Segurança

ONU impõe derrota moral aos EUA por reconhecimento de Israel

por Solange Reis

A Assembleia Geral da ONU aprovou, na quinta-feira (21), uma resolução contra os Estados Unidos pelo reconhecimento unilateral de Jerusalém como capital de Israel.

Introduzida por Turquia e Iêmen, a moção determina que os Estados Unidos devem voltar atrás na decisão. A medida também reafirma dez resoluções do Conselho de Segurança, desde 1967, sobre a condição legal de Jerusalém sempre ter de ser negociada entre israelenses e palestinos.

O placar – 128 votos a favor, 9 contra e 35 abstenções – mostra que a maioria dos países discorda da escolha feita pelo governo Trump.

França e Reino Unido, dois grandes aliados dos Estados Unidos, estão entre os 22 dos 28 membros da União Europeia que apoiaram a resolução. Mesmo a Alemanha, que costuma se abster nas votações contra Israel, se juntou aos críticos.

Apenas nove países votaram contra a resolução. Com a exceção óbvia de Israel e dos Estados Unidos, os demais são atores irrelevantes na arena global. São eles Togo, Ilhas Marshall, Nauru, Micronésia, Palau, Honduras e Guatemala.

O número de abstenções não é desprezível. Além dos 35 que se abstiveram, 21 países não compareceram à votação. Entre neutros e ausentes, porém, conta-se nos dedos os que exercem alguma influência em âmbito mundial ou regional, como Canadá, Argentina e Austrália. Além disso, alguns só não votaram por estarem inadimplentes com a ONU.

Retaliações em riste

O gesto da Assembleia tem valor apenas moral, mas foi a única forma de se oficializar a crítica internacional conjunta. No início da semana, os Estados Unidos vetaram, por 14 votos a um, a resolução do Conselho de Segurança  (CS) que revertia o reconhecimento da cidade como capital israelense.

Ambas as iniciativas – no CS e na Assembleia – foram recebidas pelos Estados Unidos e por Israel como um ataque “pessoal”. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, disse que “ainda levará uns 10 anos até que se mude o absurdo voto automático contra Israel”.

Nikki Haley, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, criticou a Assembleia Geral pelo que considera uma posição tradicionalmente contrária a Israel. Alertou que seu país pensará duas vezes quando for chamado a fazer as maiores contribuições financeiras para a ONU daqui por diante.

Nem foi preciso tanto. No domingo (25), alegando ineficiência e excesso de gastos, Haley comunicou o corte de US$ 285 milhões em pagamentos o biênio 2018-2019 da ONU. O orçamento da organização para esse período é de US$ 5,4 bilhões, sendo que os Estados Unidos costumam contribuir com aproximadamente 25% do total.

Após a reunião da Assembleia, a embaixadora também tuitou um agradecimento aos que votaram contra ou se abstiveram, e convidou seus representantes para uma festa de congregação em janeiro. Gestos diplomáticos de uma era digital e midiática, mas carregados do divisionismo usado por George Bush no prenúncio da guerra ao terror.

Ao dizer que o reconhecimento diplomático de Jerusalém confirma o óbvio, Haley reitera a mensagem de Trump. Ambos referem-se ao fato de muitos órgãos do governo israelense terem sido instalados na cidade e a uma antiga lei dos Estados Unidos.

De acordo com o Jerusalem Embassy Act de 1995, os Estados Unidos devem transferir a embaixada para Jerusalém e reconhecer a cidade como capital de Israel. Caso o Executivo não faça a mudança, o Congresso fica autorizado a cortar 50% do orçamento do Departamento de Estado. Sim, nada menos do que metade das verbas do órgão responsável pela política externa do país!

Mas o texto é estrategicamente ambíguo ao permitir que o presidente suspenda o corte de verbas por seis meses sucessivos a fim de proteger a segurança nacional. A cada seis meses, Bill Clinton, George Bush e Barack Obama escolheram a segunda opção, mantendo a embaixada em Tel Aviv. Trump rompe com essa política, ignora as consequências e, na prática, avaliza o status quo estabelecido à força por Israel.

O governo tenta agora convencer outros países a seguir o mesmo caminho. Objetivo alcançado sem muito esforço no caso da Guatemala, que já confirmou a intenção de transferir sua própria embaixada. O país latino escapa, assim, de possíveis retaliações.

No dia anterior à votação da Assembleia Geral, Donald Trump ameaçou cortar a ajuda financeira a países que votassem a favor da resolução, um recado para nações no Oriente Médio. Algumas delas, como o Egito, recebem ajuda militar condicionada à manutenção de acordos de paz com Israel (por sua vez, o maior receptor de ajuda norte-americana na região). Os árabes, no entanto, votaram pela resolução.

Mediador em descrédito

A reação dos Estados Unidos seria cômica se não fosse trágica. Os palestinos consideram o leste de Jerusalém como a capital de uma futura Palestina, cuja existência dependerá de que as partes envolvidas no conflito aceitem a solução de dois Estados.

Ao reconhecer Jerusalém como capital israelense e decidir transferir sua embaixada para a cidade, o governo Trump fortalece uma visão particular de Estado único. Defendida por setores da direita conservadora nos Estados Unidos e em Israel, essa alternativa transformaria os territórios ocupados em parte legal do território israelense. Significaria a formalização da ocupação e o subjugo definitivo do povo palestino.

A escolha de David Friedman, ex-advogado de Trump, para embaixador em Tel Aviv já foi um forte indício do encaminhamento pro-Israel. Não é segredo que, antes de representar oficialmente os Estados Unidos, Friedman se opunha às negociações para dois Estados, e duvidava da ilegalidade dos assentamentos nos territórios ocupados por Israel. O embaixador é forte crítico de Barack Obama por seu apoio à resolução 2334 da ONU, em 2016, contra os mesmos assentamentos.

A parcialidade de Trump tem apoio doméstico de peso. Além de grupos e personalidades sionistas, e parte expressiva dos evangélicos – incluindo financiadores da campanha do republicano – muitos políticos pró-Israel aprovam o reconhecimento da cidade e condenam a ONU.

Lindsey Graham, senador republicano, disse que cuidará da ONU “anti-semita” nas eleições de 2018. No início do ano, Graham introduziu um projeto de lei que cortava verbas para organização como punição pela Resolução 2334. A posição do senador não difere da maioria de seus correligionários.

Quanto aos democratas, embora mais cautelosos sobre o efeito Jerusalém na retomada de negociações para o processo de paz, muitos consideram a cidade como capital de facto de Israel. Charles Schumer, líder da minoria democrata no Senado, é apenas um entre tantos no Partido Democrata a não divergir de Trump na questão.

Há vozes dissonantes em outros círculos nos Estados Unidos, ainda que tenham menos força política.

O ex-diretor da CIA, John Brennan, disse que a ameaça de retaliação a países favoráveis à resolução da ONU é ultrajante. Esperar lealdade cega e subserviência de todo mundo é característica de autocratas vingativos, disparou Brennan no Twitter.

Grupos que defendem Jerusalém como capital de Israel, desde que num contexto de dois Estados, criticam a iniciativa unilateral dos Estados Unidos. Para o J Street, lobby pró-Israel, ao tentar agradar a sua base política de ultra-direita, Trump isola os Estados Unidos e implode a credibilidade do país.

Na opinião de Rashid Khalidi, professor da Universidade de Columbia e ativista da causa palestina, as ações de Trump não apenas inviabilizam o processo de paz, como tiram dos Estados Unidos a capacidade moral de mediar o conflito.

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