Os Primeiros Nove Meses do Governo Trump: sua lógica e breves prognósticos

por Rafael R. Ioris*

Muito tem se especulado sobre como seria o governo Trump, desde antes de seu início. De fato, estamos muitos, ao redor do mundo, desde o dia 8 de novembro de 2016, a tentar traçar e, agora, a tentar entender o chamado governo Trump. Mas, para além dos seus twits normalmente bombásticos, há algo substantivo por detrás dessa administração, uma das mais convulsivas da história recente dos EUA?

Apesar de ter se cercado por nomes fortes do setor militar e empresarial estudo-unidense, como seu Ministro da Defesa, General James Mattis e  Rex Tillerson, eu Secretário de Estado, de quem muito se esperava, especialmente nas áreas de política exterior e política econômica, Trump tem tido muito pouco a demonstrar por meios de alterações significativas nas principais políticas públicas do país. Da mesma forma, apesar de constar com maiorias do partido Republicano nas duas casas congressuais, o estilo abrasivo do presidente, embora tenha, por vezes, se envolvido pessoalmente em negociações parlamentares específicas, não foi até o momento capaz de aglutinar apoio necessários para mudanças em legislações chave, como nas áreas da saúde, tema que tem sido  carro-chefe das campanhas Republicanas ao longo dos últimos oito anos.

Em linhas gerais, a maior inflexão até agora percebida foi uma de estilo presidencial, excessivamente personalista e midiático, que tem apresentado vários desafios para seus assessores mais próximos, dentre os quais, mais de uma dúzia já foram demitidos ou se ausentaram da administração, inclusive seu principal confidente, Steve Bannon, seu ex-assessor especial e ex-chefe de campanha. Assim, dentro do caos de um governo pautado não por uma agenda específica, mas sim por manchetes diárias, muitas das quais expondo escândalos de corrupção e influência estrangeira na eleição, não é surpreendente que muito pouco tenha sido implementado, especialmente pela via legislativa.

Mas se essa paralisia tem feito com que mesmo fortes ex-apoiadores do presidente dentro do partido Republicando estejam agora se distanciando do mesmo – em especial o Senador do estado do Tennessee, Bob Corker, que semana passada emitiu fortes críticas ao presidente, a quem vê como efetivamente não apto ao exercício da função –, vimos nos últimos dias um Trump tentando reagir ‘a inércia e ‘a má fase que está enfrentando. Não esperando mais pela aprovação de ambiciosas legislações que requerem o envolvimento do Congresso, Trump aprofundou ainda mais sua prática de governar via Ordens Executivas e decidiu agir de modo agressivo contra o legado de seu antecessor, o ex-presidente Barack Obama, frente a o que sua campanha foi, em grande medida, pautada.

Assim, por meio de uma série de assinaturas, Trump reverteu regulações ambientais criadas nos últimos anos, especialmente nas áreas da qualidade do ar e da produção de carvão, cancelou a política de permissão de jovens indocumentados continuarem no país, tornou muito mais difícil o participação de pessoas nos planos de saúde subvencionados pelo governo federal, e se recusou a reconhecer que o Irã esteja comprindo com suas obrigaçôes frente ao acrodo nuclear de 2015, abrindo assim o caminho para um possível cancelamento da participalçao dos EUA no acordo.

Se tais medidas claramente tem como foco mostrar para sua base mais próxima que seu governo não está parado, os riscos de tais ações são altos, mesmo entre seus partidários no Congresso. Embora até o momento somente Corker tenha publicamente assumido sua posição de questionar a própria continuidade do presidente no cargo, muitos afirmam que tal posição crítica esteja crescendo dentro do partido Republicano, cujos membros, controlando ambas casas legistlativas, são chave para a abertura ou não de um processo de impedimento presidencial.

Não creio que estejamos ainda frente a uma crise de ruptura institucional dessa magnitude. A maioria Republicana ainda parece estar contando que o apoio a Trump por partes importantes do eleitorado é fundamental para aprovação de uma reforma fiscal de matriz conservadora, e muitos temem que antagonizando abertamente a Trump, possam ser retaliados por Bannon nas primárias do ano que vem. Ao mesmo tempo é certo que muitos dos atuais congressistas do partido Republicano estarão avaliando, ao longo dos próximos meses, se estar associado a Trump é uma vantagem ou um ônus crescente. Da mesma forma, Trump deveria estar atento aos rumores do eleitorado pois um Senado Democrata a partir do final de 2018 será uma ameaça muito maior para seus interesses e própria sobrevivência.

* Rafael R. Ioris é Professor de História Latino-americana e Política Comparada da Universidade de Denver.

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