórios de lobby que estão dando assessoria técnica para essa movimentação da extrema direita nos Estados Unidos são os mesmos que dão assessoria para as diásporas cubana, venezuelana e a nicaraguense”, relatou.
Trata-se de um método conhecido e testado. “Os mesmos escritórios, os mesmos atores estão dando o mesmo suporte e o usando o mesmo plano de implementação que foi exitoso para levar o isolamento desses outros países”, salientou. O resultado, advertiu Abrão, é a criação de situações irreversíveis. “Independentemente do governo que entre, ele não tem como retroceder em posições mais radicalizadas” já assumidas pelo Estado norte-americano.
Direitos Humanos
Segundo Abrão, a maior novidade está na instrumentalização do sistema interamericano de direitos humanos. “A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e a Corte Interamericana nunca foram diretamente instrumentalizadas pela política exterior norte-americana contra o Brasil de maneira orgânica”, destacou. Isso está acontecendo neste momento, alertou.
A força desse movimento, advertiu, decorre justamente da pressão das mesmas estruturas técnicas e jurídicas de apoio aos lobbys desses atores da extrema direita, no território norte-americano, para atuarem em Washington. Ele explicou que “essa agenda está cumprindo a mesma gramática” adotada no caso de outros países para o caso brasileiro.
Abrão advertiu que o principal campo de tensão neste momento não passa somente por manter uma relação racional entre os governos no âmbito do Executivo; mas sim nesta atuação no Congresso norte-americano que “tem vida própria”. “Toda possibilidade de tensionamento será construída no parlamento norte-americano”, salientou.
“Ali eles aprovam o orçamento e determinam quem e o que será cortado”. Basta sair uma carta dizendo ‘ali não pode mais’” e isso interfere em toda a agenda de trabalho da CIDH. “Foi assim para a Bolívia em 2019 na questão do Evo, para a Venezuela, Nicarágua entre outros exemplos”, exemplificou.
Em sua avaliação, o governo brasileiro precisa estar muito atento “à aplicação dos instrumentos do Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos e do sistema OEA (Organização dos Estados Americanos) em relação a possíveis tensionamentos, especificamente em torno dos riscos para as eleições do ano que vem”.
Confira a apresentação de Paulo Abrão
A lógica comercial de Trump

Na sequência a professora da UERJ, Lia Valls Pereira, explicitou a lógica da política comercial de Donald Trump e sua ruptura com o multilateralismo, apresentando os cenários possíveis neste momento.
Lia Valls começou sua explanação trazendo uma leitura do Projeto 2025, a coletânea de propostas de políticas organizada pela Heritage Foundation para remodelar o governo norte-americano. Do calhamaço de 900 páginas, a professora identificou como notório objetivo a ampliação dos poderes do Executivo e, ao mesmo tempo, reduzir a margem da política comercial, uma prerrogativa do Congresso norte-americano segundo a Constituição do país.
Ela citou algumas contradições do documento, como os capítulos do conselheiro de Comércio de Trump, Peter Navarro, centrado em “comércio justo, defendendo a questão do protecionismo”; e outro do CEO do think thank Competitive Enterprise Institute, Kent Lassman, defendendo a importância free trade”.
Lia Valls também mencionou um artigo do conselheiro econômico do presidente norte-americano, Stephen Miran, afirmando que “os Estados Unidos tiveram um ônus enorme em ser o ponto central do sistema multilateral” e tornarem o dólar uma divisa internacional.
Na visão de Miran, por isso existe “um déficit comercial estrutural dos Estados Unidos com a maioria dos países ao oferecer a liquidez” e por ter uma moeda que se tornou “a divisa, por excelência, do sistema internacional”, que diante da valorização do dólar promove a piora “da situação da indústria, da classe média, das desigualdades etc.”
O objetivo, segundo essa visão, é o de criar “um sistema que consiga reduzir o déficit norte-americano, mantendo o dólar como a moeda internacional, por definição”. Daí, aponta a professora, a solução proposta implicar uma transferência do ajuste na ordem internacional pela qual os demais países são obrigados a se ajustar “para garantir que o dólar continue sendo a moeda internacional e, ao mesmo tempo, que os Estados Unidos melhorem sua balança comercial com os outros países”.
Esta é a base do “comércio justo” do governo Trump, cujos objetivos políticos são ainda maiores. “Eles falam muito claramente em criar uma nova ordem”, salientou. Ela aponta, contudo, que este “novo protecionismo” é diferente das fases anteriores.
Na época de Ronald Reagan (1981-1989), também havia a ideia de uma nova ordem, mas ela era pensada dentro do sistema multilateral. “Trump rompe com isso, ele não quer reformar o sistema nenhum, mas criar uma ordem sob outras bases”, na qual os Estados Unidos permanecem no centro desse sistema, mas sob outros fundamentos, explicou.
Neste movimento, observou a especialista, Trump recorre a instrumentos inesperados, introduzindo no comércio internacional “um grau de incerteza e imprevisibilidade” inéditos. “O comércio internacional precisa ter um mínimo de previsibilidade. A tarifa não é algo que um dia é uma coisa e no dia seguinte outra. “Os setores exportadores e importadores precisam jogar com um mínimo de certeza, em termos dos preços” e isso também no âmbito dos investimentos.
Ao descrever o chamado “Liberation Day” e o pacote tarifário anunciado por Trump, Lia Valls destacou que o argumento da “tarifa de reciprocidade” foi uma invenção do governo Trump. As tarifas foram calibradas de acordo com déficits do país, complementou, apontando o “vai e volta” da escalada tarifária contra a China. “O próprio [presidente chinês] Xi Jinping falou: ‘chega, não dá para continuar nesse jogo porque ele é irracional’.”
Mais de 90 países foram atingidos pelo tarifaço, e os Estados Unidos priorizaram alguns em detrimento de outros, inclusive penalizando países menores que acabaram arcando com custos maiores como o Vietnã e o Camboja. ”Para esses países menores, o peso tem sido grande”, afirmou.
A pesquisadora também observou a existência de um padrão transversal nos acordos comerciais, como o compromisso de fazer investimentos nos Estados Unidos. “Ele faz isso não só com a União Europeia, mas com países relativamente pobres”, salientou.
Além disso, “há um compromisso de não colocar taxações” em relação às big techs; e um “mecanismo de escrutínio” a países que fazem acordos comerciais vistos como “prejudiciais aos interesses norte-americanos”, em particular nos setores de “terras raras, plataformas digitais e propriedade intelectual”, destacou.
Compartilhar a soberania
Ao desenhar cenários de curto prazo, Lia Valls mostrou que em alguns casos o Brasil conseguiu desviar o comércio, ressaltando a importância do setor privado neste movimento, especialmente as commodities que conseguiram fazer o desvio de mercados. “O desafio é na área de algumas manufaturas, nas commodities você tem conseguido fazer”, destacou.
A professora também apresentou vários gráficos que mostram a queda do volume de exportações para os Estados Unidos. Isso foi compensado de forma que, no total, as exportações brasileiras continuam crescendo. Ao mesmo tempo, salientou, “o déficit [do Brasil] em relação aos Estados Unidos continua aumentando. É o maior que já tivemos”.
Um primeiro cenário, positivo, é que as pressões domésticas de setores dos Estados Unidos continuem e o Brasil consiga a redução das tarifas e, também, a retirada de sanções contra ministros etc.
Segundo Lia Valls, a questão central é o que os Estados Unidos vão querer em trocas, em termos de abertura comercial, o que pode criar tensões na política doméstica brasileira. “Que grau de abertura é esse que a gente vai oferecer? Que setores serão oferecidos?”, questionou.
Em termos regulatórios, ela analisa que a questão das big techs é o ponto mais delicado, inclusive, porque envolve o Congresso brasileiro. “É muito difícil conseguir um acordo como Trump quer de não regulação”. Além disso, outras variáveis podem atravessar a negociação entre os dois países, como o contexto de ameaças norte-americanas contra a Venezuela. “Suponha que os americanos invadam o país, como fica o Brasil nesta história?”
Em relação aos cenários globais, ela citou Michael Froman, presidente do Conselho de Relações Exteriores, para que a melhor opção é “criar um sistema de coalização de países com ideias semelhantes, constituindo uma rede de relações plurilaterais abertas”.
Segundo a professora, ao citar o papel da Organização Mundial do Comércio (OMC), a insistência no multilateralismo “tal como era antes” não é mais possível. A questão agora é como o Brasil vai se posicionar frente a acordos plurilaterais, inclusive, em setores que integram novas áreas ainda não reguladas, como e-commerce e as big techs.
Outro cenário é “reformar o sistema a partir das propostas de coalizações, como os Brics”, o que abre outros desafios. “Como você negociar em um mundo onde é preciso aceitar que existem países que cresceram, como a China obviamente, que têm em muitas áreas de comércio e interpretações diferentes em relação às políticas industriais, ao uso de subsídios, ao que representa uma empresa estatal”, por exemplo.
“Como conciliar essa diversidade? Como o Ocidente vai encaixar o Oriente e criar um sistema internacional minimamente equilibrado?”, questionou. Nisso, Lis Valls afirmou que o BRICS pode “ajudar um pouquinho”. Não que o bloco vai ser “a alternativa”, salientou, na medida em que apresenta uma grande diversidade.
Além deste cenário mais positivo, Lia Valls mencionou dois outros cenários, o mais negativo possível, hobbesiano; e outro em que os Estados Unidos e a China decidem os dilemas.
Em sua avaliação, “o Brasil tem que saber se abrir para novos países e novos acordos. Quando você não tem um sistema multilateral, é preciso se consolidar de outro lado”, ponderou. “Nós falamos de China e Ásia é sempre preciso lembrar o que é um acordo efetivo de integração”, salientou.
“Fazer acordo é saber compartilhar a soberania. Esse é um desafio que temos junto aos parceiros com quem queremos compartilhar”, concluiu.
Confira a apresentação de Lia Valls ![]()
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