Política Doméstica

Zohran Mamdani: uma nova era para Nova York (e para os Estados Unidos?) 

Panfleto de campanha de Mamdani em diferentes idiomas (Arquivo pessoal/Andressa Mendes)

Por Andressa Mendes* [Informe OPEU] 

Nascido em Uganda, Zohran Mamdani, de 34 anos, morou sete anos na África do Sul, até se mudar para Nova York, cidade que fez dele, esta semana, o prefeito local mais jovem desde 1892. O muçulmano e autodeclarado socialista foi o protagonista de uma vitória que desafiou o establishment democrata e a ultradireita de Donald Trump. Filho de imigrantes muçulmanos, sendo sua mãe, Mira Nair, cineasta indo-americana, e seu pai, Mahmood Mamdani, professor de estudos pós-coloniais da Columbia University, Mamdani cresceu em um ambiente multicultural, descrito por  ele como “integração entre Nova York, Kampala e Délhi”.  

Embora a política sempre tenha estado presente em sua vida, a carreira, propriamente dita, começou durante sua graduação em estudos afro-americanos na Bowdoin College, na cidade de Brunswick, Maine. Lá, ele foi um dos cofundadores da Students for Justice in Palestine (SJP), organização de apoio à causa Palestina. Segundo o próprio Mamdani, a questão Palestina teria moldado seu entendimento sobre a política dos Estados Unidos, devido à contradição que ela representa, alegadamente preocupada com liberdade, justiça e autodeterminação, mas diferente disso quando se trata dos palestinos. 

Após a faculdade, Mamdani se dedicou à breve carreira de rapper, sob o nome artístico Mr. Cardamom, sem deixar o ativismo político de lado. O videoclipe de “Nani”, uma música de rap em que ele homenageia sua avó e a cultura sul-asiática de Nova York, e onde Mamdani aparece sem camisa, usando apenas um avental, foi usado em anúncios de campanha anti-Mamdani para ridicularizar sua carreira musical e sua falta de experiência governamental.  

Em 2017, Zohran se filiou ao Democratic Socialists of America, organização política de esquerda, que ocupa a ala mais progressista do Partido Democrata. Em 2020, ele foi eleito pela primeira vez para a Assembleia do Estado de Nova York, representando o 36º distrito — que engloba regiões do Queens —, após derrotar a veterana Aravella Simotas, no cargo há quatro mandatos. Desde então, Zohran foi reeleito sem oposição, até que, em 2024, anunciou sua candidatura à prefeitura da cidade de Nova York. 

Reviravolta no Partido Democrata (e nas urnas) 

Mamdani saiu de candidato azarão — atrás nas pesquisas iniciais e pouco levado a sério — para vitorioso na disputa para prefeito de NY. Ele teve 50,4% dos votos, contra 41,6% do independente Andrew Cuomo, e 7,1%, do republicano Curtis Sliwa. Mamdani irá suceder ao democrata Eric Adams, que iniciou a corrida como democrata, concorrendo depois como independente, até anunciar sua desistência em setembro de 2025. Seu mandato foi marcado por investigações de suborno e fraudes, embora ele tenha se declarado inocente. 

Em Nova York, as eleições primárias são conduzidas com votação por classificação, enquanto nas eleições gerais prevalece o sistema de “quem ganhar mais votos, ganha a corrida eleitoral” (winner-take-all). As primárias ocorreram em 24 de junho, apesar de os votos antecipados terem começado dez dias antes. No decorrer da campanha, as pesquisas começaram a indicar uma diminuição na vantagem de Cuomo e até sugerir a vitória de Mamdani. Uma pesquisa da Data for Progress de junho de 2025 indicou Cuomo com 2 pontos de vantagem contra Mamdani. Outra enquete, da Expedition Strategies, da mesma época, apresentou Cuomo com uma vantagem de 12 pontos. Foi nesse período (em 4 de junho) que ocorreu o primeiro debate televisionado entre os candidatos, resultando no apoio da representante (deputada) Alexandria Ocasio-Cortez a Mamdani. Já em pesquisa conduzida pela Public Policy Polling entre os dias 6 e 7 de junho apontou que Mamdani venceria Cuomo por 35% a 31%. 

O fato é que Mamdani venceu Cuomo nas primárias do Partido Democrata no dia 24 de junho, o que levou este último a concorrer como Independente. Tornou-se o principal opoente de Mamdani, trecebendo o apoio da base republicana, incluindo o do presidente Donald Trump. Cuomo foi derrotado por Mamdani em uma eleição histórica para a cidade de NY, em que mais de 2 milhões de pessoas votaram, e na qual o vencedor recebeu o maior número de votos em eleição para este cargo (mais de 1 milhão) desde o (até então) republicano John V. Lindsay, em 1969.  

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Plataforma de campanha e equipe de transição 

A plataforma de governo de Mamdani e suas promessas de campanha foram baseadas em construir uma cidade que as pessoas possam pagar (como diz seu slogan de campanha: a city we can afford). Questões relativas ao custo de vida, como contas de supermercado, preços de aluguéis, transporte público e educação infantil, foram mobilizadas por ele.  

Suas propostas incluem: o congelamento dos preços de aluguéis em apartamentos de interesse social (rent-stabilized apartments); a construção de mais unidades de habitação acessíveis; tornar gratuitos os ônibus de NY e reforçar o serviço de transporte público; a criação de supermercados operados pela prefeitura em cada um dos cinco distritos (boroughs) de NY; ampliar a cobertura de creches para todas as crianças de 6 semanas a 5 anos; aumentar o salário mínimo de NY para US$ 30/hora até 2030; entre outras. 

solução para custear todas essas propostas reside no aumento de impostos para as corporações e para aqueles que ocupam o lugar de 1% mais rico de NY, ou seja, quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano. A taxa de imposto corporativo seria elevada para 11,5%, igualando-se à de Nova Jersey, o que, segundo ele, traria US$ 5 bilhões para a cidade. Aqueles que ganham mais de US$ 1 milhão por ano estariam anualmente sujeitos a um imposto de 2%. Ele também propõe a implementação de uma reforma de compras, o encerramento de contratos sem licitação, e a contratação de mais auditores fiscais. 

Sua equipe de transição é composta apenas por mulheres, nomeadamente Grace Bonilla, Lina Khan, Maria Torres-Springer, Melanie Hartzog, Elana Leopold, o que demonstra o alinhamento de Mamdani à agenda progressista. Além disso, no dia 10 de novembro, ele anunciou os dois primeiros nomes a comporem seu novo governo: Dean Fuleihan e Elle Bisgaard-Church. Fuleihan é um veterano, já tendo ocupado o cargo que irá exercer, de principal vice (deputy), para Bill de Blasio. Ele será o responsável pelas operações diárias do governo da cidade. Já Bisgaard-Church será a chefe de gabinete de Mamdani na Assembleia Estadual. Essa nomeação já era esperada, pois ela é sua principal assessora.  

Tais nomeações mostram como Mamdani planeja equipar a administração tanto com membros de seu círculo íntimo, como também com pessoas mais experientes no governo. Além disso, é interessante notar que Mamdani fez o anúncio dos cargos de Fuleihan e Bisgaard-Church na Roosevelt House, da Hunter College. Foi nessa mansão do Upper East Side que Franklin D. Roosevelt planejou os estágios iniciais do New Deal, enquanto fazia a transição para a Presidência. Essa escolha simbólica ressalta o escopo de suas ambições como prefeito. 

O candidato millennial 

Um aspecto importante de se mencionar, que teve grande influência na vitória de Mamdani, para além da plataforma de governo, é sua estratégia de comunicação. Enquanto políticos da ultradireita são notadamente conhecidos por se valerem de uma comunicação populista — que se apropria de ressentimentos, discursos de ódio e de linguagem simples, rápida, mas eficaz —, Mamdani subverte essa lógica, ao adotar uma comunicação jovem, diversa, simples, mas com posicionamento claro sobre o que ele é e o que defende. 

Sua carreira como rapper, por exemplo, foi alvo de críticas e de ridicularização pelos seus rivais, mas ela teria, na verdade, ajudado Mamdani. De acordo com seu auxiliar de campanha Andrew Epstein, para matéria para a CNN: “um trunfo incrível para quem quer concorrer a um cargo é a bravura diante do constrangimento e ser capaz de superar a inclinação natural que muitos de nós temos de não se apresentar a estranhos ou fazer as coisas de uma maneira boba na frente deles” (tradução nossa). 

De fato, mostrar-se vulnerável e interagir com estranhos foi algo que Mamdani fez durante a campanha. Diversos foram os vídeos curtos, divulgados nas redes sociais, do candidato entrevistando pessoas. Em um de seus vídeos mais virais, de janeiro de 2025, Mamdani entrevista vendedores de comida de rua (food-truckers, que, em sua maioria, vendem comida halal) e aborda o fato de o preço dos pratos serem mais altos, devido às burocracias envolvendo licenças para a venda de comidas na cidade de Nova York.  

Mamdani, que é falante nativo de urdu, lançou vídeos em bengali, espanhol e árabe. Além disso, em uma estratégia de se aproximar do seu eleitorado, Mamdani fez uma campanha ampla, de presença nas ruas e em lugares diversos da cidade de NY, como igrejas e supermercados étnicos nos bairros periféricos. Apareceu em transmissões ao vivo de influenciadores; participou de uma batalha de rap freestyle, na Union Square; marcou presença na Maratona de Nova York, em um jogo do New York Knicks, no Madison Square Garden, e em outros eventos. No último sábado antes da eleição, ele chegou a fazer um tour relâmpago pela cena noturna da cidade, indo a pelo menos seis bares/baladas no Brooklyn. 

A campanha de Mamdani se destacou por uma comunicação simples e direta, voltada para as “dores reais” dos eleitores: o aumento do custo de vida. Ao centrar sua mensagem em propostas concretas para reduzir despesas cotidianas e tornar NY mais acessível, ele dialogou com um sentimento compartilhado de preocupação econômica. Outro ponto forte foi a construção de uma coalizão diversa, conectando-se com comunidades imigrantes, muçulmanas, sul-asiáticas e latinas.  

Manifestação política em Astoria, Queens, registrada pela autora em 2 nov. 2025 (Acervo pessoal/Andressa Mendes)

Houve um alto investimento não apenas no digital, ao explorar as redes sociais com os vídeos curtos e com uma divulgação esteticamente apurada, mas também no offline, ao mobilizar um público engajado, que resultou em cerca de 100 mil voluntários de campanha. Segundo a própria equipe de campanha de Mamdani, foram (aproximadamente 3 milhões de portas batidas, 4 milhões de ligações feitas e quase 3 milhões de mensagens de texto enviadas). Mamdani manteve, ao longo da campanha, um posicionamento ideológico claro, deixando evidente quem ele é e, sobretudo, quem não é — o que reforçou a autenticidade e a consistência de sua narrativa política. 

“Quando se faz campanha na poesia, se governa na prosa” 

Em seu site de campanha, Mamdani dedica uma seção, em meio a outras propostas, para o que chama de “Trump-Proofing NYC” (tradução livre: Nova York à prova de Trump). Nela, ele alega que “Donald Trump está destruindo o tecido social da cidade de Nova York em seu segundo mandato”, referenciando o envio de agentes ICE para NY, a adoção das tarifas alfandegárias contra outros países e outras medidas do governo republicano. Mamdani se posiciona contra o que ele entende como “as tentativas de Trump de explorar a classe trabalhadora” e propõe a construção de “uma cidade onde todos possam ter uma vida digna”. Ele propõe “proteção dos imigrantes nova-iorquinos, fortalecendo o aparato de cidade-santuário” não só para imigrantes, mas também para pessoas LGBTQI+. 

Trump chegou a classificar Mamdani como “comunista radical” e ameaçou deter bilhões de dólares em fundos federais cruciais da cidade, ou enviar tropas da Guarda Nacional, se Mamdani seguir políticas de que não gosta. Em seu discurso de vitória, Mamdani reiterou seu posicionamento anti-Trump, principalmente no que tange a questões econômicas e migratórias.  

Mais do que isso, Mamdani, em seu discurso, sintetizou o que foi sua campanha eleitoral e a narrativa que ele propõe para a cidade de Nova York, dirigindo-se aos trabalhadores da cidade. Desde o início da campanha, ele se colocou como agente de mudança, com propostas majoritariamente de cunho econômico. No discurso, ele celebra a vitória e é, novamente, estratégico: afirma uma ruptura com o passado, de confronto com elites econômicas e reconhece a classe trabalhadora como sujeito político central.  

Mamdani enfrentou uma campanha maciça dos “power brokers” tradicionais da cidade, ou seja, os grandes doadores, os superPACs e os bilionários que injetaram milhões para tentar manter o status quo. Por exemplo, o super PAC Fix the City apoiou fortemente o exgovernador Andrew Cuomo com doações que somaram dezenas de milhões de dólares de figuras como Michael Bloomberg, Bill Ackman e outros magnatas da cidade. Apesar disso, Mamdani se apoiou em uma base diversa, em pequenos doadores, mobilização de voluntários e linguagem acessível, uma divisão que simboliza a imagem de “classe trabalhadora vs. bilionários” por ele abraçada. Essa dinâmica reforça o apelo populista da sua candidatura: a promessa de “nosso” contra “eles”, de pessoas comuns contra os privilegiados, de mudança contra continuidade. 

O cerne desse apelo populista é também o que torna sua candidatura um possível instrumento de renovação para o Partido Democrata — ou, ao menos, uma provocação interna. A vitória de Mamdani sinaliza que o partido pode estar diante de uma bifurcação: seguir o caminho centristamoderado, ou abraçar lideranças progressistas que falam com a base, que se conectam diretamente com comunidades imigrantes, de baixa renda, jovens, e que desafiam o establishment 

O modelo de Mamdani — forte presença digital, mobilização cultural, construção de coalizão imigrante e de minorias — pode oferecer “um novo manual” para o partido na era pósTrump, algo que os democratas têm falhado em fazer, até então. Exemplo máximo disso foram as eleições presidenciais de 2024, que resultaram na vitória de Trump após o Partido Democrata não ter conseguido se reinventar. Apesar disso, é necessário avaliar a aplicabilidade desse modelo em contextos urbanos diferentes de NY, que é, social e historicamente, uma cidade diversa e cosmopolita.  

As promessas de Mamdani também são ambiciosas (talvez até audaciosas), o que ele próprio reconheceu no discurso de vitória, em que disse: “será uma era em que os novaiorquinos vão esperar de seus líderes uma visão ousada, em vez de uma lista de desculpas pela timidez”. Embora suas promessas elevem as expectativas dos eleitores e ampliem o campo de responsabilidade do futuro governo, elas abrem portas para críticas e aumentam o risco de frustração, se os resultados não vierem ou demorarem. 

Por fim, Mamdani assume uma posição singular: embora não possa concorrer à Presidência (por não ter nascido nos EUA), ele se projeta como peçachave na redefinição do campo progressista e como uma voz potente dentro do Partido Democrata. Sua vitória em Nova York tem efeito simbólico nacional: mostra que alternativas ao centro moderado podem vencer e que o eleitorado urbano está aberto a mudanças. Mas o futuro dependerá de sua capacidade de entregar resultados, administrar, construir alianças e transformar seu momentum em governabilidade. Desafios e forças contrárias não faltarão.

 

Andressa Mendes é pesquisadora colaboradora do INCT-INEU/OPEU, doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e pesquisadora visitante na CUNY, The Graduate Center (2025-2026). Contato: glm.andressa@gmail.com. 

** Revisão e edição final: Tatiana TeixeiraRecebido em 11 nov. 2025. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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