Lançamento do livro de Jamil Chade, ‘Tomara que você seja deportado’
Muro na fronteira entre os EUA e o México, no Arizona (Crédito: Russ McSpadden/Flickr/Creative Commons)
Por Assessoria de Imprensa, Editora Nós [Divulgação]
Nos textos reunidos em Tomara que você seja deportado: Uma viagem à distopia americana (Editora Nós, 2025), Jamil Chade descreve um cenário devastador sob qualquer ponto de vista, evidenciando a magnitude da decadência da sociedade estadunidense. Compreendendo o período entre a campanha eleitoral de Donald Trump e o início dos esforços eugenistas de sua política de imigração, a tragédia americana ganha aqui rosto e materialidade.
Chade percorre os locais por onde se espraia o ódio e o rancor, a pobreza e a ilusão, de Manhattan ao México, do Madison Square Garden aos abrigos para deportados nas cidades mexicanas na fronteira. O que o leitor entrevê é um desastre humanitário, ético, político, espiritual. A atmosfera inequívoca de perseguição, o medo do imigrante de ser caçado.
Mas também a perversidade da ofensiva trumpista no que diz respeito a outros temas, como educação e direitos de pessoas LGBTQIA+, outrora relevantes para a composição de um cenário, uma ordem mundial, que glorificava a nação que tomou para si o termo “América”.
Pelas palavras de Walter Salles, que prefacia esse livro, trata-se “não somente um extraordinário trabalho jornalístico, mas também um ensaio de grande lucidez sobre como podem sucumbir as democracias”.
O trabalho do jornalista, aqui, marcado também pela experiência pessoal (Chade se mudou com a família para os Estados Unidos) é revelador do esfacelamento simbólico da solidez que consagrou os Estados Unidos da América como a nação mais poderosa do mundo. Uma nação que demole a si mesma, com os golpes imprudentes de um líder autoritário.
Abaixo, algumas palavras do autor
“O que acontece nos EUA não é apenas uma história americana. O que está em jogo é o destino da democracia como uma recente experiência humana. Ao fechar meu apartamento em Nova York, constatei que eu havia sido testemunha de uma fábula. Um teatro de sombras que, diante da luz refletida, desenhava como morrem as democracias.
Naqueles gestos nem sempre bem definidos do jogo de imagens disruptivas, vi a dramaturgia de como ela é assassinada sempre que um juiz é preso, que um casal teme andar de mãos dadas, que um livro é banido, que o estado de direito é suspenso em nome da segurança.
A sombra está sempre por acontecer quando a democracia morre asfixiada pela desinformação, pela campanha deliberada para apagar a história. Por decretos presidenciais que definem o que é o belo e por uma contaminação generalizada do ódio em uma sociedade numa encruzilhada.
Ao contrário das telas onde as cenas criadas por uma ilusão de ótica são praticamente irreproduzíveis, a história nos mostra como nossos destinos estão entrelaçados.
Primo Levi, ao descrever Viena e o mal-estar da Alemanha há um século, constatava como a ‘semente do mal futuro’ aninhava-se nas entranhas do mundo.
*
A mesma semente germinará em outras línguas, em outras realidades e culturas sempre que desprezarmos o risco que se corre quando normalizamos a barbárie.
Não sei quando voltarei aos EUA de novo. Mas sei que a fábula da distopia americana é, acima de tudo, um alerta à humanidade. Talvez uma derradeira oportunidade para o despertar daqueles que optaram pelo silêncio cúmplice.
Depois de passar por 15 estados e milhares de quilômetros num dos países que tem o poder de definir o destino de uma parcela do planeta, constatei a encruzilhada na qual estamos, tomei nota de como o colonialismo é uma história incompleta, da brutalidade do capitalismo, de como a diversidade continua ameaçada, e de como os recursos são finitos.
Presenciei uma democracia na corda bamba, diante do sorriso hipócrita dos artífices de um sequestro do estado.
Fiquei sem ar diante da asfixia das conquistas duramente obtidas por mulheres, pelo movimento negro e por outros grupos minoritários.
Testemunhei nos olhos de imigrantes o medo em suas almas dilaceradas pela incapacidade de serem aceitos como seres humanos.
Ouvi esse mesmo pavor na voz de homossexuais ao me explicarem o motivo pelo qual deixaram de andar de mãos dadas com quem eles simplesmente amam.
Senti o poder da desinformação e seu abalo no tecido social de uma nação.
Tremi com o terremoto emocional causado por ideias fascistas em grupos abandonados pela democracia.
Mas vi também resistência, indignação, lágrimas e luta nas trincheiras das ruas.
E me deparei com o fato de que os dilemas e as feridas vão muito além do comportamento de um líder sentado na poltrona do poder. Uma distopia de uma sociedade forjada pela violência que se questiona e busca desesperadamente por uma nova identidade. Para ela mesma e perante o mundo.
Um momento definidor que não se limita a seus habitantes. O que ocorrer neste vasto território americano tem o potencial de definir a própria história da democracia, da construção dos direitos e da ordem mundial.
E deixo esse período de quase um ano nos EUA com a mesma pergunta que alguns se fizeram nos anos 1920 sobre o futuro do movimento autoritário: todos nós estamos ameaçados”.
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Prefácio
Jamil Chade, sismógrafo da distopia norte-americana
Por Walter Salles
Não faltaram alertas.
Em 1987, o cineasta canadense Denys Arcand lançou O Declínio do Império Americano. No mesmo ano, Margareth Thatcher, então primeira-ministra do Reino Unido, disse: “E quem é a sociedade? Não existe tal coisa”. Com o aval de Ronald Reagan, estava decretada a migração industrial dos Estados Unidos e de grande parte da Europa para países onde os sindicatos, se por acaso houvesse, eram controlados pelo Estado. Com o desemprego e a decorrente queda dos serviços públicos nos EUA e Europa, a grande secessão do mundo se acelerou.
Estava formado o caldo em que a extrema-direita global fermentou.
Em Como as Democracias Morrem (2018), Steven Levitzky e Daniel Ziblatt criaram as bases teóricas para entendermos como líderes populistas e autocráticos chegam ao poder pelo voto para melhor corroer a democracia por dentro. As instituições são minadas para transformar uma democracia num regime totalitário, prescindindo de um golpe ou da intervenção das Forças Armadas. Esse novo Estado é sustentado pela algocracia — o controle das mídias sociais pelos algoritmos —, e pela ideia da ilegitimidade de qualquer forma de oposição. Foi assim na Hungria de Órban, no Brasil de Bolsonaro, na Argentina de Milei.
A percepção de que essa derrocada da ordem democrática iria acontecer de forma tão rápida e avassaladora nos Estados Unidos escapou da grande maioria dos analistas.
Afinal, as instituições norte-americanas eram tidas como sólidas. Não resistiram.
Poucos países estão passando por um processo tão acelerado de erosão da sua democracia e de seu tecido social quanto os EUA. O próprio mito fundador da nação, o Sonho Americano, não se sustenta mais. Os sinais são palpáveis: aumento da pobreza absoluta, contração das classes médias. A desconstrução é violenta: deportação em massa de imigrantes, censura às universidades públicas e privadas, suspensão do financiamento à pesquisa científica, ataque feroz a todas as formas de minorias, desregulamentação das mídias sociais como ferramenta de controle social, negacionismo climático, neutralização do legislativo.
Em Tomara que Você Seja Deportado, Jamil Chade investiga cada etapa dessa viagem em direção à distopia norte-americana. Dialogando com It Can’t Happen Here [Não pode acontecer aqui], a obra de Sinclair Lewis sobre o risco de o fascismo deitar âncora nos EUA da década de 1930, o livro é não somente um extraordinário trabalho jornalístico, mas também um ensaio de grande lucidez sobre como podem sucumbir as democracias. Atravessando o país de norte a sul para melhor entender as vertentes dessa decomposição, Chade se torna um sísmográfo desse processo. Cada crônica que compõe este volume é ao mesmo tempo uma revelação e um alerta sobre o que pode suceder em qualquer país, hoje.
Acompanhando a campanha presidencial de Trump, dominada pelo uso indiscriminado de algoritmos; reportando o dia da votação nos Estados Unidos, em 2020, a partir das entranhas da campanha republicana; entrevistando depredadores do Capitólio anistiados pelo presidente eleito; noticiando os ataques incessantes contra as universidades públicas e privadas e os programas de pesquisa científica; cobrindo as tentativas de desestabilização de ONGs e da ONU, entre outros organismos; auscultando a fronteira com o México para melhor fazer a cobertura da violência das deportações em massa, Jamil Chade nos oferece um dos retratos mais agudos dos Estados Unidos, hoje.
Um dos artigos mais notáveis versa sobre Jacob Chansley, mais conhecido como o “Viking do Capitólio”, entrevistado em Phoenix, onde ele mora. Pronunciando-se como ecologista e defensor da alimentação orgânica, Chansley vai muito além de tudo que já lemos sobre teorias conspiratórias.
“Em Outro Tempo”, uma crônica imperdível, Chade mergulha no território da Nação Navajo para nos revelar como, na eleição de Joe Biden, os Diné — assim os Navajo se autodenominam — foram os grandes responsáveis pela vitória dos democratas no Arizona. E também, na eleição seguinte, como até a coesão desse povo acabou corroída pela máquina de propaganda trumpista. Já o texto que dá título ao livro tece uma teia entre o drama pessoal, vivido na pele, e o coletivo, ilustrando como a tragédia humana em curso está mais próxima do que poderíamos imaginar.
Crônica após crônica, Jamil Chade vai complexificando uma realidade que tínhamos a impressão de conhecer intimamente, graças ao imaginário norte-americano veiculado pelo cinema e pelas séries norte-americanas. E, ao fazê-lo, Jamil Chade vai construindo aquilo que os melhores livros logram: uma memória. A de um tempo de inflexão da História — o nosso.
Escrito na urgência dos momentos traumáticos vividos nos últimos seis meses, Tomara Que Você Seja Deportado encontra poucos paralelos. O correspondente da NBC na Alemanha dos anos 30, William Shirer, escreveu um livro fundamental sobre a erosão democrática alemã e o nazifascismo em Ascensão e Queda do Terceiro Reich. O ativista e jornalista John Reed criou um livro seminal em México Insurgente, relato dos idos de uma revolução que prometia mudar um país… antes de ser institucionalizada. E também nos deixou uma reportagem de perder o fôlego sobre a Revolução Soviética, Dez Dias que Abalaram o Mundo.
A pertinência com que Chade fala de um ponto nevrálgico da História também faz lembrar a obra daquele que talvez seja o maior cineasta chinês contemporâneo, Jia Zhangke. Nenhum país do mundo sofreu transformações tão traumáticas no final do século XX quanto a China, e ninguém retratou essa passagem da ortodoxia maoísta para a ortodoxia do mercado tão precisamente quanto Zhangke. Seus filmes, marcados por um humanismo visceral, são essenciais para entender o século no qual vivemos.
Da mesma forma, Tomara Que Você Seja Deportado é uma ferramenta indispensável para entender como uma democracia pode se tornar tão rapidamente distópica. Jamil Chade nos oferece os instrumentos para, compreendendo melhor o presente, poder articular formas efetivas de resistência.
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Título: Tomara que você seja deportado: Uma viagem pela distopia americana
Autor: Jamil Chade
Editora: Nós
Número de páginas: 256
Prefácio: Walter Salles
Sobre o autor: Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, e vivendo hoje em Nova York, o jornalista venceu diversos prêmios no exterior e no Brasil por sua defesa da democracia e dos direitos humanos. Entre 2024 e 2025, percorreu milhares de quilômetros em mais de uma dezena de estados americanos para testemunhar a encruzilhada que vive a sociedade nos EUA. Chade publicou nove livros, três dos quais foram finalistas do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e integrante da equipe de pesquisa sobre Memória, Justiça e Verdade do Instituto de Estudos Avançados da USP. O autor também foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade. ![]()
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