Segurança

Brexit e Trump inspiram a nova estrutura de defesa da UE

Donald Trump sempre criticou os países europeus por gastarem proporcionalmente menos com defesa do que os Estados Unidos.

Após a visita da chanceler Angela Merkel à Casa Branca, em março, Trump disse que a Alemanha deve “vastas somas de dinheiro” pela segurança recebida da OTAN e dos Estados Unidos. Dois meses depois, em discurso na Europa, o presidente acusou os aliados de usufruir da segurança paga pelos contribuintes norte-americanos.

Dizem que os números não mentem. De fato, a média europeia de gastos não passa de 1,5% sobre o PIB, abaixo dos 2% recomendados pela OTAN. Já os Estados Unidos alocam cerca de 3,5%.

Do ponto de vista estratégico, a matemática não basta para explicar a diferença. As percepções de ameaça variam, assim como o apoio das respectivas populações a gastos dessa natureza. Nos Estados Unidos, os políticos costumam defender orçamentos militares robustos para não perder eleitores. O oposto acontece na Europa.

Críticas ao baixo nível de comprometimento financeiro ou operacional dos europeus não são exclusivas de Trump. Citando apenas um de seus antecessores, Barack Obama tentou uma campanha “anticaronistas” para pressionar os aliados a pagar mais pela segurança regional e internacional.

As queixas de Trump, no entanto, têm um peso diferente. Antes dele, nenhum presidente havia sinalizado com possível desengajamento da política global, ou chamado a OTAN de obsoleta.

Muito dependente da organização transatlântica para sua segurança, a Europa decidiu colocar em prática um plano “B”. No dia 13 de dezembro, 25 países da União Europeia assinaram o Acordo Permanente de Cooperação Estruturada para Defesa (PESCO).

A ideia de criar uma estrutura europeia de defesa é antiga, mas sua execução sempre encontrou barreiras dentro e fora do bloco.

O caráter nacionalista que marca as políticas de defesa dificulta o movimento comunitário. Alemanha e França também divergem sobre o escopo da estrutura, com a primeira preferindo a ampla inclusão de países, enquanto a segunda defende uma abordagem mais qualitativa.

Havia também a resistência do Reino Unido em desenvolver instituições paralelas à OTAN e a oposição dos Estados Unidos a uma estrutura de defesa sem a sua participação. Nos anos 90, a então secretária de Estado,Madeleine Albright,sugeriu que a Europa priorizasse “3 Ds”: não diminuir a OTAN, não duplicar esforços e não discriminar países não-membros.

O Brexit e a chegada de Trump à Casa Branca, com o descrédito imputado por ele às alianças, estimularam os europeus a destravar o projeto. O cenário externo adverso se soma ao fortalecimento do elo franco-germânico e à “normalização” da Alemanha (projeção de poder).

PESCO

O todo-poderoso presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, considera a PESCO a bela adormecida do Tratado de Lisboa. Embora prevista no tratado, nunca tinha saído do papel.

No Twitter, Juncker explicou que a defesa europeia não pode mais ser terceirizada. Uma alusão sutil à OTAN sob a liderança dos Estados Unidos. Sempre é bom lembrar que Trump ameaçou não ajudar militarmente países europeus “em débito” com a organização.

O entusiasmo de Juncker tem muito de publicidade, uma vez que a PESCO está longe de ser uma União Europeia de Defesa, com Forças Armadas supranacionais. Trata-se de uma rede para cooperação, com mais comprometimento financeiro, institucional e operacional do que qualquer iniciativa anterior. Mas os governos nacionais mantêm soberania sobre defesa e segurança.

Liderado por França e Alemanha, o acordo ganhou estamina com a criação do Fundo Europeu de Defesa, em junho passado. A partir de então, serão destinados €5,5 bilhões de euros anuais para pesquisa e capacitação. O valor aumentará a partir de 2020.

A PESCO engloba17 projetos, incluindo pesquisas e um centro de treinamento pan-europeu. Mas o objetivo imediato é padronizar equipamentos e processos de formação de recursos humanos.Enquanto os Estados Unidos têm 30 sistemas de armas – o que facilita a reposição de peças, a logística e o treinamento de pessoal – os europeus possuem mais de 170.

Para a ministra da Defesa da Alemanha,Ursula van der Leyen, a eleição de Donald Trump incentivou a Europa a buscar um modelo complementar à OTAN. Potencial candidata a ocupar o cargo de chanceler no pós-Merkel, van der Leyen considera que um presidente com discurso “America First” em Washington, e a instabilidade em regiões como Oriente Médio, Norte da África e Ucrânia tornam o momento oportuno para a PESCO.

Robert Kagan, autor de “Of Paradise and Power: America and Europe in the New World Order” já disse que não existe cura para a divergência transatlântica. Segundo o neoconservador, o único caminho para as relações entre Estados Unidos e Europa é concordar em divergir. A PESCO resume bem essa ideia.

Se Trump pode ser levado a sério, a iniciativa europeia tem tudo para agradar ao atual governo em Washington. Mais gastos e menos sobrecarga na OTAN são o que o republicano chama de compartilhamento de responsabilidade.

Mas um dito popular avisa: cuidado com o que se deseja; pode tornar-se realidade.

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