“O Laboratório Palestina”: exportação de tecnologia e ideologia israelenses
Crédito: canal da Al Jazeera English no YouTube
Por Beatriz Paiva Fantinel e Sawara Gonçalves Santos [Resenha OPEU] [Palestina]
No contexto do genocídio na Faixa de Gaza, desde outubro de 2023, é possível notar diversas tecnologias israelenses desenvolvidas para selecionar alvos em operações militares, funcionando com alto grau de autonomia e minimizando a intervenção humana, ao mesmo tempo em que são tratadas como “decisões humanas”. Esse é o caso da Inteligência Artificial Lavender, que desempenhou papel central nos primeiros bombardeios contra os palestinos. Quando o Lavender decidia que um indivíduo era membro do Hamas, não era realizada uma verificação independente para confirmar a sua decisão. Essa confiança por parte do Exército israelense culminou na ausência de verificação minuciosa sobre as escolhas do programa. Isso permitiu que, para cada agente iniciante do Hamas, fosse autorizado matar até 20 civis; para altos funcionários, o limite era de mais de 100.
À luz deste cenário, a presente resenha busca analisar o documentário The Palestine Laboratory, lançado em duas partes pela emissora catariana AI Jazeera, com base na obra homônima de Antony Loewenstein (publicado no Brasil em 2024, pela Editora Elefante). Jornalista independente, autor e cineasta judeu, Loewenstein se propõe a explorar como Israel exporta sua tecnologia de ocupação, a partir do uso da Palestina como um laboratório de testes de suas armas e tecnologias de vigilância.
Tecnologia israelense e a “ocupação sem atrito”
No primeiro episódio, intitulado “How Israel Tests Military Tech on Palestinians” (Como Israel testa tecnologia militar nos palestinos?), é apresentado o conceito de “ocupação sem atrito”, em que a automação é empregada para diminuir a interação direta entre israelenses, enquanto força ocupante, e palestinos, enquanto povo ocupado. Como o processo é realizado por intermédio da tecnologia, tem-se também a ideia de “tecnologia sem atrito”, amplamente testada nos checkpoints, onde são observados mecanismos que controlam, vigiam e restringem a livre-circulação de palestinos dentro da Cisjordânia e entre esta região e Israel.
Entre os exemplos, estão as armas habilitadas remotamente por Inteligência Artificial e que atiram granadas, gás lacrimogêneo e balas com ponta de borracha. Também é apresentado o sistema Wolfpack, dividido entre Blue Wolf — usado nos telefones dos soldados, que sabem de todas as informações privadas das pessoas apenas com uma foto — e Red Wolf — presente nas salas de controle dos checkpoints. Este último traça o perfil de palestinos através de um scanner, que indica seu suposto risco de acordo com suas posições políticas classificadas por um sistema de cores.
A maioria dos pontos de checagem israelenses passou pelo processo de privatização, contando com a participação de empresas privadas, como a Any Vision, que coletava, em 2019, movimentos e dados biométricos dos transeuntes palestinos. Também é grande a presença de câmeras de vigilância posicionadas para gravar os checkpoints — mas que acabam gravando tudo em volta —, para além das inúmeras que são instaladas pelas cidades e são ligadas a um sistema de Inteligência Artificial, que serve para identificar o que Israel considera como “comportamento ameaçador”. Esta ação se apoia no entendimento do conceito de securitização, de modo que o grupo dominante, Israel, detém a decisão de quem precisa ser protegido e de quem pode ser sacrificado — no caso, os palestinos, vistos como inimigos potenciais.
Isso torna evidente que a ocupação israelense se materializa nos mais diversos aspectos da vida cotidiana dos palestinos, com o emprego de métodos de vigilância produzidos e exportados por empresas israelenses, considerados inovadores. Entre estes, é possível citar a Viisights — apoiada pelo Exército israelense, tem um sistema de reconhecimento comportamental — e a NSO — responsável pelo sistema Pegasus, um spyware que pode acessar tudo no celular, como câmera, microfone, localização, aplicativos de mensagens criptografadas e o que está na tela, transmitindo os dados para quem está controlando o software.
Confira o primeiro episódio do documentário no canal da Al Jazeeera
Um caso importante é a Unidade de Inteligência Cibernética do Exército 8200, que ajudou Israel a se tornar um líder global na tecnologia de vigilância. A tecnologia inovadora permitiu descobrir onde gravar e quem gravar, chegando a informações geralmente escondidas “dos inimigos” e conduzindo a uma guerra cibernética contra os palestinos. No contexto do genocídio em Gaza, essa ferramenta gerou dados para a destruição, que muitas vezes pode parecer aleatória. Também criou o Lavender, um sistema que identifica e organiza possíveis membros do Hamas em uma lista de mortes.
Muitas das tecnologias e técnicas utilizadas na Cisjordânia são aplicadas em Gaza, e vice-versa, como é o caso da unidade 8200, o que acabou gerando um aumento na aceitação de mortes de civis. O primeiro episódio explicita que a ocupação física e digital dos palestinos é um negócio rentável e que a Palestina é explorada como uma arena para testar essas ferramentas.
O mercado global de tecnologia e vigilância israelenses
A segunda parte do documentário, intitulada “How is Israel’s Military Tech Marketed Abroad?” (Como a tecnologia militar de Israel é comercializada no exterior?), retrata a influência mundial israelense por meio de sua indústria de armamento e vigilância, expondo como a ocupação na Palestina é atrativa para os países que compartilham sua ideologia e aplicam as armas e tecnologias em prol dos seus próprios objetivos. Essas empresas israelenses podem ser identificadas em diversos lugares: Estados Unidos, México, União Europeia, Índia e África do Sul.
Durante seu primeiro mandato (2017-2021), Donald Trump disse: “Muros funcionam, pergunte a Israel”. O interesse em controlar a fronteira norte-americana com o México é similar ao empenhado por Israel no território palestino. A empresa israelense Elbit Systems é a responsável pelo que é chamado de “muro invisível” na fronteira mexicana, com torres de fiscalização, sistema de radar, câmeras noturnas, termais e normais. Esse sistema faz com que a locomoção de pessoas seja informada à central de controle, de modo que os imigrantes são forçados a tomarem outras rotas mais perigosas para entrar nos EUA, sob o risco de sofrerem fatalidades.
Bruce Wright, antigo vice-presidente do Arizona Tech Park e apoiador do trabalho israelense na fronteira com o México, defende que a tecnologia de Israel é mais avançada para a “resolução de problemas, como terrorismo ou cruzamento de fronteiras” (7min00s – 7min18s). Essa ferramenta de controle é usada em Israel na fronteira com Gaza, evidenciando a similaridade ideológica entre as nações: enquanto Israel expulsa os palestinos, os EUA expulsam os mexicanos imigrantes.
Do outro lado da fronteira, em Guerrero, no México, 43 estudantes desapareceram, após serem sequestrados por autoridades locais, em 26 de setembro de 2014. Eles estudavam na escola de Ayotzinapa, conhecida pelo seu ativismo antissistema, e foram levados durante uma viagem de ônibus, a caminho da Cidade do México. Lá, participariam de uma manifestação contra o massacre estudantil de 1968 no país. A versão inicial do governo afirmava que os estudantes tinham sido sequestrados pelo grupo do narcotráfico Guerreros Unidos, o qual teria assassinado e queimado os corpos dos jovens em um lixão. As famílias das vítimas e investigadores independentes contestam essa versão, devido à ausência de provas e à desconfiança em um governo marcado pela corrupção e pela violência enraizada.
Em 2022, foi criada uma Comissão da Verdade sobre o caso, que passou a ser tratado como crime de Estado, com o envolvimento de membros de quadrilhas, soldados e autoridades locais, estaduais e federais. O documentário explora como o movimento por justiça por esses desaparecidos é visto como uma ameaça aos interesses dominantes no México. Em resposta, ligações privadas de alvos específicos passaram a ser vazadas para a grande mídia por uma rede de vigilância, com o intuito de descredibilizar os depoimentos e reivindicações de ativistas, jornalistas, familiares e seus advogados. O programa é o Pegasus Spyware e, ainda que as evidências apontem para o seu uso antidemocrático por militares contra a população, o Exército nega.
A União Europeia (UE) se destaca como a segunda maior compradora de armamentos e de equipamentos de vigilância de Israel, empregados, principalmente, para o controle das fronteiras, imigrantes e refugiados.
Em 2021, foi inaugurado o Closed Controlled Access Center of Samos (Centro Fechado de Acesso Controlado de Samos) com o financiamento da UE, que defendeu sua criação como um reflexo dos seus padrões e a busca por uma garantia de melhores condições de vida. É evidente, porém, que o compromisso europeu é com o afastamento e controle dos imigrantes, que são colocados em uma área isolada nos arredores da cidade principal da Ilha, distantes da infraestrutura civil, de serviços e organizações da sociedade civil.
Segundo episódio do documentário está disponível online
Com relação à entrada de imigrantes, a abordagem da UE se assemelha à adotada pelos EUA contra os mexicanos: desincentivo da entrada no território europeu ao tornar o caminho mais perigoso e inviável.
Em 2020, por exemplo, a Grécia passou a instruir a Guarda Costeira a empurrar todos os barcos de imigrantes para os mares turcos, os chamados pushbacks. Com esse objetivo, o país utilizou o Maritime Heron, um sistema de patrulha e vigilância desenvolvido pela Indústria Aeroespacial de Israel. O resultado foi o controle total da entrada de pessoas pelo país.
Ainda, o documentário explora a admiração mútua entre Israel e Índia pelas suas ideias recíprocas de supremacia racial: de um lado, Israel propaga que judeus são os únicos israelenses;, do outro, a Índia defende que os hindus são os indianos autênticos. Da mesma forma, o documentário demonstra que o relacionamento entre Israel e África do Sul durante o regime de Apartheid sul-africano era embasado no sentimento de mútua compreensão ante o isolamento e suposta perseguição internacionais, alinhados em sua visão de supremacia racial. Hoje, a África do Sul é um dos principais opositores israelenses e reconhecedor do regime perpetrado contra os palestinos.
A exportação das armas e ideologia israelenses
O comércio de armas e a cooperação militar são pilares essenciais da influência internacional exercida pelo Estado de Israel, caracterizando a chamada “diplomacia das armas”, conforme argumentam Bruno Huberman e Sabrina Fernandes. Seus impactos são observados ao redor do mundo: Estados Unidos, Argentina, Brasil, Chile, Uganda, Honduras, Guatemala e El-Salvador. Atualmente, os israelenses se especializaram em tecnologias para controle de fronteiras e vigilância populacional, bem como para identificação biomédica e “de ameaças em potencial”. Sob a justificativa de combate ao terrorismo, Israel exporta essas tecnologias para policiais, militares e forças de Inteligência ao redor do mundo, como observado no documentário e na pesquisa de Lowenstein.
De acordo com Huberman e Fernandes, a desnormalização das relações dos Estados com Israel segue lenta, mesmo em meio às contínuas violações de direitos humanos cometidas por israelenses. Os autores argumentam que somente com essa desnormalização seria possível tratar de sanções internacionais a Israel, um Estado que constantemente viola resoluções da Organização das Nações Unidas.
Diante da perspectiva da influência mundial do Estado de Israel, o jornalista e escritor israelense Gideon Levy explora o conceito de Israeli Mindset (45min40s – 46min05s). Trata-se da crença nacional de que ninguém pode controlá-los, porque eles têm o privilégio de serem o povo escolhido. Israel desenvolveu a estratégia de que qualquer posicionamento contra suas ações é antissemita, mantendo sua impunidade e superioridade em relação às normas internacionais e se tornando um “querido do Ocidente” (46min30s – 47min07s).
O comércio israelense ultrapassa a mera questão tecnológica, sendo, em especial, uma venda da sua ideologia. Israel comercializa a possibilidade de controle e separação de minorias étnicas, sociais, políticas e religiosas, enquanto ascende como um modelo de sucesso a ser seguido. O documentário evidencia que a Palestina não é somente um laboratório israelense, mas sim um laboratório global, interessado na reprodução de sua ideologia. ![]()
* Beatriz Paiva Fantinel é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (FCHS). Pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Contato: beatriz.fantinel@unesp.br.
Sawara Gonçalves Santos é bacharela em Direito pela Universidade Estadual de Londrina. (UEL). Pós-Graduanda em Direito Internacional e Direitos Humanos pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Contato: sawarasantos.profissional@gmail.com.
** Primeira revisão: Isabela Agostinelli. Segunda revisão: Andressa Mendes. Revisão e edição finais: Tatiana Teixeira. Recebido em 28 de maio de 2025. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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